www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 ago 03:47

O “já” do Dr. Pardal. E depois?

O “já” do Dr. Pardal. E depois?

Uma sociedade comandada por valores em que o futuro não conta vive do imediatismo. Uma greve por tempo indeterminado ou é um êxito imediato ou um desastre.

O tempo onde estamos mergulhados acelerou, sobretudo no que faz acontecer. Tudo parece voar.

A apreensão do tempo é a perceção de saltos de acontecimentos que se dão e, em grande medida, nos são transmitidos pelos media. O tempo é o grande invólucro onde tudo sucede, se incumba e se transforma. As sociedades humanas vivem a um novo ritmo.

Uma característica desta velocidade é trazer no seu bojo mutações rápidas que alteram a realidade da produção e consequentemente o modo dos seus atores percecionarem a realidade circundante.

Por via dessas mutações, sobretudo tecnológicas, gerou-se uma atomização propenso ao individualismo. O que conta é o imediato. É a realidade pós moderna.

Tudo parece volátil e vazio, pois os instantes dão lugar a outros instantes. A um ritmo frenético. E ponto. Quase como se não houvesse passado e o futuro fosse já o que se vive, o imediato. Como se o genial poeta persa, Omar Kháyyám, voltasse a incitar a beber vinho porque o dia de amanhã não interessa, apenas a alegria do instante. O amanhã para o grande vate era o nada a que todos estão condenados.

O sindicalismo vive também tempos de mudança. Por ação das forças que comandam as relações produtivas e dos seus impactos na mente dos atores dos processos.

É interessante tentar a esta luz compreender como a luta de uma classe (ou um setor, no caso o dos motoristas de matérias perigosas) que exige unidade, determinação, sacrifício e ação coletiva, se revê num dirigente cujo perfil é exatamente o oposto da própria natureza do mundo que representa.

No caso destes motoristas, estão em causa condições de trabalho duras e o seu principal líder assume uma vida de capa de revista de famosos e alega ter uma atividade como advogado de renome internacional, o que lhe assegura, segundo o próprio, um escritório de enorme sucesso mundial. O seu aspeto bem cuidado nada tem de ferrugem, antes está mais próximo do glamour.

A forma de luta adotada – uma greve de abastecimento de combustível por tempo indeterminado – visa criar tal impacto na vida da comunidade que obrigaria por pressão do governo a Antram a ceder.

Ora, no domínio da luta política é necessário e obrigatório ter em conta as armas do patronato e, no caso presente, ainda as do Governo, que tentou a conciliação e, não o conseguindo, certamente usaria os poderes de que dispõe, e que são imensos. Todos se recordarão do impacto da greve de abril. E seria de supor que o Governo não se deixasse surpreender.

Obriga ainda a refletir o sentido que leva o sindicato de motoristas de matérias perigosas a não se rever na CGTP ou UGT e a identificar-se com um líder cujo perfil está a léguas da realidade de quem conduz camiões e autotanques.

Por outro lado, são muitos os que trabalham e pedem aos patrões para não fazer descontos porque o peso do presente é infinitamente superior ao tempo futuro; o que vale dizer que o futuro que se lixe.

Do que se lê e do que se ouve do Dr. Pedro Pardal Henriques, ele acredita que com esta liderança assegurou o seu futuro. Os mercadores das vontades são uma espécie de cucos que fazem ninho em terreno que não é deles.

Esta é uma nova realidade que salta aos olhos de todos. Mesmo no mundo sindical. O que conta é o “já”. Aliás, o “já” é bem mais fácil que o “e depois?”.

O mundo está a mudar. O ritmo é avassalador. Não voltará aos tempos antigos, mas certamente que o passado voltará a pesar. As lições destes imediatismos custarão a ter em conta, mas será inevitável apreender e aprender o caminho das lutas futuras.

Nem sempre os cálculos baseados no imediatismo batem certo, porque os outros também os fazem e podem opor-se com sucesso, o que qualquer dirigente deve ter em conta na condução das batalhas.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

1
1