observador.ptobservador.pt - 13 jul 20:53

Como se formam as tempestades de granizo? Um fenómeno raro estudado desde Aristóteles

Como se formam as tempestades de granizo? Um fenómeno raro estudado desde Aristóteles

É preciso que o ar esteja muito quente e húmido. Que se formem nuvens especiais entre 15 e 25 km de altitude, onde fazem menos 80ºC. E que ventos entre 50 e 100 km/h transformem a água em gelo.

Esta semana já foram notícia três vezes. Primeiro na Grécia, onde seis turistas morreram e se registaram enormes estragos. Depois em Itália, onde deixaram 18 feridos e também uma onda de destruição. E este sábado em Portugal, em Mogadouro, distrito de Bragança, provocando danos avultados na agricultura local, desde as vinhas, aos olivais e soutos. Mas as tempestades de granizo, sobretudo as violentas e com pedras enormes (as gregas eram do tamanho de azeitonas, as italianas como laranjas e as portuguesas pareciam bolas de golfe), são fenómenos raros, que acontecem em circunstâncias meteorológicas muito especiais, e que são estudadas há séculos, sobretudo depois de terem intrigado Aristóteles pelo seu poder destruidor: o pensador grego escreveu sobre elas na obra Meteorologia, no ano 340 a.C..

Para haver nuvens de granizo é essencial que haja humidade. Se o tempo estiver normal para o verão, o ar quente, que é mais leve que o frio, apenas sobrecarrega o vapor de água na atmosfera: o máximo que pode acontecer é, logo a um quilómetro de altitude, que com o frio o vapor se converta em gotas de água, forme nuvens e caiam umas pingas de chuva. Mas quando o ar está muito quente e húmido, como aconteceu no final desta semana, grandes massas de ar cheias de vapor elevam-se na atmosfera a grandes altitudes, chegando mesmo aos 25 quilómetros. Logo a partir dos cinco quilómetros ((linha isotérmica), a temperatura fica abaixo de zero. E é a partir daí que o vapor passa a água e depois a gelo.

Dentro das nuvens que se formam a essas altitudes há correntes de ar fortíssimas, de 50 a 100 km/h, que sobem e descem. As gotas de águas chocam umas com as outras e formam as pedras de granizo, que tendem a cair. Mas para isso acontecer têm de ter força para atravessar a massa de ar quente que as impulsionou para cima, caso contrário dissolvem-se.

Mas se o ar estiver muito, muito quente, essas gotas de gelo ou água entram num carrocel: são enviadas para cima de novo por força desse ar quente, juntam-se a outras gotas de água e cristais de gelo, voltam a tentar descer, sobem novamente, numa dança que pode demorar horas. Quando ficam pesadas o suficiente, ou há uma forte trovoada (com raios ou trovões) ou uma tempestade de granizo.

Nuvens especiais, a 25 km de altitude e onde estão 80 graus negativos

As nuvens mais pequenas não sobrevivem às fortes rajadas de vento no seu interior. As médias acabam por trazer apenas chuva, a maior das vezes com aquelas gotas enormes de água, mas com pouco volume de precipitação. Já as tempestades de granizo formam-se apenas nas nuvens cumulonimbus (semelhantes às dos furacões, onde há esses fortes movimentos de circulação de ar ascendente e descendente no interior) e podem ser mesmo preocupantes: quando o peso do granizo, que congelou entre os 15 e os 25km de altitude, onde a temperaturas que podem chegar aos menos 80ºC, consegue vencer o ar quente que o sopra para cima, as pedras caem a grande velocidade e de forma destruidora.

As tempestades de granizo são mais frequentes no interior dos continentes, dentro de latitudes médias da Terra, a partir da linha do Equador, nas regiões mais quentes. Nunca aconteceram nas regiões polares.

Enquanto vão ganhando tamanho e peso, ou seja, no vaivém para baixo e para cima pela força do vento quente, as pedras de gelo atravessam várias vezes a barreira dos 0ºC, onde congelam e descongelam. Por mudarem de estado, são formadas não apenas por gelo, mas sim por camadas de água líquida e cristais de gelo. Na maior parte das vezes, o tamanho das pedras de gelo é do tamanho de uma ervilha (0,5 a 5 centímetros de diâmetro), e muitas nem chegam ao solo: se estiver calor, derretem na atmosfera e passam a chuva.

Mas há casos em que não é assim. Como os registados esta semana.

Os piores casos: 92 mortos no Bangladesh e 400 feridos em Munique

Um dos piores casos recentes de que há registo aconteceu em 1986, no Bangladesh, quando pedras de gelo de cerca de um quilo fizeram 92 mortos.

Dois anos antes, a 12 de julho de 1984, fez esta sexta-feira 35 anos, Munique sofreu uma das maiores tempestades de granizo de sempre: 400 pessoas ficaram feridas, centenas de árvores partidas, 70 mil telhados destruídos e cerca de 250 mil carros amolgados. Os prejuízos foram calculados em cerca de mil milhões de euros.

No final de julho do ano passado, outra tempestade de granizo fez 15 mortos na China.

No dia 1 deste mês de julho, seis bairros da cidade de Guadalajara, no México, ficaram cobertos de gelo depois de um tempestade de granizo nunca antes vista ter atingido a cidade. As autoridades falam numa altura de 2 metros de gelo, com carros soterrados e vários estragos em casas em estabelecimentos comerciais.

Agora, seis turistas morreram na Grécia e ainda há pessoas desaparecidas depois da queda violenta de granizo acompanhada de fortes ventos. E em Itália, um dia depois, as pedras geladas que caíram do céu fizerem 18 feridos.

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