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Marcelino Sambé: a história do miúdo que será o novo protagonista numa das maiores companhias de bailado do mundo

Marcelino Sambé: a história do miúdo que será o novo protagonista numa das maiores companhias de bailado do mundo

Foi já com essa ambição que o bailarino rumou a Londres, aos 16 anos. Menos de uma década depois, o "impressionante leque de capacidades artísticas" valeu-lhe, agora, a chegada ao topo

Era uma questão de tempo: a partir do mês de setembro, no arranque da temporada 2019/20, o lisboeta Marcelino Sambé assumirá o papel de bailarino principal da companhia de dança britânica Royal Ballet.

Aos 25 anos, é o culminar de uma trajetória sempre em ascensão, até ao topo da hierarquia de uma das mais prestigiadas companhias de ballet do mundo. Desde que nela ingressou, em 2012, o seu talento levou-o a primeiro artista, em 2014, a solista, no ano seguinte, e a primeiro solista, em 2017, para agora atingir o mais alto patamar.

A promoção mais desejada surge na sequência de “um ano fantástico com algumas estreias notáveis”, elogiou Kevin O’Hare, diretor do Royal Ballet, destacando os desempenhos de Marcelino como “um ofuscante Basílio”, em Dom Quixote, de Carlos Acosta, e “um Romeu profundo”, em Romeu e Julieta, de Kenneth MacMillan. Na página oficial da Royal Opera House, casa-mãe da companhia de bailado real, O’Hare justifica a nova aposta no bailarino português com o “impressionante leque de capacidades artísticas” reveladas.

Filho de pai guineense e mãe portuguesa, Marcelino cresceu no bairro Alto da Loba, em Paço de Arcos, e cedo deu nas vistas pela agilidade com que se movia ao ritmo da música. Aos 5 anos já andava no grupo Estrelitas Africanas, do Centro Comunitário do Alto da Loba, a dançar ao som de kuduro, funaná e hip hop.

“Acho que foi o primeiro miúdo de quem decorei o nome, porque dava muito nas vistas, era um pirralho que sobressaía”, lembrava à VISÃO, em 2010, a psicóloga Maria Coelho Rosa, sobre os anos em que coincidiu naquele projeto social com Marcelino. Acabaria por ser ela a desafiá-lo a candidatar-se à Escola de Dança do Conservatório, em Lisboa. Apesar de nada saber de dança clássica – “Só sabia fazer a espargata”, assumia o próprio, na mesma reportagem –, o “pirralho” improvisou e convenceu: “E agora?, pensei. Mas imitei o que os outros faziam e entrei com 12 valores.”

Coincidência ou não, Marcelino Sambé nasceu no Dia Mundial da Dança, 29 de abril, em 1994, e o trabalho no Conservatório não demorou a dar frutos. Ao fim de quatro anos de aulas e ensaios, em 2008, ganhou a medalha de prata na Competição de Ballet Internacional, em Moscovo. Um ano depois, nos EUA, recebeu o primeiro prémio no Youth American Grand Prix. E em 2010 voltaria de terras norte-americanas com a medalha de ouro na Competição Internacional de Ballet.

Esse ano mudaria a vida do bailarino português. A exibição num concurso de dança em Lausanne, na Suíça, valeu-lhe uma bolsa de estudo para a Royal Academy of Dance, uma espécie de porta de entrada para o Royal Ballet. Chegou a Londres com 16 anos e aos 18 estava a dar o salto para a sua companhia de sonho, onde agora será uma das estrelas maiores.

“Ele tem uma personalidade maravilhosa, que cativa as audiências e os colegas da companhia. Sei que toda a gente vai ficar encantada com a notícia da sua promoção”, sublinha o diretor, Kevin O’Hare, ansioso por vê-lo “progredir neste novo passo da sua carreira”.

Já no ano passado, o nome de Marcelino Sambé tinha sido notícia por bons motivos, quando a revista Forbes o considerou um dos “30 jovens mais brilhantes, inovadores e influentes da Europa” na categoria Arte e Cultura. Em Londres, a rotina semanal do bailarino obedece a um ritmo de ensaios duas vezes por dia, um máximo de quatro espetáculos e descanso ao domingo. Nada que sobressalte este prodígio de Paço de Arcos. Já em pequeno a irmã mais velha se queixava do barulho da aparelhagem lá em casa, o mote para Marcelino dar vida ao que melhor sabe fazer. Manter acesa a paixão da dança terá sido fundamental para triunfar nos grandes palcos, mais do que o físico invejável.

“Ter um bom corpo não quer dizer nada se não houver coração”, dizia à VISÃO, em 2010, depois de ganhar a bolsa que o levaria para Inglaterra. “Muitas vezes, olho para as bailarinas e desiludo-me, porque é só técnica. A arte que sinto dentro de mim é que me distingue.” Próximo capítulo: protagonista numa das maiores companhias de bailado do mundo.

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