visao.sapo.ptManuel Barros Moura - 12 jul 16:26

The Cure no Alive, ou as coisas que não mudam

The Cure no Alive, ou as coisas que não mudam

A banda de Robert Smith ofereceu um concerto exemplar, mostrando que é possível manter a magia ao fim de mais de quatro décadas de carreira

O que faz um tipo de quase 50 anos (com idade, portanto, para já ter juízo) a sair de casa a meio da semana, na véspera de dia de trabalho, para assistir a um concerto de uma banda com 40 anos de carreira, que começa depois da meia-noite? Tinha tudo para correr mal. Mas a ideia de reviver a mítica noite de há 30 anos no Estádio de Alvalade era irresistível. E a verdade é que os mais recentes regressos dos The Cure para dois concertos no Altice Arena (ainda se chamava Atlântico, na altura) davam algumas garantias de competência da parte de Robert Smith e companhia. E assim foi: o concerto dos cabeças de cartaz da primeira noite do NOS Alive deste ano saiu bem melhor do que a encomenda.

Foram duas horas e oito minutos de excelência. A noite quente e sem vento à beira Tejo ajudou a criar o ambiente perfeito. Um som cristalino permitiu confirmar a competência de todos os executantes em palco, começando pelo poder assombroso do baixo de Simon Gallup e acabando na mestria à guitarra de Robert Smith. E aquela voz, senhores? Igual à de há 30 anos. Pelo palco do passeio marítimo de Algés os The Cure fizeram passar muito do que de melhor fizeram na sua longa carreira, para delícia das cerca de 40 mil pessoas que ali os receberam. Ouviu-se de tudo: os grandes êxitos pop que nos fizeram dançar na adolescência, as músicas ao som das quais nos apaixonámos e namorámos vezes sem conta e os temas melancólicos e sombrios que ouvimos fechados no quarto em noites de dor de corno. Faltaram alguns clássicos, como é natural. A rigidez de horários de um festival como o Alive não permitiu que Robert Smith tivesse a veleidade de repetir os concertos de mais de três horas que realizou nas últimas passagens pelo nosso país. Mas não fez falta.

Arlindo Camacho

Foi perfeito, como foi. Alturas houve em que, fechando os olhos, parecia até estarmos a ser transportados no tempo, lá para trás, para as bancadas do velhinho estádio do Sporting. A música que vinha do palco era, muitas vezes, a mesma. Alguns amigos de então, também ontem lá estavam. O prazer era idêntico. Ao abrirmos os olhos, porém, a realidade apresentava-se-nos dura, como sempre. As barrigas e as rugas (deles, em palco, e nossas, na assistência) faziam-nos regressar à Terra. Os cigarros eletrónicos com tabaco aquecido e sabores a menta e chocolate, acompanhados de cerveja bebida em copos reutilizáveis diziam-nos que os tempos são outros, ainda que o aroma a cigarrinhos para rir andasse sempre no ar. E a certeza de o que o dia seguinte iria ser (como foi, de facto) muito duro fazia-nos acordar. Mas foi o despertar de um sonho bom. Com o prazer de saber que por mais que o tempo passe, há coisas que não mudam. Que nos fizeram felizes lá atrás e nos fazem felizes ainda hoje. Mesmo a um tipo que caminha a passos largos para os 50...

Alinhamento do concerto

Shake Dog Shake
Burn
Fascination Street
Never Enough
Push
In Between Days
Just Like Heaven
From the Edge of the Deep Green Sea
Pictures of You
High
Just One Kiss
Lovesong
Last Dance
A Night Like This
Play for Today
A Forest
Primary
39
One Hundred Years

Encore
Lullaby
The Caterpillar
The Walk
Friday I'm in Love
Close to Me
Why Can't I Be You?
Boys Don't Cry

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