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À chegada à televisão, os bons pecados de “Good Omens”

À chegada à televisão, os bons pecados de “Good Omens”

A série inspirada no livro de Terry Pratchett e Neil Gaiman está longe de ser perfeita, mas a química entre os personagens interpretados por Michael Sheen e David Tennant podem fazer a viagem valer a pena.

Freiras satânicas, um demónio fã de Queen e um anjo que oferece uma espada de chamas a um casal de humanos (que por acaso são Adão e Eva). Esta frase descontextualizada pode gerar alguma confusão ao leitor, mas também é provável que desperte um nível de curiosidade proporcional. Oferecendo algum contexto, estes são os 20 minutos iniciais de Good Omens, mini-série produzida pela BBC e pela Amazon Studios e lançada na plataforma de streaming da última. Tem por base o livro Bons Augúrios (Ed. Presença), da autoria de dois grandes mestres da literatura fantástica, Terry Pratchett (Nação e série Discworld) e Neil Gaiman (Deuses Americanos, Coraline e a Porta Secreta e a série Sandman).

Este projecto, que durante anos foi passado de mão em mão por várias equipas criativas, foi posto de parte por Gaiman em 2015 após a morte de Terry Pratchett. Gaiman recordou mesmo em 2016, numa homenagem ao seu falecido amigo, o momento em que o seu assistente, Rob Wilkins, lhe pediu para adaptar a série — escritor respondeu “absolutely not”, porque ele e Pratchett tinham combinado que só trabalhariam na adaptação de Good Omens juntos. Esta atitude apenas viria a mudar no dia em que Gaiman recebeu uma carta póstuma de Pratchett onde este lhe pedia que concluísse a adaptação do livro. “Nesse momento acho que pensei, ‘seu desgraçado, sim’”, contaria depois Neil Gaiman.

O escritor reuniu uma equipa e levou o projecto para a frente. Good Omens começou a ganhar forma (e star power) quando Michael Sheen (Masters of Sex, Frost/Nixon) e David Tennant (Doctor Who, Jessica Jones) foram anunciados para os papéis principais, respectivamente como anjo Aziraphale e o demónio Crowley — dois seres que habitam a Terra há mais de 6000 anos e que acabam por cultivar uma profunda amizade e adoptar os prazeres terrenos dos humanos. Aziraphale é um apaixonado por comida e alfarrabista, Crowley é fã de Queen, conduz um Bentley de 1926 e tem a casa repleta de plantas. É nestes britânicos que recai a maior parte do foco da câmara e são eles que a carregam durante os seus seis episódios, apesar das aparições curtas de grandes talentos como Jon Hamm, que nos curtos minutos em que aparece arrasa no papel de, nas suas palavras, “archangel fucking Gabriel”, de Nick Offerman ou de Frances McDormand como Deus e Benedict Cumberbatch no papel de Diabo — sendo que estes últimos apenas emprestam a voz às personagens que interpretam.

O enredo, uma mistura de diversos estilos, podia, na sua essência, ser descrito como uma reimaginação de O Génio do Mal através da mente do ex-Monty Python Terry Gilliam (que, inclusive, esteve interessado em transformar o livro em filme com Robin Williams e Johnny Depp no elenco). Crowley entrega o recém-nascido Anticristo, filho de Satanás, a um grupo de freiras satânicas para estas o trocarem com o filho de um embaixador dos Estados Unidos para que este seja educado rumo a um objectivo: desencadear o apocalipse no seu 11.º aniversário. No entanto, os seus planos saem furados e Aziraphale e Crowley descobrem que o rapaz que supervisionaram ao longo de anos era a criança errada. As freiras fizeram mal a troca e Adam Young, interpretado por Sam Taylor Buck, vivia afinal numa cidade rural em Inglaterra como uma criança normal.

É daqui que o enredo começa a adquirir contornos mais imprevisíveis, com os dois protagonistas a unirem esforços para evitar que os seus superiores descubram que estiveram a fazer um mau trabalho durante 11 anos e, claro, para evitar o apocalipse, uma vez que pretendem continuar a usufruir dos prazeres mundanos que aprenderam com os seres humanos.

Na generalidade as críticas a esta série são agridoces. Tal como aponta Lucy Mangann no The Guardian, os melhores momentos da série surgem nas interacções entre estes dois bon vivants, que têm uma hipnotizante e transbordante química. Alguns bons momentos são os flashbacks que os colocam no centro de eventos bíblicos (na expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, na construção da Arca de Noé), do folclore medieval (Aziraphale fazia parte dos cavaleiros da távola redonda do Rei Artur), ou em momentos da história moderna (na Revolução Francesa ou na Guerra Fria). Aziraphale e Crowley são o yin e o yang que debatem a moral e a lógica das decisões dos seus superiores e as burocracias do céu e do inferno. Ambos despertam o melhor um do outro: o simpático anjo com a sua personalidade inocente tenta fazer com que o demónio revele o seu lado mais simpático e aja de uma for mais moral; e o demónio de língua afiada que tenta fazer com que Aziraphale seja mais ousado e arriscado na sua conduta. No entanto, “existe uma sensação de que todos estão a marcar passo até [os protagonistas] voltarem a aparecer”, escreve a crítica britânica.

À série foram também apontadas críticas pela leveza com que tratou os fortes temas explorados no livro, como assinalava Samantha Nelson no site The Verge, mas há quem veja aí a fonte do charme da produção BBC/Amazon. “O humor de Good Omens depende em grande parte de pegar em algo extremamente banal e familiar para a audiência e colocá-lo ao lado de algo fenomenalmente grandioso e exótico”, escreve Brian Phillips no site The Ringer. No fundo, Good Omens é uma série sobre dois seres maiores que a vida que acabam por criar um forte laço de amizade e uma ligação ao planeta Terra e aos seus hábitos terrenos. 

Good Omens gerou ainda uma outra reacção surpreendente: um grupo cristão lançou uma petição para a Netflix (apesar de a série ser um produto da Amazon) cancelar a série por, segundo estes, ela normalizar o satanismo. Este incidente gerou respostas bem-humoradas da equipa, uma proposta da Amazon, via Twitter, à Netflix: se estes cancelassem a série Stranger Things, a Amazon retiraria Good Omens do seu catálogo.

Texto editado por Joana Amaral Cardoso

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