www.publico.ptpublico.pt - 14 jul 11:03

Um motim no Alive chamado Idles

Um motim no Alive chamado Idles

Na despedida do Nos Alive 2019, noite em que as atenções se viravam para Smashing Pumpkins e Thom Yorke, foram os ingleses a protagonizar um daqueles concertos que, ao primeiro segundo, já era um acontecimento. Para 2020, foi anunciada a reunião exc

Não é algo que vejamos muitas vezes. Não é seguramente algo que vejamos em todos os festivais. Mas, por vezes, bastam os primeiros segundos para se perceber que um concerto está prestes a tomar a dimensão de um acontecimento. E esse foi um sinal de fácil leitura na derradeira noite do Nos Alive 2019, este sábado, assim que se percebeu que os ingleses Idles iam entrar em palco.

De um segundo para o outro, o ambiente diante do segundo palco da hierarquia do festival de Algés tornava-se electrizante, antes sequer de um instrumento soar – o grupo era recebido com um incontrolado entusiasmo nervoso e a corrida de quem estava ainda a rondar a zona da alimentação para furar até às primeiras filas poucas dúvidas deixava. Talvez porque a reputação ao vivo dos Idles dá pistas suficientes para se esperar não menos de um tumulto em cada actuação; talvez porque a anterior passagem do grupo pelo Lisboa ao Vivo ganhou contornos de lenda contemporânea; talvez porque mesmo em disco é impossível não pressentir a explosão prestes a ter lugar quando estas canções ganham vida em concerto. E não houve expectativas que saíssem de rastos nem reputação que sofresse qualquer golpe traiçoeiro no Alive. Pelo contrário. Estávamos ainda no primeiro tema e já as guitarras soavam com uma fúria que não podia ser mascarada, já a bateria era açoitada sem clemência, já a voz berrava as suas verdades. E antes que terminasse esse tema inaugural, já Mark Bowen, um dos guitarristas, trajando apenas os seus habituais calções de banho, era engolido pelo público – na primeira de várias situações de crowdsurfing que haveriam de repetir-se.

Quando, logo a seguir, chegou a vez de Never fight a man with a perm, o clima era já de uma loucura desabrida, o vocalista Joe Talbot esbofeteava-se no rosto, uma das guitarras era arrastada pelo chão, com o ar empestado de uma sensação pouco habitual mas que deveria ser a meta de qualquer concerto: convencer-nos de que durante aquela hora tudo pode acontecer. E é isso que faz de um concerto dos Idles uma experiência tão avassaladora: não é difícil imaginar um motim a resultar deste encontro entre banda e público. Quando Talbot e capangas se atiram a temas cujas letras se dedicam a hastear a bandeira do feminismo, do socialismo ou da defesa das populações imigrantes, a apelar ao amor-próprio, a dissertar sobre os efeitos da depressão ou a soltar bílis sobre o fascismo, fazem-no sempre com uma desmesurada dose de amor ou ódio; é música de um excesso permanente.

PÚBLICO - Foto Coube aos Idles o concerto-acontecimento do último dia deste Nos Alive ANDREIA GOMES CARVALHO

Só que este é um excesso, à semelhança do que proclama o título do segundo álbum do grupo, Joy As An Act of Resistance, fundado em formas de resistência – pelo que, ao invés de cederem ao desespero e ao desânimo, estas são canções que ouvimos a latejar e a bombear sangue. Talbot queixa-se 15, 16, 17 horas diárias de trabalho da mãe (Mother), mas também “celebra” o infortúnio de viver numa estrangulada classe média (I’m scum) e dá voz a uma Love song deitado no chão, como se numa bebedeira lhe faltasse o equilíbrio e os filtros sociais que obrigam ao recato das emoções. Mas “recato” é precisamente uma das palavras para as quais os Idles não têm sinónimo, acoplando à sua Love song pedaços de Up where we belong (clássico na voz de Joe Cocker), Nothing compares 2 U (de Sinead O’Connor) ou From her to eternity (de Nick Cave: como se precisássemos de ser lembrados de que Cave, os Bad Seeds e os Birthday Party têm tudo a ver com isto a que assistimos).

Por muito que os Idles toquem numa série de pontos-chave que poderiam ser inventariados com frieza numa checklist de intenções calculista, há uma verdade a desprender-se desta banda que torna inverosímil estarmos perante um logro. Porque basta olhar com atenção para perceber que os Idles têm tudo para falhar: musicalmente não são brilhantes, têm um frontman cuja voz não passará pela cabeça de ninguém invejar, parecem, em suma, cinco tipos escolhidos de forma aleatória num bar de gente demasiado ocupada a sobreviver para se preocupar em fazer canções. Mas não têm nada a perder, portam-se como tal e lembram-nos, a cada passo, a defesa intransigente e bruta de um humanismo na base da pirâmide social que não pode ser fingido. Tudo isso, que faz deste concerto um acontecimento, torna dolorosas as actuações anteriores de Gavin James ou Tom Walker, ambos com ar de quem acaba de subir um par de degraus em relação à animação em pubs lá da terra (em relação a James, um grupo de escoceses havia de partilhar com o PÚBLICO esta definição: “é um bom cantor de karaoke”).

Os bicéfalos Smashing Pumpkins

Ao mesmo tempo que os Idles terminavam a sua demolidora actuação, os Bon Iver iam iniciando a sua passagem pelo palco principal do Alive, numa actuação que, por comparação (certamente injusta), haveria de parecer pálida e pouco audaz. Justin Vernon foi desfiando os seus melhores trunfos (Skinny love, Holocene ou Calgary) de uma folk-pop muito pessoal, com cedências jazzísticas e falsetes sonhadores, mas por aquela hora era ainda demasiado complicado suceder aos Idles. Aquele mesmo palco só voltaria a reclamar vida própria por inteiro com a chegada dos Smashing Pumpkins, numa prestação claramente bicéfala. E isto porque, sem grande surpresa, Billy Corgan, James Iha, Jimmy Chamberlin (da formação original) e restante banda logo tratariam de mostrar que o concerto funcionaria a dois tempos: Siva e Zero a recuperar os anos gloriosos dos Pumpkins, Solara e Knights of Malta a transportar-nos para um presente deslavado. Depois Eye (da banda sonora de Lost Highway) e Bullet with butterfly wings a voltar a elevar a fasquia, Tiberius e G.L.O.W. a puxá-la seriamente para baixo.

Billy Corgan foi oscilando entre um passado notável (aquele que diz respeito a Gish, Siamese Dream e Mellon Collie and the Infinite Sadness) e a infinita tristeza em que se tornou toda a sua produção posterior. Não por acaso, aliás, acabaria por recordar o mítico (e magnífico) concerto da banda na Praça de Touros de Cascais, numa noite de 1996 abençoada por uma chuva copiosa, e guardaria para o final uma imaculada sequência constituída por 1979, Tonight, tonight, Cherub rock, The aeroplane flies high e Today, temas de um período em que a música dos Smashing Pumpkins tinha uma riqueza de registos que não esbarrava na mesma afunilada e vulgar sonoridade que, preguiçosamente, se encostou ao peso das guitarras e por ali estacionou nas últimas duas décadas. E isso, como cantava Corgan em Eye enquanto se arrastava em modo Nosferatu pelo palco, “it’s not enough”.

PÚBLICO - Foto Os Smashing Pumpkins divididos entre um passado glorioso e um presente preguiçoso ANDREIA GOMES CARVALHO

Se os Smashing Pumpkins só convenceram enquanto encenação do passado, o PÚBLICO deixou-os aos 50 minutos de concerto, quando tocavam Superchrist, para perceber se, no palco secundário, Thom Yorke era capaz de transcender a sua condição de vocalista dos Radiohead num concerto assente nos seus álbuns a solo. A surpresa seria total, levando o público a um estado quase de euforia. Chegámos durante Has ended e logo se percebeu que o minimalismo electrónico construído a três no palco se revelava de uma qualidade inebriante. Os temas de The Eraser, Tomorrow’s Modern Boxes e ANIMA (e do projecto Atoms for Peace) por que Yorke foi passando pareciam feitos de uma matéria aquática, envolvente, abstracta, por cima dos quais a voz de Yorke se derramava de forma pouco impositiva, inventando um mundo fantasioso em que se embarcava com recompensador prazer. Com direito a encore por exigência popular, Thom Yorke deixaria o público em delírio (nos mais variados sentidos).

Por ali passara antes Marina (ex-Marina and the Diamonds), numa das mais gratas revelações do último dia de Alive. A bordo de um óvni despudoradamente pop, a cantora galesa daria uma prodigiosa lição de como apresentar um concerto feito de belíssimas canções (Orange trees, Primadonna, Karma, Savages ou How to be a heartbreaker), sem tretas, com um eficaz e pouco aparatoso espectáculo visual. O que traz também à memória as belíssimas passagens pelo festival dos Rolling Blackouts Coastal Fever, sempre em ritmo de locomotiva e com um notável apuro melódico, em que apeteceu gritar todos os refrães com eles, e de Márcia, num precioso e íntimo concerto a solo no palco com nome de fado (mas que vai além disso) em que quase se pôde recuar até ao momento do parto de algumas das suas canções (inclusivamente Até ao Verão, composta para Ana Moura e que só agora se atreveu a incluir nos seus alinhamentos).

Já depois de ficarmos a saber que em 2020 (de 9 a 11 de Julho) o Nos Alive apresentará um concerto exclusivo de reunião dos Da Weasel, os Chemical Brothers ajudaram a fechar esta edição com aquilo que sempre lhes conhecemos – uma electrónica sumarenta e cirúrgica, com energia de rock e de fácil conquista de multidões –, passando pelos obrigatórios Got to keep on e Hey boy hey girl, ao mesmo tempo que elevavam a um plano ainda mais estratosférico a cuidada narrativa visual que sempre anima os seus concertos. E, desta vez, a riqueza desse discurso era tão espantosa que quase dava para ser apreciada como fenómeno paralelo, independente da música. Por muito que a música, felizmente, não nos tenha falhado nesta despedida do Alive, com pelo menos um concerto para guardar na memória durante muitos e bons anos.

1
1