visao.sapo.ptLuís Salgado Matos - 13 jul 14:02

A FCT manipula um concurso público contra o Centro de História Religiosa?

A FCT manipula um concurso público contra o Centro de História Religiosa?

A composição do júri tem por efeito excluir do júri os académicos que tenham a menor empatia com o tema avaliado. Não inclui ninguém com competência substancial para julgar as produções do Centro: é como convidar um judoca a avaliar uma equipa de futebol

O Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguuesa (UCP) foi excluído do financiamento plurianual concedido pela Fundação para a Ciência e a Tecnonologia (FCT) às unidades universitárias de investigação científica, neste caso histórica. A FCT é um organismo dependente diretamente do Governo. O Centro é mais conhecido por editar a Lusitania Sacra, uma revista científica indexada internacionalmente, e é respeitado cá dentro e lá for pela sua pesquisa académica, pela organização de colóquios científicos nacionais e internacionais e pelo seu apoio à formação de jovens investigadores.

Na avaliação das unidades de investigação em curso, aliás em véspera de finalização, o Centro de História Religiosa foi excluído. Para tanto, a FCT baseou-se num parecer de um painel de peritos por ela escolhidos, nomeados e pagos. Pelo menos no tocante ao Centro, a avaliação padece de numerosas ilegalidades e injustiças (ausência de índices objetivos, para avaliar os critérios regulamentares, ausência de consideração do critério da relevância, duplicidade nos juizos, suspeita de obediência a uma prévia classificação oculta, entre outros).

Vale a pena estudar se o júri de seleção dos subsídios, eufemisticamente chamado painel, foi escolhido para prejudicar o Centro de Estudos de História Religiosa. Este Centro especializa-se em história do cristianismo. Examinemos a questão. O Centro foi visitado por quatro painelistas. Supomos, embora não sejam conhecidas atas das respetivas reuniões, que estes quatro painelistas foram decisivos para a classificação. Sucede que entre eles não há um único historiador do cristianismo: há dois historiadores do Islão, um filósofo e um especialista em questões de segurança e terrorismo. Esta composição tem por efeito excluir do júri os académicos que tenham a menor empatia com o tema avaliado. Não inclui ninguém com competência substancial para julgar as produções do Centro: é como convidar um judoca a avaliar uma equipa de futebol. Nenhum deles inclui no seu currículo (quando está disponível na web) qualquer referência ao seu conhecimento do português. Um dos painelistas fala castelhano. Significa isto que os jurados apenas estavam em condições de avaliar formalmente o Centro e os seus investigadores: quantos livros ou artigos publicados? Quantos colóquios? Mas, para este efeito, seria melhor contratar robots porque obrigaria à existência de critérios e indicadores claros, que faltam totalmente na avaliação.

O júri não é isento em relação ao seu tema e em relação ao Centro de Estudos de História Religiosa da Católica. Um dos seus elementos deu pelo menos uma conferência para um organismo laicista militante. É a sua liberdade de opinião. Mas, para o júri ser isento, deveria inclui alguém que tivesse proferido uma conferência numa associação crítica do laicismo militante. Esta falta de imparcialidade revela-se de muitos modos. Os painelistas emitem recomendações a todas as unidades de investigação, mesmo à outra excluída, e só não recomendam nada ao Centro. No encontro com os investigadores séniores do Centro, um dos painelistas afirmou, sem ser corrigido pelo presidente, que não aceitava como internacionalização as relações do Centro com Espanha e com os países de língua portuguesa. Basta relancear a lista das atividades do Centro para ver que ele é forte nas relações com estes países. O critério, além de absurdo, é discriminatório. Se o leitor ler os pareceres do Centro encontrará as palavras ternas dos painelistas dirigidos aos seus favoritos e a aspereza que perpassa das que dirige ao Centro. Convidamos o leitor a averiguar da isenção deste nosso julgamento lendo os relatórios dos painelistas-jurados sbre as diferentes unidades de investigação. Está disponível em https://www.fct.pt/apoios/unidades/avaliacoes/2017/docs/History.pdf

A FCT ainda está a tempo de não excluir o Centro de Estudos de História Reigiosa. Mais do que a questão do dinheiro (aliás legítima) está a questão da justiça. Se a FCT continuar a excluir o Centro, adensar-se-ão as suspeitas de ter contra ele manipulado o júri.

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