expresso.ptJosé Santana Pereira - 13 jul 08:00

Nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário. A opinião de José Santana Pereira

Nem uma coisa nem outra, muito pelo contrário. A opinião de José Santana Pereira

O mais importante nesta sondagem? Talvez a inexistência de grandes diferenças entre indivíduos de esquerda e de direita a respeito das grandes opções económicas e conflitos sociais da actualidade.

Quais são as preferências dos eleitores a respeito das grandes opções económicas e conflitos sociais da actualidade, e até que ponto estas estão associadas ao seu posicionamento ideológico e identificação partidária, deixando antever escolhas de voto distintas com base em diferentes posições face aos temas? Esta é uma pergunta clássica nos estudos sobre o comportamento eleitoral, muitos dos quais partem do pressuposto de que as pessoas votam nos partidos cujas posições em relação a temas importantes mais se aproximam das suas próprias orientações (modelo de proximidade ou modelo direccional do comportamento eleitoral).

Nesta sondagem, os participantes foram convidados a expressar a sua opinião em relação a quatro temas, dois relacionados com o eixo esquerda/direita económica (impostos vs. qualidade dos serviços públicos; investimento público vs. equilíbrio das contas públicas) e dois relativos ao ambiente e à sociedade (facilitar vs. dificultar imigração; protecção do ambiente vs. crescimento económico).

Dois padrões merecem destaque. O primeiro é uma aparente posição moderada ou neutra em relação a estes assuntos entre a generalidade dos inquiridos. Por um lado, com excepção do tema protecção ambiental vs. crescimento económico, as médias das respostas estão muito próximas do ponto central da escala (5). Por outro, com excepção do tema imigração, entre 42 e 51 por cento dos inquiridos seleccionaram uma resposta em torno desse ponto central (opções de resposta 4, 5 ou 6). Mais de metade dos inquiridos não consegue escolher claramente entre um maior investimento público e o equilíbrio das contas públicas.

O segundo ponto digno de referência, e talvez o mais importante, é a inexistência de grandes diferenças entre indivíduos de esquerda e de direita a respeito destes temas. Não deixa de ser curioso que os inquiridos de esquerda não se demonstrem particularmente mais favoráveis a impostos elevados que financiam serviços públicos de qualidade e a um maior nível de investimentos públicos (mesmo que este possa, a curto prazo, provocar um desequilíbrio nas contas públicas) que os de direita, sendo estas duas temáticas inegavelmente estruturantes das propostas de esquerda e direita sobre a economia e o papel do Estado na mesma. A mesma tendência, ainda que mais esbatida, é observável nas posições em relação aos temas da «nova política»: apesar de os indivíduos de esquerda serem ligeiramente mais favoráveis a uma política facilitadora da imigração e a privilegiar a protecção do ambiente em detrimento do crescimento económico que os de direita, as diferenças são modestas, e mais claramente observáveis no tema imigração. Em termos de simpatias partidárias, as diferenças entre quem se sente próximo do PS e do PSD são (mais uma vez com excepção da imigração) virtualmente inexistentes.

Aparentemente, não há aqui nada de novo: este conjunto de padrões é congruente com as conclusões de Carlos Jalali e André Freire em estudos que analisaram dados de 2005 e 2002, respectivamente. O primeiro verificou que as posições sobre protecção do ambiente vs. crescimento económico e melhoria dos serviços públicos vs. redução de impostos não estavam associadas ao auto-posicionamento ideológico, enquanto o segundo reporta que as posições em relação ao ambiente e à imigração não estavam correlacionadas com diferentes escolhas eleitorais.

O que é que isto significa? Muito provavelmente, que as escolhas eleitorais de Outubro próximo serão, mais uma vez, baseadas sobretudo nas avaliações de desempenho do governo, simpatias em relação aos líderes e estado da economia mais do que na orientação dos eleitores em relação a estes temas. O modelo de proximidade acima referido exige dos eleitores uma grande quantidade de informação, que os mesmos talvez não possam ou não desejem recolher e processar. Em Outubro, os partidos serão muito possivelmente premiados ou punidos, mais do que pelas suas ideias, pelo seu desempenho.

* Professor no ISCTE-IUL
(Relatório da sondagem aqui)

1
1