blitz.ptblitz.pt - 14 jul 05:48

NOS Alive: O cafuné de Bon Iver na última noite do festival

NOS Alive: O cafuné de Bon Iver na última noite do festival

Justin Vernon e amigos deram concerto emotivo, algo deslocado no palco maior de um grande festival como o NOS Alive. O músico não se deixou fotografar

O serão está ameno, os ânimos calmos (excepto na zona do palco Sagres, ainda a recuperar da 'coça' rock dos Idles). Bon Iver, o alter ego de Justin Vernon, que prefere chamar-lhe banda, ocupa o palco maior do NOS Alive pelas nove e meia da noite, e damos por nós a pensar: será que alguma vez o norte-americano também se interroga como chegou aqui? Afinal, a música a que se vem dedicando é progressivamente experimental, como se da cabana na floresta onde gravou a sua marcante estreia, "For Emma, Forever Ago" (2007), tivesse saltado para um estúdio (igualmente) solitário, com todo o tipo de efeitos de voz (e não só) à sua disposição. Vê-lo num palco enorme, acompanhado pela banda de três músicos e discretíssimo atrás do seu teclado & guitarra, chega a causar ansiedade: irá uma proposta tão intimista sobreviver à energia devoradora de um grande festival de verão?

Na verdade, sim. Ainda que depois do sucesso de "For Emma..." e do seu sucessor, o panorâmico "Bon Iver, Bon Iver" (2011), Justin Vernon tenha seguido um caminho ainda mais introspetivo, que agora se reflete até na proibição de fotógrafos nos seus concertos, há um calor humano que escapa das suas canções e se revela capaz de conquistar os festivaleiros.

Para agosto está prometido um disco novo; por enquanto concertos como o desta noite destinam-se a enterrar a era "22, A Million", disco de dez temas dos quais nove marcaram presença no concerto de Algés. Antes de uma delas, '29 Strafford APTS', Justin Vernon sugere que, se o público estiver na posse de "haxe ou erva", esta será uma boa oportunidade para lhe darem uso. Minutos mais tarde, recomenda aos seguidores que não tentem com demasiada força apaixonar-se, e gastará ainda alguns minutos do seu tempo a agradecer a gentileza do público nacional, para o qual sente ter o privilégio de tocar.

Entregando-se de alma e coração às canções, ora com a voz "despida", ora brincando com o autotune que abraçou no último álbum, Mr. Vernon ofereceu um concerto honesto e de grande humildade, cujo intimismo nem sempre se coadunou, porém, com a dimensão e o cariz expansivo do palco principal de um festival como o NOS Alive.

Se os Idles tinham acabado de nos motivar com um metafórico pontapé nos queixos, Justin Vernon e amigos passam-nos a mão pela cabeça, providenciam abalo para casais apaixonados, conduzem uma viagem planante e atmosférica que convida a olhar para o céu sem estrelas, à espera de um sinal.

E depois há momentos como 'Skinny Love', um dos temas que catapultaram Bon Iver para uma ribalta improvável. História de coração partido e guitarra acústica, uma letra emotiva que nas primeiras filas faz lágrimas cair, voz cristalina e a prova de que uma boa canção de três ou quatro minutos é coisa que nunca perde valor ou importância.

Do segundo álbum, 'Holocene' e 'Calgary' foram outras das paragens em que nos sentimos confortáveis, nesta espécie de concha acústica de Bon Iver, em 2019 um mistério quase tão grande como quando se estreou com um disco-missiva a Emma.

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