visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 13 jul 19:30

M.E.C. “Não tive adolescência, o que é irrecuperável”

M.E.C. “Não tive adolescência, o que é irrecuperável”

Acabaria com as companhias aéreas low cost e o Airbnb, apostaria tudo em comboios e num país biológico. Talvez Miguel Esteves Cardoso tenha um plano para Portugal, mas o seu principal ofício é retratá-lo em crónicas diárias no Público ou em formato livro, como o que lançou em junho: No Passado e no Futuro Estamos Todos Mortos. Fomos visitá-lo a Colares, onde, aos 63 anos, quer viver uma vida igual à de “toda a gente”

Assoma à janela da sua casa em Almoçageme, Colares, no concelho de Sintra. Tem na mão um pequeno cesto onde pôs a chave. A campainha não funciona nem o intercomunicador nem o trinco eletrónico. Imprevistos de uma vida comum, como a que agora procura ter. Ao lado da entrada, uma mercearia e um café, onde não poucas vezes recebem em seu nome as encomendas que faz pela internet. Miguel Esteves Cardoso mudou-se para esta vivenda, elegante e antiga, em 2012, com a sua mulher, Maria João. Aqui vivem fora do mundo; ou melhor, num mundo que ambos construíram para os seus dias, feitos de pequenos prazeres e grandes descobertas.

Aceitamos a chave e entramos. Subimos ao primeiro andar e o seu quotidiano revela-se. Livros, muitos livros, música e cinema; um almoço marcado para o meio-dia, que estará sempre presente na sua mente. Em tempos, viveu no epicentro da vida política, jornalística e cultural de Portugal. Foi candidato ao Parlamento Europeu pelo PPM, e com Paulo Portas fundou o jornal O Independente, em 1988, que marcou a Imprensa portuguesa. Esteve no programa de televisão Noite da Má Língua, na SIC, numa mão-cheia de outros projetos e em sucessivas páginas de jornais, onde há três décadas assina, com poucas pausas, crónicas semanais e diárias, como a que atualmente mantém no jornal Público. Escreveu romances. Mantém a curiosidade em relação ao mundo, mas o frenesi limita-se ao deadline para entregar o texto a publicar no dia seguinte. Tenta uma vida simples, ainda que rodeada de excesso, pois nunca conheceu a medida justa ou a moderação. Também isso se nota em sua casa e no livro que aqui nos trouxe, a sua mais recente coletânea de crónicas, No Passado e no Futuro Estamos Todos Mortos.

Gosta de dar entrevistas?
Gosto, sobretudo porque dou poucas. Proporcionam-me conversas que de outra forma não teria, e muitas vezes permitem-me conhecer uma pessoa nova.

N’O Independente também gostava de as fazer?
Muito. Tinha a possibilidade de confrontar o outro, de fazer perguntas íntimas, de revelar o perfil de alguém. Sinto que, hoje, a disponibilidade para conversas abertas diminuiu. O mundo está dominado pelas “relações públicas”, ainda mais no estrangeiro. Prevalece o condicionamento dos temas, a vontade de passar uma mensagem predefinida.

Em que sentido?
O entrevistado só quer falar do que está a lançar ou do que é novo, evita abordar este ou aquele assunto. As conversas tornam-se chatas.

Há algum assunto que gostaria de evitar nas suas entrevistas?
Nenhum. O grande perigo de dar entrevistas é a repetição. Esta é a primeira a propósito do novo livro, mas quando chego à quarta torna-se rotina. Com as anteriores, percebo o que funciona, o que captou a atenção do jornalista ou o fez rir, e repito, como um ator. Faço-o inconscientemente, ou por preguiça, mas acabo sempre em modo greatest hits. Não tem nada de verdadeiro. Bom é quando tudo se pensa no momento e se tenta dizer o que nunca se disse. Dar uma entrevista também é uma forma de saber como está o País, mais do que dizer como estou. A minha vida é muito restrita.

Anda afastado do burburinho do dia a dia?
Quanto mais afastado estou, mais facilidade tenho em escrever. É preciso um certo isolamento. Também aqui, a repetição pode ser um problema. Se estiver a falar com as pessoas, a transmitir as minhas impressões, sobra pouca novidade para o ato de escrever uma crónica diária. Além disso, escrevemos para agradar, não pode deixar de ser assim, mas também temos de lutar contra isso. De outra forma, acabamos com uma fórmula aparentemente ganhadora.

Como um artesão a fazer sempre o mesmo boneco?
Exato. Tento fazer tudo do zero, sem plano. A crónica que publiquei hoje [sexta-feira, 7 de junho] no Público, é totalmente falhada porque fui a Lisboa e não tive tempo de voltar a Colares, onde escrevo melhor. Tive de a fazer no cabeleireiro, no meio da música e da agitação. Não deu para pensar. No fim de cada frase, ia ver quantos carateres faltavam... Um fracasso completo. Acontece.

Hoje privilegia mais a reflexão anterior à escrita?
Tem de haver espontaneidade. Já me aconselharam a escrever sete crónicas ao domingo e passar a semana sem fazer nada. Experimentei e não funciona. Preciso de estar em cima do prazo, uma aflição que não se simula. Para a sentir, tenho de correr riscos.

O frenesi do prazo é uma memória do tempo passado nas redações?
Há uma razão egoísta: concentro-me melhor, pois já não há margem de manobra, não podes deixar de enviar o texto.

O que esteve na origem dessa vida mais recolhida que leva hoje?
A tentativa de viver como toda a gente. As pessoas normais não estão sempre a dar entrevistas, a ser notícia nos jornais. Vivem como eu tento viver agora.

Nem todos têm o seu talento e um passado tão cheio.
Talvez seja verdade. Mas também se confunde recolhimento com estar afastado das festas ou dos jornais. Como dizia Jane Austen, estamos 24 horas por dia na vida. É uma verdade universal. Não conseguimos fugir do nosso meio, estamos sempre em algum lugar a fazer qualquer coisa. E eu estou aqui, em Almoçageme.

Como é então um dia na sua vida?
Acordo e leio. Depois vou almoçar e regresso à leitura. A minha vida é isto. Tenho muita coisa para ler, assino muitas revistas, tenho muitos livros.

Recentemente, influenciado pela Marie Kondo, a famosa mestre japonesa da arrumação, livrou-se de vários livros.
Sim, mariekondei muitos. Não tinha dinheiro para comprar um computador e decidi seguir o seu conselho. Tirei todos da estante, arrumei-os em pilhas e só fiquei com os que são mesmo importantes para mim. Vendi os outros e comprei o computador.

Um balanço muito positivo.
Tenho uma grande admiração pela Marie Kondo. Advoga uma filosofia muito simples e verdadeira. A nossa casa só deve ter o que nos deixa felizes.

Isso também é viver o presente, ideia forte do título do seu novo livro?
Não temos mais nada. Um pouco de memória, um pouco de antecipação, mas só presente. A nossa vida é uma ínfima parcela dos milhões de anos do Universo e da evolução humana. Há quem acha que conhece o século XVI? É impossível conhecê-lo, na verdade. E agora também há essa obsessão com o futuro dos nossos filhos e netos.

Não é sensível a um discurso ecológico?
Sou, mas essa é uma luta para os nossos filhos e netos. Nós travámos outras. As pessoas novas é que têm de olhar pelo futuro.

Imagino, então, que vê com bons olhos o novo movimento ecológico liderado por jovens.
Sim, em particular o da sueca Greta Thunberg, uma rapariga interessantíssima. Pratica o que diz e toma a iniciativa porque as pessoas com responsabilidade não estão a fazer o que deviam. Impressiona-me ver adultos a atacá-la.

Regressando ao presente: viver o agora é viver os pequenos prazeres da vida?
Os pequenos e os grandes. Por exemplo, à sexta costumo almoçar num restaurante da Praia das Maçãs, o Neptuno. É um dia muito importante porque na noite anterior recebem um grande carregamento de peixe de Peniche. Por norma, o almoço fica estragado...

Porquê?
Há demasiada oferta e, com isso, a tendência para escolher qualquer coisa fora do habitual, ser demasiado ambicioso. Esse nervosismo, essa incerteza, é o sinal da felicidade. A tua vida está tão simplificada que o teu terror é escolher mal o peixe que vais comer à sexta, quando a oferta é maior. Estar obcecado com isso é não estar obcecado com coisas tristes.

Será essa a história da sua vida: uma insaciável curiosidade e vontade de descoberta?
É mais simples do que isso: uma juventude estragada a ler e a estudar até aos 35 anos, na convicção de que só a cabeça interessava. Com isso, não tive adolescência, o que é irrecuperável.

Está a viver bem os 63 anos?
São 63 mal contados. Se descontarmos aqueles em que não vivi a vida, devo ter para aí uns 40 e tal. E acho que se nota. Não é normal uma pessoa da minha idade estar obcecada com o peixe e com coisas que acabou de descobrir...

Daí as suas crónicas gastronómicas?
Nunca tive aquela educação tipicamente portuguesa pela comida, que só se consegue com alguém da família a cozinhar regularmente ao almoço e ao jantar. A minha mãe era inglesa, cozinhava muito de vez em quando. Íamos muito a restaurantes. Comíamos peixe – o meu pai adorava – numa altura em que isso era tido como comida de pobres. Os ricos comiam bife. Mas não substituiu uma educação caseira. Com as crónicas tenho descoberto muita coisa.

Na exaltação desses prazeres, incluindo os gastronómicos, é mais hedonista ou epicurista?
Para gostar do almoço, é preciso passar alguma fome. Buscar só o prazer, como o hedonista, pode ser muito estúpido. Os prazeres funcionam por contraste.

A oposição é, também, entre o excesso e a moderação?
Moderação é daquelas palavras virtuosas que detesto. Não há nada mais hipócrita do que um anúncio de whisky a dizer para se beber com moderação. Apetece mandá-los à merda. Para quê? Para venderem menos? É absurdo. A minha mãe era moderada: três cigarros por dia, um copo de vinho com uma pedra de gelo. Eu não consigo.

Mas houve uma altura, quando esteve internado na sequência de uma hepatite alcoólica, em que lhe aconselharam moderação.
Sim, mas sempre cultivei o excesso. Sou capaz de estar sete horas sem comer para ser excessivo. No Santini pode-se pedir, no máximo, um cone ou um copo com quatro bolas de gelado, não cabem mais. Para quê pedir só três? O excesso é um prazer, uma riqueza. É ter mais livros do que tempo para os ler. É, acima de tudo, uma resposta inteligente. Se posso, então quero tudo. É ter o máximo da vida. O excesso é guloso.

Sempre foi assim?
Sempre. Quando em criança recebíamos smarties, o meu irmão separava-os por cores, guardando para o fim as de que mais gostava, as cor de laranja. Eu comia logo tudo de uma vez. Chateava-me os dele durarem tanto tempo, mas eu tinha o prazer de os ter sorvido de um trago. Gosto muito da vida, sempre achei que tinha tido muita sorte em nascer, de ter a minha cabeça e apetência, o meu entusiasmo, descobrir constantemente coisas novas, que infelizmente só posso conhecer pela rama, porque a oferta é tanta...

Sobre as suas crónicas podemos ter muitas opiniões, mas uma coisa é certa: são o retrato de um país em mudança.
Sim, lembro-me de que nos primeiros dez anos a minha luta era levar os portugueses a gostarem de Portugal. Toda a gente dizia que isto era uma merda. Agora, é o contrário. Já não há paciência para o discurso do “melhor do mundo”. Perdeu-se completamente o bom senso.

Mas está contente com as mudanças?
Não estou contente com o turismo. Nada contra os estrangeiros, mas chegou-se a um momento em que há demasiadas pessoas, sobretudo em Lisboa. E ainda querem fazer um novo aeroporto para chegarem mais? Não concordo. É preciso ser radical.

O que proporia?
Fazer corresponder o preço das viagens de avião ao mal que fazem ao ambiente. Uma viagem de Lisboa a Londres devia custar, no mínimo, 1 500 euros. Acabar também com as companhias aéreas low cost e com o Airbnb. Tem de haver coragem para avançar com medidas deste género. Não é moderar, é proibir viagens de avião e apostar num sistema de comboios tão bom como os dos suíços ou japoneses.

Para um país estruturado à volta do turismo, seria uma convulsão...
Se as pessoas querem vir a Portugal, têm de se esforçar um bocadinho, porra! Antigamente, ir a Londres era difícil, juntava-se dinheiro, planeava-se e era melhor por causa disso. Agora, por 30 euros apanha-se um avião e vai-se almoçar a Lisboa. A cidade está a ser destruída. Deixou de haver lisboetas.

Vejo que o assunto o tira do sério.
Deixa-me doente. É a cidade onde nasci. No outro dia, na Baixa, passei por uma Lisbon Duck Store. Uma loja que só vendia patos! Os turistas pensam que estão a ter uma experiência de Lisboa, mas estão rodeados de lojas e restaurantes fake. É uma imagem totalmente falsa.

Antigamente era melhor?
Lisboa era uma cidade verdadeira, bonita e luxuosa. Diziam que era deprimente, mas não podiam estar mais enganados. A Baixa vazia? Não estava. Tuk-tuks? Que horror... Isto não tem nada a ver com ódio aos estrangeiros, repito. Os portugueses gostam muito de espanhóis, ingleses, franceses e, sim, sabem receber muito bem. Só não podemos é ficar soterrados.

Quando lançou o livro anterior, em 2014, vivíamos em plena crise. Imaginou que cinco anos depois estaríamos num contexto quase oposto?
O sucesso económico é muito fake também. Não somos um país rico. A dependência do turismo é real. Se deixarmos de estar nada moda, podemos ter um problema sério.

Mas nem D. Afonso Henriques imaginaria um défice zero...
É consequência de termos passado para o ramo dos serviços aos ricos. A quantidade de pessoas que estão a trabalhar em função das pessoas que têm dinheiro... É um retrocesso imenso. O que interessa é a nossa dignidade. E recuperá-la custa muito.

Um país periférico e pequeno, como o nosso, tem alternativa?
A dimensão não pode ser razão. Veja-se a Suíça. Podíamos decidir: Portugal agora é 100% bio. Basta um pequeno gesto, mas tem de ser feito com veemência. Portugal atrai tanta gente porque é bom e barato, embora cada vez menos barato para os portugueses. É preciso tirar partido da pequenez. São precisos gestos radicais para conservar o que temos de melhor. E pense-se a ideia do bio: quanto veneno é posto nas plantas? Agora está na moda atacar o PAN, não percebo tanta sanha.

Será medo de um intruso no sistema político?
Não sei bem, mas as propostas em favor dos animais são benéficas e meritórias. O que têm feito os outros partidos neste campo? A legislação que o PAN já conseguiu aprovar justifica por si só a sua existência. Os partidos pequenos, como também o BE e o PCP, valem ouro. Defendem ideias que outros não defendem. O Serviço Nacional de Saúde, por exemplo.

Integrados na Geringonça, o BE e o PCP continuam a valer ouro?
Sim, é um ótimo acordo. O PSD e o CDS deviam deixar-se de fingimentos e estar sempre aliados. Tal como os partidos de esquerda. Seria como em Inglaterra a divisão entre Conservadores e Trabalhistas. Uma pessoa tem de poder votar no PCP, no BE ou no PS quando a direita faz merda. E a esquerda também tem de se libertar e aprender a votar na direita. Quando fiz campanha como candidato ao Parlamento Europeu, acabava os comícios a dizer o nome de todos os partidos. Quanto maior o leque, maior a escolha.

Imagino a Geringonça a dar belas capas n’O Independente...
Ah, daria sim, sem dúvida. A Geringonça é um gesto de grande civilização do BE e do PCP. Odiando o PS, têm de fingir que o estão a apoiar. E é o pior pesadelo da direita.

Seria um bom título para uma capa?
Talvez. Para um jornal como O Independente, a Geringonça seria ainda melhor do que o Cavaco. Por causa da falsidade, das mentiras, das coisas que não se dizem. Facilmente imaginamos dois departamentos no PCP e no BE: um para falarem quando ninguém está a ouvir, outro para falarem em público. São totalmente sonsos.

E Trump daria uma boa capa?
Trump é uma aberração tão grande que prefiro que não passe de um mau episódio de quatro ou oito anos, caso seja reeleito. É uma espécie de piada cósmica tê-lo depois do melhor Presidente de sempre, Obama. É também deprimente: foi por termos tido um que a seguir veio o outro. 
O medo de ter um Presidente que não é branco, o discurso demagógico... Pagamos agora o preço. O progresso parece funcionar assim.

Não falar do Trump seria a sua estratégia?
Num jornal dirigido por mim, não haveria notícias sobre o Trump. Gente como ele vive dos ataques, da atenção das pessoas.

Faria o mesmo com o Brexit?
Essa é uma dor maior. A Grã-Bretanha é uma sociedade muito classista. As classes altas e o povo sempre se odiaram mutuamente. Mas nunca tiveram oportunidade de falar sobre o assunto ou de o manifestar. A Europa foi a desculpa para exporem esse ódio.

Vê alguma solução?
Não. É a sociedade que têm, em parte ligada ao ressentimento de, em tempos, terem dominado o mundo. Hoje, já há agências de casamentos que têm como primeira pergunta saber se o candidato é a favor ou contra o Brexit.

Uma das suas crónicas mais recentes, sobre turistas alemães, incendiou rapidamente as redes sociais, com comentários a favor e contra...
Nesse caso, não aguentei. Tenho sempre o cuidado de não referir as nacionalidades quando critico um turista. Mas a verdade é que são quase sempre alemães, dos 60 para cima. De uma arrogância incrível! Convém lembrar que a minha mãe era inglesa e que colaborou, dos 19 aos 25 anos, no esforço da Segunda Guerra Mundial. Se calhar, transmitiu-me esse ódio.

A pergunta ia no sentido de saber se lida bem com as redes sociais.
Muito bem. É uma sorte poder ler os comentários. Venho de um tempo em que não havia eco nenhum. Os leitores não tinham oportunidade de se manifestar. E, no Expresso, nas matérias sobre as quais escrevia não havia concorrência. Sobre aquele assunto não podiam ler outra coisa. Tinha o público mais do que cativo, coitado.

O fascínio pela internet vem desde o início?
Tem sido constante. As últimas férias com a Maria João em Tavira foram de um sofrimento enorme. Não tínhamos internet. Já não se consegue viver sem ela. Gosto do Twitter, porque tem muita variedade e pessoas interessantes. Dá gosto ler. Agora, o tempo no Facebook é um tempo perdido, uma espécie de inferno em que toda a gente pode escrever, até as pessoas que não sabem fazê-lo. Para elas deve ser bom, porque desabafam, mas tira-nos a premência da leitura.

É uma consequência da democratização dos meios de comunicação?
É, pelo menos, o oposto de uma ideia aparentemente antiquada: devemos ler quem acreditamos que escreve melhor do que nós. Isso perdeu-se. Antes, lia-se Agustina e Beckett para aprender. Hoje, escreve-se para opinar.

Opinião unânime é dizer que tem vivido, com a sua mulher, Maria João, uma bonita história de amor, como nos tem revelado em tantas crónicas. A felicidade não é inimiga da escrita?
É. Descrever o estado de felicidade é tão difícil quanto elogiar alguém. São desafios para a escrita. A tristeza e a preocupação escrevem-se a si próprias. A felicidade irrita.

Pelo excesso de adjetivação?
Porque as palavras não ocorrem. Parte substancial da felicidade é não exigir explicação. A questão que se coloca é: se estou feliz, por que razão vou tirar tempo para escrever?

E entristece-o quando o comparam com o Miguel Esteves Cardoso dos anos 80 e 90, mais cáustico, e dizem que “antes é que era bom”.
Ouvir isso é um luxo, até porque quem o diz já na altura me detestava. Apesar de vivermos 24 horas no nosso corpo e na nossa cabeça, para os outros, às vezes, não passamos de umas quantas palavras. “Ele tinha graça quando era novo.” Já é um conseguimento, uma opinião. E a contrária – “ele agora é que é bom” – também é válida. Se te perguntarem qual o teu álbum preferido dos Beatles e indicares um, o que te vão dizer é: então, e não gostas dos outros?

Este livro acaba com uma crónica sobre epitáfios. Já alguma vez teve a tentação de pensar o seu?
Sou um leitor entusiasmado de epitáfios. Gosto muito do de Spike Milligan: “Eu avisei-vos que estava doente.” É preciso pensar em quem lê e diverti-lo. Mas sei que não há pote de ouro no fim do arco-íris... A verdade está muito mais próxima de nós, não está escondida. Apenas existe esta aldeia onde vivo, a calçada que piso, um dia de junho com chuva como o da semana passada. A Maria João e eu apanhámos uma molha grande e inesperada. Tínhamos restaurante marcado para as sete mas não nos deixaram entrar cinco minutos antes. Foi de chegar às lágrimas, mas hoje falamos com gosto do episódio. É o lado bom da experiência. Podemos transformá-la em histórias e alegria. Eis a vida.

Tem dito que pensar na morte valoriza a vida.
A morte não é uma experiência que se possa partilhar. Ninguém pode dizer-nos como é.

Avançar na idade torna-a mais presente no pensamento?
É como na canção do Frank Sinatra, September of My Years, que a minha mãe me deu a conhecer. Com o fim das férias grandes, sabemos que vem aí o inverno. Envelhecer é perceber que estamos muito longe do ponto da nascença. A noção de fim aumenta. Nunca o disse, mas a consciência verdadeira dessa aproximação é pensar que se morrer amanhã não foi mau de todo. Aguentei 64 anos. É melhor do que o discurso do “coitadinho, morreu tão novo, só com 64”.

E é aproximar-se mais da sabedoria?
Ainda não sei, não tenho idade suficiente para o afirmar. Sei que a capacidade física vai piorar. Custa e é chato. Devia ser ao contrário, ter o máximo vigor para encarar os últimos anos. Morrer e sofrer fisicamente é um duplo castigo. É tirar-nos a vontade de viver antes de a vida acabar. Talvez torne a morte mais doce. O segredo é encontrar a alegria de cada idade. E agradecer termos saúde, podermos falar, termos dinheiro para umas cervejas. Parece irrisório, mas não é.

1
1