observador.ptJosé Miguel Pinto dos Santos - 15 ago 00:01

Mais vale nomear… quando não se pode remediar

Mais vale nomear… quando não se pode remediar

É melhor não nomear como Procurador de Cuidados de Saúde esposo, ascendente, descendente ou outra pessoa que nos considere uma espécie de, ou complemento da segurança social.

A cacotanásia [1] de Vincent Lambert (1976—2019) por desidratação medicamente induzida deve recordar-nos da nossa mortalidade e de que, se não nos preparámos para o nosso nascimento, ao menos devemos preparar-nos para a nossa morte, principalmente se tivermos o azar de esta ocorrer em ambiente hospitalar.

Como? Fazendo um testamento vital, ou diretiva antecipada de vontade (DAV), instruções elaboradas antecipadamente sobre os tratamentos médicos que desejamos aceitar ou recusar no futuro no caso de nos encontrarmos incapazes de exprimir e tomar as nossas próprias decisões. Um dos painéis do formulário da DAV dá a opção de nomearmos um Procurador de Cuidados de Saúde, pessoa que interpretará as nossas presumíveis opções em coerência com as nossas indicações expressas nesse documento.

E quem será a pessoa mais indicada para Procurador de Cuidados de Saúde? Provavelmente será:

  1. quem tem mais a peito o nosso bem-estar; e
  2. quem tem uma perspetiva filosófica do nosso bem-estar que mais se assemelha com a nossa perspetiva filosófica do nosso bem-estar.

Poderá ser esposo, ascendente, descendente outra pessoa. Como os casos mediáticos de Vincent Lambert e Terri Schiavo (1963—2005) demonstram, a perspetiva filosófica dos pais sobre o bem-estar do filho incapacitado pode ser totalmente diferente da do esposo. E é exatamente por isso que vale a pena nomear um Procurador de Cuidados de Saúde que valorize a nossa vida de modo semelhante a como nós a valorizamos.

A importância que a pessoa que fica com a tutela do incapacitado deve dar aos interesses e bem-estar deste foi sublinhada numa decisão judicial, já muito antiga, proferida pelo magistrado Ōoka Echizen no Kami Tadasuke (大岡越前守忠相, 1677—1752). Relata um escrivão:

“Foi apresentado neste dia a este tribunal um caso referente a um rapaz de cerca de seis meses sobre o qual duas mulheres reclamavam a maternidade. Do interrogatório ficou estabelecido que ambas são residentes recentes nesta grande cidade de Edo e que partilham uma casa em Akasuka. Ambas também admitiram que não podem apresentar testemunhas que suportem as suas respetivas alegações. Tendo o Eminente Juiz [2] declarado que, como do interrogatório de ambas não é possível estabelecer inequivocamente qual é a verdadeira mãe da criança, e que no inquérito prévio não foi descoberto qualquer indício que pudesse determinar quem de facto é a progenitora, ordenou que lhe trouxessem o molhe de paus de bambu usados em adivinhação. Quando estes lhe foram entregues atirou-os ao chão de acordo com o estabelecido pelo ritual, e depois de estudar cuidadosamente os prognósticos por eles revelados declarou solenemente:

“Vi agora claramente quem é a verdadeira mãe deste rapaz. Vi também, inequivocamente, que daqui a vinte anos este rapaz sofrerá um grave acidente que o tornará inválido e imprestável. E vi a verdadeira mãe a trabalhar nos campos de arroz ao sol e ao calor para o sustentar. E vi que a mãe deste rapaz é…’

“Nesse momento uma das mulheres, sem consciência da dignidade da sala do tribunal nem da solenidade do momento gritou:

“‘Pare! Não sou eu! É suposto serem os filhos a suportarem os pais e não ao contrário.’

“Ao que o Eminente Juiz, voltando-se para a outra mulher, lhe perguntou: ‘O que acha desta adivinhação?

“Respondeu-lhe esta: ‘Não me faz qualquer diferença, Eminência, é o meu filho. Trabalharei para o sustentar enquanto tiver vida, e morrerei contente sabendo que tudo terei feito para o ajudar a ser feliz.’

“Disse então o Eminente Juiz: ‘Este é na verdade o teu filho, e esta é a minha sentença. A outra é impostora e apenas o queria para que a suportasse na velhice”.

“E acrescentou: ‘E continuando com o que vi nos paus de bambu: Passado algum tempo o teu filho recuperará da sua invalidez e tornar-se-á rico e famoso. E tu viverás com ele, sua mulher e os seus treze filhos até ao fim dos teus muitos anos de vida feliz.”

A este registo foi acrescentado, muitos anos depois, por outra mão, a seguinte observação: “Também esta adivinhação de Ōoka Tadasuke se veio a realizar.”

Moral da história: é melhor não nomear como Procurador de Cuidados de Saúde esposo, ascendente, descendente ou outra pessoa que nos considere uma espécie de, ou complemento da segurança social. Quem quer contribuir para uma segurança social que sabe irá falir?

(O avtor não segve a graphya do nouo Acordo Ørtvgráphyco. Nem a do antygo. Escreue como qver & lhe apetece.)

[1] Cacotanásia: morte miserável e dolorosa, como a de um caracol a ser cozido num restaurante, de um coelho a estrebuchar nas goelas de uma serpente, de uma mosca a ser petiscada viva por uma aranha numa teia, de uma vaca a ser abocanhada até à morte por um cardume de piranhas, de uma gazela a ser comida viva por leões, ou de uma pessoa a ser desidratada numa cama hospitalar. Curiosamente, de todas estas, a que hoje causa mais escândalo no Observador é a morte horrorosa do caracol. Isto é, a do caracol no restaurante, não a do caracol que é engolido vivo por corvo ou galinha, e que é dissolvido consciente e dolorosamente por sucos gástricos de elevado grau de acidez durante horas no meio da escuridão mais absoluta. E nem o PAN nem o BE [3] propõem nenhuma medida contra esta selvajaria da classe das aves contra a classe dos gastrópodes? E dada a hipótese de o poderem fazer, o que será que escolheriam os caracóis: morte no restaurante ou morte no papo da galinha?
[2] Juiz: metediço que faz profissão de se meter em disputas alheias; pessoa que mostra quem é quando passa sentenças sobre os outros; em tempos antigos podiam chamar a si outras tarefas de interesse público como Chamegar, filho de Anat, que com
um aguilhão de bois derrotou seiscentos filisteus [4] . A avaliar pelo número de filisteus no nosso país é de lamentar que já não haja juízes como Chamegar.
[3] BE: bloco de esquerda; organização política que pretende ser, ao mesmo tempo, gauche, sinistra e canhestra e dar voz a quem o é e não tem vergonha de o ser. A diferença entre a ala gauche e a canhestra do BE é a primeira estar reservada a quem parle français, bastando ser-se capaz de assinar de cruz para se obter admissão na canhestra. O que as une é serem ambas
sinistras.
[4] Filisteu: membro de antiga tribo antissemita de Canaã. Golias de tamanho normal. Antepassado intelectual dos srs. Adolfo Hitler e Jeremy Corbyn (este é a versão anglo do nosso eng. Costa). Boçal com ares e/ou fama de intelectual. Intelectual português do BE que aprecia teatro experimental. O Pe. Mário Centavo, no vol. 17 da sua Opera Omnia, especula que
aquando da invasão de Nabucodonosor II alguns filisteus terão escapado e terão encontrado refúgio nos verdejantes vales dos Ministérios da Cultura e da Educação da Lusitânia, vales onde correm leite e mel, teoria bastante plausível dado o estado passado & atual da nossa cultura e educação. Falta-nos um Chamegar.

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