blitz.ptblitz.pt - 14 jul 02:25

Os Smashing Pumpkins voltaram ao sítio onde já foram felizes: e Billy Corgan sorriu

Os Smashing Pumpkins voltaram ao sítio onde já foram felizes: e Billy Corgan sorriu

"Vocês levaram-me de volta àquela praça de touros em 1996", agradeceu emocionado o líder dos Smashing Pumpkins

Mais um herói do rock a passar pelo palco maior da edição deste ano do NOS Alive, Billy Corgan é uma personagem carismática e complexa, a quem habitualmente associamos uma disposição mais circunspecta do que soalheira. Porém, esta noite o norte-americano enfrentou a plateia que o aguardava -- possivelmente a maior que o festival viu este ano -- com um sorriso. No final do espetáculo, o homem que é sinónimo de Smashing Pumpkins agradeceu demoradamente aos fãs de Portugal, país onde, garante, a sua banda tem dado alguns dos seus melhores concertos. "Vocês levaram-me de volta àquela praça de touros, em 1996! Com a chuva!", exclamou, trocando impressões sobre essa badalada noite de Cascais com James Iha, o seu braço direito na guitarra.

A Algés, onde atuou na primeira edição do Alive, em 2007, Billy Corgan trouxe uma versão dos Smashing Pumpkins muito próxima da formação clássica; apenas a baixista D'Arcy recusou juntar-se à comitiva, sendo substituída por Jack Bates, filho de Peter Hook. "O Jack tentou ensinar-me umas palavras em português", contará o também comunicativo James Iha. "Jack, fala-lhes do Manchester United em português!". O repto foi recusado com timidez, mas a ideia que a banda -- na qual volta a alinhar, também, o baterista original Jimmy Chamberlin -- passa para o público é a de uma família se não feliz, pelo menos funcional q.b.

No centro de um palco aparatoso, com três figuras volumosas e de cores garridas, está naturalmente Billy Corgan. Com um casacão negro e comprido, o ícone dos anos 90 continua a ser a cara, a voz e o espírito de um grupo que inscreveu uma grande porção de clássicos no cancioneiro rock dos anos 90. Esta noite, intercalado pelas passagens pelos discos mais recentes a que poucos terão prestado atenção, esses êxitos -- de um tempo distante em que o rock alternativo de guitarras fincava as garras nos topes de vendas -- mostraram a cara e fizeram mossa.

'Bullet With Butterfly Wings', a sexta do alinhamento, foi apresentada com convicção suficiente para afastar a ideia de que Billy Corgan e amigos estariam apenas a "fake it for just one more show"; com o frontman na guitarra acústica, 'Disarm' mostrou não ter perdido nenhuma da sua alma, ao passo que 'Ava Adore', do disco mais eletrónico que, no final dos anos 90, dividiu as opiniões dos fãs de Smashing Pumpkins, soou algo baça.

Mas terá sido na sequência que começou em '1979' (dose extra de melancolia), passou por 'Tonight, Tonight' e acabou em 'Cherub Rock' que mais sentimos o impacto do cancioneiro dos Smashing Pumpkins clássicos.

Do álbum "Mellon Collie and the Infinite Sadness", '1979', por exemplo, é um caso raro: parece ter absorvido em si o espírito de meados dos anos 90, sem porém soar datada. Igualmente enxuta, 'Tonight, Tonight' atira amigos para os braços daqueles a quem chamam "mano", ao passo que os coros com que os fãs acompanham todos estes pedaços de história da banda levam Billy Corgan a sorrir. Aparentemente em paz com o seu passado, o timoneiro da banda de Chicago entrega-se aos doces braços da saudade, recordando então os bons tempos passados em Portugal, nomeadamente em Cascais. Após 'Today', última canção do alinhamento, ele demora-se em palco, depois de os companheiros (Iha, Chamberlin e Bates, mas também o guitarrista Jeff Schroeder e a multi-instrumentista Katie Cole) já terem abandonado os seus postos. Está grato e quer mostrá-lo aos fãs que, naquela hora e meia, viram a adolescência voar à sua frente, conseguindo tocar-lhe com os coros emocionados e os abraços fraternais àqueles que a música tornou seus irmãos.

Nem só de passado se fez o concerto: do álbum de 2018 saltaram duas canções para o alinhamento ('Knights of Malta' e 'Solara'), da fase "intermédia" ouvimos, em versão acelerada, 'The Everlasting Gaze' (colheita "Machina", de 2000). Mas tudo o que fuja ao período dourado dos Smashing Pumpkins mostra-os como uma banda sólida e competente; tudo o que sai de "Mellon Collie...", "Gish" ou "Siamese Dream" soa a clássico. Num cartaz onde os Cure (e até os Ornatos Violeta) foram uma das bandas mais celebradas, não há como negar que a nostalgia é cada vez mais a moeda forte do rock. Mas quando se tem um baú tão apaixonante como o dos Smashing Pumpkins, não há como não lhes entregar todo o nosso ouro.

Alinhamento

1. Siva
2. Zero
3. Solara
4. Knights of Malta
5. Eye
6. Bullet With Butterfly Wings
7. Tiberius
8. G.L.O.W.
9. Disarm
10. Superchrist
11. The Everlasting Gaze
12. Ava Adore
13. 1979
14. Tonight, Tonight
15. Cherub Rock
16. The Aeroplane Flies High (Turns Left, Looks Right)
17. Today

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