www.publico.ptpublico@publico.pt - 12 jul 09:09

O estado do debate

O estado do debate

Os derrotados das conquistas alcançadas em 2015 agora pedem em uníssono maioria absoluta do PS.

Foi você que pediu novidade? Lamento a desilusão, mas isso não vinha no pacote. Diz o povo que “até ao lavar dos cestos é vindima”, daí perceber alguma curiosidade e até uma ponta de ansiedade, mas o país já não tem razões para viver em sobressalto. Em quatro anos de estabilidade, não seria o último debate do Estado da Nação da legislatura que fugiria a esta regra.

Espere, não vire já a página. Não é por ter corrido sem imprevistos que se pode dizer que o debate foi desinteressante ou desmereça alguma análise. É retirando a campanha eleitoral dos balanços que foram feitos que compreendemos verdadeiramente as lições que são tiradas por cada um dos partidos e o que devemos esperar no futuro.

Dissecados os argumentos da direita resta apenas o desnorte. PSD e CDS andam perdidos sem a bússola da troika e não conseguem sair das teias da contradição nas críticas que fazem ao governo. Criticam a falta de investimento público, mas reclamam o cumprimento de metas de défice que o deixam KO; gastam o latim nos problemas dos serviços públicos quando no passado andavam com o discurso dietético das gorduras que tínhamos de cortar; anseiam pelo país do medo, teimando em perceber que hoje resgatamos a confiança. Ficou visível que o principal problema da direita não é o da ausência de um projecto para o país, é que não tem sequer uma solução para sair do labirinto onde se encontra.

Bem podemos ouvir Rui Rio com promessas de baixas de impostos, ou Assunção Cristas a fazer juras que teve essa ideia primeiro. O país sabe bem quem fez os enormes aumentos de impostos sobre o trabalho e quem baixou o IRS, tal como a classe média sabe distinguir entre quem cortou salários e pensões e quem devolveu os rendimentos e os direitos. E, nesse caminho de redistribuição de riqueza, PSD e CDS estiveram sempre do lado errado da história.

Creio que ainda ouviremos os candidatos de direita dizerem que os tempos da troika foram de escolhas difíceis, que o país que estava na bancarrota e não havia alternativa, que fizeram todas as maldades por necessidade e não por vontade. Mas só se podia lembrar de chamar o diabo quem levou o país ao inferno nos anos da austeridade. Agora, podemos mostrar que havia mesmo uma alternativa: quando se cortaram salários e pensões atirou-se a economia para o buraco de onde saiu o desemprego e a emigração, quando se começaram a devolver rendimentos e se deram passos para ressuscitar a procura privada a economia começou a crescer e a criar oportunidades. Espero que, por esta altura, os manuais de economia já estejam corrigidos e a austeridade ocupe o seu lugar no caixote do lixo da academia.

No outro debate que existiu, o balanço dos acordos políticos assinados em 2015 foi considerado positivo por quem os assinou. É um bom começo de conversa e nada óbvio a julgar por algumas opiniões recentes. Diz-se que as opiniões são como as frutas e algumas nem chegam sequer a amadurecer, o que parece ter um fundo de verdade. Outras opiniões são tão amadurecidas que acabam por apodrecer, o que também é uma conclusão válida. Entre os dois pontos de vista não espere que venha o diabo e escolha, porque, como vimos, o mafarrico anda desaparecido em parte incerta. Avancemos, o que deve ser salientado é que foi um dia de bom tempo no lado esquerdo do hemiciclo.

Nem sempre navegamos em águas calmas, é certo. Houve momentos em que existiram divergências sérias, outros houve em que a mera vertigem da maioria absoluta explicava os mares mais agitados. Na verdade, sempre que António Costa deu ouvidos às vozes dos grandes interesses económicos vieram problemas: foi assim quando quiseram atacar a Segurança Social, nas rendas da energia, no precaríssimo período experimental ou quando resistem a uma nova Lei de Bases da Saúde que rompa com as PPP.

Por isso, imagine o mal que pode vir do coro que se está a juntar. Os derrotados das conquistas alcançadas desde 2015 agora pedem em uníssono uma maioria absoluta do PS. Ouviu Isabel Vaz (dos privados da saúde), Alexandre Fonseca (o CEO da Altice) ou o patrão dos patrões, certo? Qual o motivo para este alinhamento? Eles sabem que foi a distribuição de poder em 2015 que deu força à esquerda e desviou o PS do seu programa de austeridade light. Quando a esmola é grande...

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