blitz.ptblitz.pt - 13 jul 23:37

No peito de um punk também bate um coração, ou como os Idles deram um dos grandes concertos do NOS Alive

No peito de um punk também bate um coração, ou como os Idles deram um dos grandes concertos do NOS Alive

Concerto glorioso da banda de Bristol no NOS Alive

De vez em quando acontece um concerto assim. Mesmo num grande festival, onde a oferta constante convida à dispersão; mesmo numa era em que o rock supostamente está de fraca saúde e as guitarras encostadas à margem; mesmo num tempo em que, entre o público, a apatia tende a vencer a efervescência.

Um minuto antes de os Idles entrarem em palco, já sabíamos que este ia ser um desses dias especiais, em que saímos de um concerto com vontade de espalhar a palavra dos senhores e decididos a repetir a dose, mal haja oportunidade.

Em palco, no segundo maior espaço do NOS Alive, estão então os Idles, cinco cavalheiros de Bristol, Inglaterra, que no final do ano passado já deram que falar por cá, com concertos no Porto e em Lisboa, à boleia do seu segundo álbum, "Joy As An Act of Resistance". E poucas vezes um título terá sido mais bem escolhido. A música dos Idles, que o vocalista & agitador Joe Talbot não gosta de definir como punk, é estupidamente positiva. Agressiva, dotada de um peso que, além da bateria de John Beavis, parece emanar no chão; contundente, direta ao assunto, cheia de letras que são slogans de gente que fala de coisas importantes (o sistema nacional de saúde britânico, problemas de saúde mental e de autoestima, questões de género) sem se levar demasiado a sério. Mas também divertida, colorida, inclusiva, sem nunca aborrecer ou moralizar. Em 2019, os Idles são um monstro de cinco cabeças, recebido em Algés como os autênticos heróis do rock que já provaram ser. Eles chegam (Mark Bowen, um dos guitarristas, envergando calção de praia) e a tenda explode numa ovação que desde logo pressentimos ser merecida.

Ao segundo tema, a confirmação de que esta paixão tem pernas para andar: 'Never Fight a Man With a Perm', um dos melhores temas de "Joy As An Act of Resistance", ressoa pela tenda a cavalo de riffs cortantes e de um daqueles refrões gloriosamente estúpidos (é elogio) que se torna pecado não entoar. Na frente da batalha, Joe Talbot encarna o som que os companheiros produzem, dando tabefes em si mesmo, contorcendo-se e destilando garrafões de suor nos primeiros minutos de um concerto sem permissão para abrandar.

Do lado de cá, a correspondência total. Comunicação, partilha, energia, humor, raiva -- numa palavra, rock, naquilo que de melhor esta pequena grande invenção ofereceu à humanidade.

Em cima do palco (e às vezes cá em baixo, quando os rapazes descem para nadar por cima das cabeças dos fãs), sucedem-se os petardos: 'Mother', com uma letra que em poucas frases elogia as mães trabalhadoras, alerta para a violência sexual e ensina a assustar um conservador ("the best way to scare a tory is to read and get rich"); 'Scum', com Talbot em ritmo de marcha (a modalidade) e no papel de instrutor de ginástica, colocando a tenda de gatas e, depois, a saltar; '1049 Gotho', sobre a importância de partilhar sentimentos ("Pode salvar a nossa vida") e 'Love Song', com direito a passagem por baladas de Sinéad O'Connor ou Adele, são em simultâneo o melhor momento de sempre, naquele momento.

Com o coração no lugar certo (aquele em que Joe Talbot bate repetidamente, de punho cerrado), os Idles dedicaram ainda a irresistível 'Danny Nedelko' "aos corajosos que fazem do nosso país um lugar melhor: os imigrantes!" e puseram homens de barba rija e tronco nu a fazer mosh enquanto berram sobre masculinidade tóxica. "I kissed a boy and I liked it!", vocifera o líder desta "trupe do bem" (pedindo emprestada a expressão a um vizinho de sala de imprensa). Antes do adeus, ainda houve tempo para uma canção anti-fascista, uma bandeira do arco-íris e a genial 'Television'. "If someone talked to you/The way you do to you/I'd put their teeth through/Love yourself", ordena Joe Talbot, escavacando a própria cara com a mão tatuada. Há mensagens que são demasiado importantes para serem transmitidas com paninhos quentes, e os Idles, na sua maravilhosa gestão de tensão/explosão, são os influenciadores de que precisamos. Hashtag love yourself.

1
1