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Os Parcels dividiram Paredes de Coura com os The National e os KOKOKO!

Os Parcels dividiram Paredes de Coura com os The National e os KOKOKO!

No dia de arranque da 28.ª edição os brasileiros Boogarins e a australiana Julia Jacklin não ficaram na sombra do resto do cartaz, que oscilou entre a melancolia e os ritmos mais dançáveis.

Comecemos pelo fim. Não há hora certa para começar uma festa, nem há forma de antecipar quando é que de um momento mais negro e denso se pode passar para um ambiente de pura alegria. Quer dizer, não é possível fazê-lo se não se conhecer os KOKOKO! e se eles não andarem por perto, como aconteceu no dia de arranque da 28.ª edição do Vodafone Paredes de Coura, já de madrugada, quando a banda de Kinshasa, República Democrática do Congo, resgatou o público que esgotou o primeiro dia de uma actuação mais taciturna empreendida pelos The National. Os The National estavam de regresso ao mesmo sítio onde tocaram há 14 anos, no mesmo dia em que os Parcels transformaram o anfiteatro natural frente ao palco grande numa pista de dança e arrebataram o público que, em massa, respondeu aos australianos com uma gigantesca coreografia de movimentos de inspiração disco e funk.

Já passava das 2h30 quando os congoleses subiram ao palco, já no after-hours — antes de o actor e DJ Nuno Lopes, como é habitual em anos anteriores, fechar um dos dias do festival — e depois de uma longa actuação da banda dos irmãos Dessner e Devendorf a celebrar duas décadas de existência. Os cinco músicos, todos de fato-macaco amarelo, quais operários da boa disposição, investiram numa espécie de amálgama de ritmos africanos e sintetizadores, feita com alguns instrumentos construídos pelos mesmos a partir do desperdício, para garantirem que nenhuma pessoa que se juntou em torno daquele palco fosse para casa presa à depressão do indie rock mais nebuloso dos The National, que tinham acabado de encerrar o palco principal.

A missão dos KOKOKO! tem tanto de simples como de eficaz. Querem garantir que ao som da música que fazem ninguém fique preso de movimentos. Conseguem com sucesso arrancar um esboço de dança ao pé-de-chumbo mais pesado que os ouça. A comprovar essa tese estiveram muitos milhares que saltaram directos do concerto dos norte-americanos para aquela zona do recinto. Depois de terem passado no ano passado pelo Nos Alive, chegaam a Coura com o álbum de estreia Fongola, lançado há um mês. Ao vivo, como foi possível testemunhar, não perdem a força registada em estúdio. Pelo contrário, ganham mais músculo e dobram a energia.

PÚBLICO - Foto Parcels Paulo Pimenta O disco contagiante dos Parcels

Mais cedo, aos Parcels foi entregue a mesma missão, mas para uma plateia na casa das dezenas de milhar. No caso dos australianos, tinham o anfiteatro inteiro para fazer dançar. Talvez tenham conseguido uma das maiores pistas de dança que alguma vez Paredes de Coura viu. Olhos nos olhos com o público, os músicos, todos a aparentar terem saído directamente dos anos 1970 apesar de não terem idade para isso, alinham em movimentos de dança contagiantes ao som de um disco dance que estica até ao soul e ao funk. A plateia retribui com uma coreografia de proporções épicas que como linhas mestras tem apenas o som que vem dos instrumentos do colectivo. Em resposta, a banda dá ainda mais um pouco, engrenando numa espécie de máquina que vai ficando mais compacta e se vai alimentando a si mesma, crescendo até à fusão perfeita com o público, que não se conteve na comunicação com o grupo, feita de ovações e com recurso aos melhores passos de dança que cada um tem para oferecer.

Apesar de o disco e do funk estarem na raiz de quase todas as músicas, os Parcels chegam a sítios muito distantes de uma base musical feita apenas para dançar. Em certos momentos entram numa espécie de viagem psicadélica mais experimental, chegando perto do que seria esperado encontrar num dos primeiros álbuns de Pink Floyd ou em bandas mais recentes de matriz mais psych-rock, embora, fundamentalmente, sejam uma banda mais dançável.

Os australianos também já tinham passado por Portugal em 2018, no Super Bock Super Rock, e também só têm um álbum, homónimo, editado no mesmo ano. Pela forma como foram recebidos ninguém diria que coleccionam apenas um trabalho de estúdio. Apesar de serem uma banda recente, não será por acaso ou por sorte que conseguiram garantir a melhor reacção do público no primeiro dia do festival. Créditos sejam dados ao colectivo que tem toda a margem de progressão para se tornar num caso sério no circuito onde se move.

The National: 20 anos, 20 temas

Sem nada a provar os The National, que actuaram antes, regressaram ao festival onde em 2005 tocaram com tudo ainda por conquistar. Nessa altura, tinham acabado de editar Alligator, álbum referência dos norte-americanos, e actuavam no ano em que Coura apresentou os Arcade Fire ao público português. Não foi um concerto que ficou para a história, mas serviu-lhes de porta de entrada para uma série de novas visitas a Portugal, que foi acompanhando o crescimento do grupo até chegar à dimensão que tem hoje.

PÚBLICO - Foto Público durante o concerto dos The National Paulo Pimenta

Para os 20 anos de existência que este ano celebram, tocaram 20 temas, revisitando os oito álbuns de estúdio, passando pelo mais recente I Am Easy to Find (2019). Tocaram todos os temas que tinham de tocar, fizeram chorar alguns fãs e recordaram a primeira passagem pelo mesmo palco. Porém, apesar de terem andado com o público na mão durante toda a actuação e de, a par dos Parcels, terem conseguido a maior enchente, fica a sensação de que o tom melancólico do vocalista Matt Berninger pesa ao fim de uma hora e meia de indie rock pintado pelo lado mais negro do género. Os The National garantiram uma actuação competente e tiveram o público sempre do seu lado. No entanto, se da primeira visita a Paredes de Coura sobra mais a nostalgia do que a glória, neste regresso fica a sensação de que não terá sido agora que atingiram o patamar do memorável.

Uma promessa chamada Julia Jacklin

Ainda durante a tarde subia ao palco principal uma das maiores promessas do cenário musical mais recente. A australiana Julia Jacklin encontrou no seu indie folk uma via aberta para a maturidade. A vocalista-guitarrista disse em várias entrevistas que foi com Britney Spears que despertou para a música, ao ponto de estudar canto por influência da estrela teen pop. A milhas do seu “guilty pleasure" da adolescência, não faz música para massas mas tem fibra para angariar uma base fiel de seguidores. Se a intérprete de Baby one more time usava o apelo da sensualidade para fazer tirar o sono a rapazes adolescentes e servir de modelo a raparigas com “daddy issues”, Jacklin dá um murro nos dentes ao machismo com uma pancada seca e eficaz, como acontece em Head alone. “I don't want to be touched all the time. I raised my body up to be mine”, cantou em Paredes de Coura com a guitarra presa às mãos num palhetar firme de um ritmo de dois acordes que leva a música ao colo, enquanto uma melodia também a seis cordas se impõe entre um baixo que lá está para dar corpo a uma bateria que marca o tempo a prato de choque e tarola, sem pressa.

Em Don't know how to keep loving you, com riff de guitarra pegajoso a seguir a voz da vocalista, que a meio do tema cresce para solo, põe a nu as inseguranças de um relacionamento sem segredos por desvendar. “Don't know how to keep loving you now that I know you so well”, repete sem receio de se expor e talvez na esperança de encontrar uma resposta. Numa fase já de aceitação com a ruptura entra em Pressure to party, tema com refrão orelhudo com o qual termina a actuação — como os outros dois, este também é do último álbum Crushing, de 2019.

De Goiâna vem o sertanejo e vieram também os Boogarins, de regresso a Portugal para tocarem no palco principal de Paredes de Coura. Dinho Almeida (voz e guitarra) e Benke Ferraz (guitarra e samples) quando em 2012 gravaram os primeiros esboços do EP As Plantas Que Curam, que mais tarde saiu como primeira longa duração do colectivo, passaram por cima da música tradicional da capital do estado de Goiás para chegar mais perto do psicadélico que na década de 1970 se fazia nos Estados Unidos ou no Reino Unido, com um pé nos Mutantes. Nem sequer sonhavam aí que em menos de uma década percorreriam palcos pelo mundo inteiro a cantarem em português do Brasil sem estarem agarrados à Bossa Nova ou à MPB, que, cantados na língua materna, sobrevivem em países que não falam o mesmo idioma.

Neste regresso, com Raphael Vaz Costa (baixo e sintetizadores) e Ynaiã Benthroldo, que substituiu Hans Castro da formação original na bateria, chegam com novo álbum, o quinto. Sombrou Dúvida ainda não tem três meses, mas já rodou em mais de duas dezenas de palcos antes de chegar a Portugal. Aqui estavam quase em casa — já passaram pelo nosso país quase uma mão cheia de vezes. A primeira, em 2014, no Milhões de Festa. Sem barreiras de comunicação entregaram-se a melodias fáceis de assimilar. Leve como uma pena, o som dos brasileiros é ao mesmo tempo desafiante, quando entram pelo lado mais progressivo, sempre sem perderem o norte, direcção para onde aponta a bússola que é a voz de Dinho, agarrada a linhas reconfortantes, quase a funcionarem como uma massagem ao cérebro.

De Portugal sabe-se lá para onde poderão ir nos próximos meses. Diz Dinho que os Boogarins são uma banda em “eterna digressão”. Em Paredes de Coura sabe-se que até sábado passam pelos dois palcos, entre outros, New Order, Father John Misty, Spiritualized ou Patti Smith.

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