visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 13 jul 15:00

O que faz quem desiste de andar de avião?

O que faz quem desiste de andar de avião?

Um número crescente de viajantes está a abdicar de andar de avião em prol do ambiente, mesmo que isso implique passar 14 dias num comboio ou mais de 40 horas num autocarro

Fernando Paiva não se lembra da última vez que andou de avião. Prefere ficar em contacto com a Natureza na zona da Praia da Barra, em Ílhavo, onde é treinador de surf numa escola, em part-time. “Vejo cada dia como uma aventura e o dia a dia das pessoas necessita de muitos ajustes”, avisa o fundador do Não Lixes, movimento cívico ambientalista, criado em 2014 para reduzir o impacto das festas académicas de Coimbra, especialmente no rio Mondego. Entretanto, Fernando Paiva tem vindo a dinamizar outras iniciativas de sensibilização ambiental, por exemplo, junto dos peregrinos de Fátima ou incentivar a prática de plogging, uma nova modalidade que mistura atividade física com recolha de lixo.

Aos 49 anos, este seu estilo de vida minimalista terá começado há uma década, quando começou por renunciar ao uso do carro. Passou a andar a pé, de transportes públicos ou de bicicleta e, se precisar de fazer uma viagem maior, pede um automóvel emprestado a alguém da família. “Para ter carro tinha de ter mais dinheiro, o que implicava ter de trabalhar mais”, explica. Mas Fernando queria precisamente o contrário: “Trabalhar menos para praticar mais desporto, em contacto com a Natureza.”

Com apenas duas gavetas para toda a sua roupa (sete t-shirts brancas, dois pares de calças pretas, duas calças de fato de treino e dois calções), o surfista anda e corre descalço, mesmo no inverno. Se tiver de ir a uma reunião formal ou a um casamento, basta-lhe acrescentar uns sapatos e um blazer preto. No meio desta vida despojada de bens, não fazer férias no estrangeiro é também uma escolha deliberada. “Quero fazer a minha viagem de sonho, mas sem embarcar em viagens low-cost. Gostava de ir surfar ao Havai ou ao Taiti, claro, mas teria de amealhar muito dinheiro para depois ter só duas ou três semanas de surf. Não sou contra os aviões, sou contra uma fatia da população mundial que enche os aeroportos com viagens fúteis, como as despedidas de solteiro e as férias de poucos dias. Pedir para deixar o avião e passar para autocarro ou comboio é o mesmo que pedir a alguém que troque a viagem de automóvel por uma com carroça puxada por animais. Apesar de ecológico, torna-se inviável.”

Nas palestras que Fernando Paiva faz em escolas e universidades, costuma dizer aos jovens que têm de “lutar por oxigénio, água e comida” e, se enquanto estão na universidade só pensam nas notas, quem já se encontra no mercado de trabalho só quer dinheiro. No fim, questiona-os: “Conseguem desenhar no futuro a vida sem andar de avião?”

Greta vai de comboio

Em franco crescimento, o movimento No-Fly começou na Suécia, onde também surgiu um novo termo: flygskam ou flight shame, que significa “vergonha de voar”. São cada vez mais as pessoas que reduzem drasticamente o número de voos, refletindo sobre se precisam mesmo de andar de avião. Rickard Gustafson, responsável da companhia aérea escandinava SAS, disse, em declarações ao jornal dinamarquês Dagens Næringsliv, estar “convencido” de que o movimento No-Fly foi responsável pela queda de 5% no tráfego aéreo sueco, no primeiro trimestre de 2019.

Este movimento não deixa as companhias aéreas insensíveis. O assunto foi até amplamente discutido na reunião anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo, realizada de 1 a 3 de junho em Seul, na Coreia do Sul. Em coro, as empresas quiseram lembrar que o avião é responsável por “apenas 2 a 3% das emissões de dióxido de carbono” do mundo. Um valor contestado por associações ambientais, como a francesa Réseau Action Climat. Pelos seus cálculos, o transporte aéreo é “responsável por 4,9% do aquecimento global”. A nível europeu, os voos internacionais têm sido um fardo pesado, com um aumento nas emissões de CO2 de 110% entre 1990 e 2008. Um voo de ida e volta Paris-Pequim produz 1 239 quilos de emissões de CO2 por passageiro, o equivalente às emissões de uma família para se aquecer durante um ano em França.

Muitos ativistas têm a perceção de que o uso do avião vai acabar por receber a mesma atenção do que a guerra contra o plástico ou o consumo de carne – em causa está a contribuição de 2% para as emissões globais de carbono, uma percentagem que deverá crescer até aos 16% lá para 2050. Segundo um estudo publicado na Nature Climate Change, em maio de 2018, o turismo mundial (incluindo comida, alojamento, compras e transportes) representa 8% das emissões mundiais de gases com efeito de estufa, sendo a maior fatia da pegada de CO2 proveniente do transporte doméstico e internacional.

A ativista climática Greta Thunberg não voa desde 2015. Nem ela nem os pais, Svante e Malena Ernman. Este ano, a sueca de 16 anos, eleita líder da próxima geração pela revista Time – rosto e voz de uma juventude preocupada com as alterações climáticas –, fez a sua tour europeia de comboio. Londres foi a última etapa de uma digressão que incluiu um encontro com o Papa Francisco, em Roma. Em janeiro, participou no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, viajando 32 horas de comboio, enquanto um número recorde de aeronaves particulares, cerca de 1 500, transportou os participantes bilionários. Solidários com a filha, os pais também deixaram de comer carne e instalaram painéis solares no telhado porque esgotaram os argumentos para contrariar Greta. Cantora de ópera, Malena Ernman foi a que mais sentiu a mudança, ao deixar de viajar para o estrangeiro para dar concertos.

No Reino Unido há agora uma ramificação do movimento No-Fly, dirigida pela escritora Anna Hughes, para quem o último voo aconteceu há oito anos. “Não há nenhum lugar onde possa pensar que quero ir e onde não chegue lá de bicicleta, comboio ou barco”, justifica. Mais de mil pessoas já se comprometeram em ter um ano livre de voos. Anna Hughes compara esta campanha à Veganuary, iniciativa vegan em que as pessoas abdicam de produtos de origem animal durante os 31 dias de janeiro.

Também a política britânica Siân Berry, colíder do Partido Verde, sem voar há 14 anos, pediu à comunidade que não faça mais de um voo por ano e sugeriu a criação de um imposto.

Roger Tyers, sociólogo ambiental da Universidade de Southampton, foi à China em trabalho, numa pesquisa relativa ao meio ambiente, à emergência climática e à responsabilidade pessoal. “Tendo isso em mente, achei que seria um pouco hipócrita da minha parte voar”, contou ao jornal The Guardian, via Skype. Levou quatro dias para chegar a Moscovo de comboio, desde Kiev, na Ucrânia. Até ao seu destino final, Pequim, a viagem durou 14 dias com algumas paragens noturnas pelo caminho. Depois de Moscovo, Roger Tyers seguiu no transiberiano para Irkutsk e depois para Pequim.

Londres-Lisboa de autocarro

No ano passado, Carina Figueiredo, 24 anos, decidiu deixar de andar de avião (ou, pelo menos reduzir o número de viagens), mas a, sua paixão por África, onde já foi meia dúzia de vezes, de férias e a vários países, fará com que não abdique totalmente, no futuro, de apanhar outros voos. “Acredito que é bom sermos flexíveis. Não é com comportamentos extremistas que ganhamos mais”, adverte.

Na senda de um estilo de vida mais amigo do ambiente – em que deixou de comer carne e peixe, reduziu o consumo de plástico, faz os seus dentífricos e desodorizantes, compra apenas a roupa necessária e luta contra o desperdício –, não podia esquecer a redução das emissões de carbono. A morar há cinco anos em Inglaterra, para onde foi estudar Design Gráfico na London College of Communication, Carina vinha a Lisboa a cada três meses, para curtas estadas de dois a cinco dias. Em cada ida e volta de avião gastava cerca de €150 e produzia 0,627 toneladas de dióxido de carbono (CO2). Agora que já acabou a licenciatura e trabalha em part-time e online, o que não a obriga a estar fixa num escritório a cumprir horários, dá-se ao luxo de gastar mais de 30 ou 40 horas para ir de Londres a Lisboa de autocarro.

A viagem começa sempre com uma pesquisa no Google Maps, no Omio (alternativas para os diferentes tipo de transportes ao longo do percurso), no National Express e no FlixBus (redes de autocarros internacionais). Carina sai de casa e apanha um autocarro para Paris, seguido de outro para Bordéus. Aí, tem uma camioneta direta para Lisboa. Se, em França, perder o último autocarro, ainda pode rumar a Barcelona, onde depois apanha o comboio para Madrid e, na capital espanhola, viaja no último autocarro para Lisboa. Com um custo de cerca de €80, desta vez Carina produziu apenas 0,12 toneladas de CO2.

Na bagagem leva almofada e auscultadores que isolem bem o som para conseguir dormir dez horas seguidas. Como não quer comprar comida embalada em plástico, também leva refeições (sandes, massas, comidas frias), fruta, snacks e bebidas, bem como talheres de madeira e um cantil metálico com água.

Na primeira vez, quando chegou a casa e explicou ao avô as razões que a levaram a tomar a decisão de andar menos de avião, este não percebeu. “O meu avô acha que a poluição do avião fica lá em cima no ar”, conta.

A bordo de navios e cargueiros

Se entre os portugueses esta ainda não é uma prática muito comum, há vários anos que se multiplicam os relatos de aventureiros que se propõem viajar abdicando do avião. Cath Heinemeyer, uma investigadora e artista comunitária inglesa, não voa há 19 anos. Visitar os familiares é o grande desafio, pois a sua família mora na Irlanda do Norte, a do marido na Alemanha e o casal em York. A estratégia passa por vê-los menos vezes, mas durante mais tempo.

Em 2011, o irlandês Niall Doherty, web designer hoje com 37 anos, partiu numa viagem à volta do mundo. Em 44 meses passou por 37 países, apanhando zero voos. O avião foi substituído por 99 autocarros, 82 comboios, 70 táxis, 27 ferries, 21 tuk-tuks, 10 carros, 7 motos, 3 bicicletas, 3 cruzeiros, 1 veleiro e 1 cargueiro – aliás, a travessia do oceano Pacífico resultou no livro The Cargo Ship Diaries.

Atualmente na Malásia, Thor Pedersen contabiliza na sua página de Instagram, Once Upon a Saga, mais de dois mil dias de viagem, depois da partida da Dinamarca para a Holanda, no outono de 2013. Em vez de apanhar aviões, este dinamarquês de 38 anos foi navegando entre continentes e ilhas em navios diferentes, como barcos de pesca, arrastões de camarão e porta-contentores. Com quase 200 países no passaporte, Thor Pedersen planeia terminar a sua jornada, este ano, nas Maldivas. Mas se viajar de avião for imprescindível, tome nota: reduza o número de escalas (levantar voo e aterrar aumenta o consumo de combustível) e corte na bagagem, pois menos peso significa menos consumo.

Greg Bajor

Comparar as pegadas

O avião chega a emitir para a atmosfera sete vezes mais dióxido de carbono do que o comboio na viagem entre Lisboa e o Porto. As contas são da associação ambientalista Zero


Avião
Voo da TAP
27,5 kg de CO2/por pessoa


Comboio Intercidades
3,8 kg de CO2/por pessoa


Alfa Pendular
5,5 kg de CO2/por pessoa


Autocarro
4,6 kg de CO2/por pessoa


Automóvel a gasóleo com 1 pessoa
50,2 kg de CO2

Automóvel a gasóleo com 4 pessoas
12,6 kg de CO2/por pessoa


Automóvel elétrico com 1 pessoa
6,1 kg de CO2

Automóvel elétrico com 4 pessoas
1,5 kg de CO2/por pessoa

1
1