expresso.ptSandra Maximiano - 13 jul 11:20

Jogos de sorte e muito azar

Jogos de sorte e muito azar

Opinião de Sandra Maximiano

O ano passado os portugueses gastaram 6 mil milhões de euros em jogos de sorte e azar. Foram 3097 milhões de euros para jogos sociais, deste valor mais de metade para as raspadinhas, 2431,8 milhões de euros para apostas online, 322,4 milhões de euros gastos em casinos e salas de máquinas e 54,35 milhões na compra de cartões de bingo. Em média, foram gastos 16.4 milhões por dia em jogos de sorte e azar.

Quando toca ao jogo, os portugueses não têm problemas em abrir os cordões à bolsa. O raciocínio é sempre o mesmo: “o que é um euro ou dois se podemos ganhar milhares ou mesmo milhões?” A distância entre ter uma vida comedida, a contar os tostões, e ficar milionário é, para muitos, a de uma raspadinha ou de um boletim do Euromilhões. Sonhar não custa, mas tem custado aos portugueses muito dinheiro.

Porque é que compramos tantas raspadinhas? Porque é que o Euromilhões é tão atrativo se apenas 1 em 140 milhões ganha o jackpot? Porque é que achamos que jogar mais frequentemente aumenta as nossas chances de ganhar? Porque é que somos tão avessos a investir no mercado financeiro, mas tão propensos a participar em jogos onde o retorno é em média negativo?

Quando compramos uma raspadinha, uma taluda, ou jogamos no Totoloto ou Euromilhões, não temos, em geral, a consciência de que estamos a fazer um investimento. Basicamente, compramos, por uns minutos ou dias, o sonho de mudar de vida. Por vezes, em alturas de crise económica, jogar em lotarias é uma forma de aliviar a ansiedade financeira e a incerteza. É como tomar um comprimido mágico que nos faz sonhar e sentir melhor. Se esta sensação de bem-estar não for acompanhada por uma sensação de deceção no caso de perda, então talvez haja algum sentido, ou racionalidade, na decisão de jogar. Mas, na verdade, por muito que queiramos racionalizar a decisão de participar em jogos de sorte e azar, esta decisão está envolta em enviesamentos cognitivos e comportamentais.

Primeiro, destaco a falácia do jogador. Imagine que lança uma moeda ao ar quatro vezes e que nesses quatro lances lhe saiu coroa. A tentação é para achar que é quase impossível que lhe saia novamente coroa, esquecendo-se que cada lançamento é um evento independente e que o resultado de um não influencia o seguinte. Ou seja, aquele ditado que diz “à terceira é de vez” não se aplica em jogos de sorte e azar. Por exemplo, não é por ter nove raspadinhas sem prémio que torna a compra da décima um “investimento seguro”.

Segundo, a vontade de jogar é maior quanto maior for a perceção de que é possível ganhar, sendo que esta perceção é influenciada pela informação disponível. Por exemplo, a perceção de que é possível ganhar a lotaria parece-nos mais provável se soubermos de recentes vencedores. Ou seja, sofremos do enviesamento da disponibilidade que se manifesta quando atribuímos maior importância relativa às informações que estão mais acessíveis em termos cognitivos, por serem mais fáceis de recordar. Os casinos conhecem bem este enviesamento e tiram partido dele exibindo, por vezes, à entrada, a informação de vencedores de jackpots.

Terceiro, existe a ilusão de controlo e a crença de que “para a próxima é que é” quando, por exemplo, nos falta apenas um símbolo na raspadinha para a combinação milionária ou quando as estrelas do Euromilhões são os números ao lado dos que escolhemos. A sensação de que estivemos tão perto de ganhar aumenta também a perceção que temos da possibilidade de ganhar.

Quarto, existe excesso de otimismo relativamente à probabilidade de ganhar, sobretudo quando o prémio tem um valor muito avultado. Não importa que as chances de ganhar sejam uma em 10000 ou uma em 1 milhão, se o valor do prémio for muito grande, a nossa atenção fica apenas focada nesse valor. Ou seja, sobrestimamos o valor da real probabilidade.

Por último, a decisão de jogar é muitas vezes justificada pelo facto de custar apenas uns poucos euros. Se tivéssemos de abrir uma conta com algumas centenas de euros para serem utilizados em jogos de sorte e azar, teríamos uma maior consciência do dinheiro que se perde e estaríamos menos dispostos a fazer um investimento tão arriscado. Mais, muitos daqueles que jogam com alguns euros por semana não teriam a capacidade financeira para abrir tal conta.

Para além dos enviesamentos cognitivos e de comportamento que deveriam ser tomados em consideração na regulação de jogos de sorte e azar, há aspetos importante relacionados com a distribuição de rendimento. Por um lado, muitos dos jogadores têm rendimentos anuais baixos e pouca literacia financeira, o que não lhes permite investir em produtos financeiros com maior rentabilidade. Por outro, os indivíduos com mais baixo rendimento são aqueles que estão mais propensos a jogar jogos de sorte e azar, sobretudo se sentirem que estão em desvantagem financeira. Uma experiência de laboratório, realizada há alguns anos por uma equipa de economistas comportamentais da Universidade de Carnegie Mellon, mostrou que os participantes com mais baixo rendimento (sendo que a dotação monetária foi distribuída aleatoriamente) tinham maior propensão para jogar numa lotaria quando se sentiam pobres, ou seja, quando tinham informação sobre o rendimento de outros participantes.

A despesa em jogos de sorte e azar é, em geral, um imposto regressivo. Por exemplo, considere duas famílias com rendimentos anuais líquidos de 16000 e 50000 euros respetivamente. Considere também que ambas as famílias gastam por semana cerca de 3.5 euros em jogos de sorte e azar, o que equivale a uma aposta simples no euromilhões e a compra de uma raspadinha de um euro. No total são gastos nestes jogos cerca de 168 euros por ano. Para a família com menor rendimento, esta despesa representa 1,05% do seu rendimento anual, enquanto que para a família com maior rendimento representa apenas 0,336% do seu rendimento.

O que pode ser feito para minimizar a desigualdade promovida por jogos de sorte e azar? Por exemplo, podem-se promover jogos que sejam mais apelativos para classes mais ricas e menos raspadinhas; aumentar o número de prémios intermédios e reduzir o montante astronómico dos primeiros prémios que enviesam a decisão; aumentar a literacia financeira através da educação, ensinando mais sobre risco e probabilidades. Por último, as instituições financeiras poderiam oferecer produtos financeiros que permitissem pequenos investimentos, sem grande burocracia contratual, que poderiam ter uma componente de jogo. Por exemplo, na Irlanda as “prize bonds”, que são um instrumento de poupança, sorteiam 1 milhão de euros por ano e 50000 semanalmente. O investimento é seguro e no mínimo são precisos 25 euros.

A atração pelo o jogo é antiga e pagar para sonhar é tão válido quanto pagar por outro qualquer serviço, mas há que não esquecer que jogos de sorte e de azar potenciam desigualdades, nem que seja porque sonhar sai mais caro para aqueles que já pouco têm.

Haisley, E., Mostafa, R., Loewenstein, G. (2008). Myopic risk-seeking: The impact of narrow decision bracketing on lottery play, Journal of Risk and Uncertainty, Volume 37 (1) , pp 57–75
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