www.publico.ptbreis@publico.pt - 12 jul 05:50

“Excuse me”, posso passar?

“Excuse me”, posso passar?

O Paulau, que depende do turismo dos corais, proibiu os protectores solares que destroem os corais. As cidades também precisam de regras para impedir que turistas a mais as destruam.

Num beco de Alfama, quatro estrangeiras com ar de Meryl Streep no Mamma Mia! jantam numa esplanada. Falam tão alto que se ouve dentro do restaurante. Como estamos no bairro medieval de Lisboa — e não numa avenida ampla —, também se ouve dentro das casas à volta.

Os guias explicam que Alfama é “o bairro mais típico” de Lisboa, onde as ruas são estreitas e as casas apertadas ao ponto de os vizinhos falarem de janela para janela. As Meryl Streep estão felizes e dobram-se para cima dos joelhos de tanto rir.

Nisto sai uma senhora de uma pequena porta e põe-se a arrumar o pátio da sua casa.

A operação tem dois problemas: o que há para arrumar são pesados tubos de ferro e a entrada da moradora de Alfama é no beco partilhado pela esplanada onde jantam as quatro estrangeiras. As Meryl Streep ficam de boca aberta. Surpreendidas com o bater dos tubos, viraram-se na direcção da “local” com olhos pesados, fazem que não com a cabeça e ar de quem diz: “Não vê que estamos a jantar...?”. Como Alfama ainda é Alfama, só não ouviu a resposta da “local” quem não quis: “Se não gostas, vai para a tua terra.”

A razão está de que lado? Da residente que, depois do jantar, vai arrumar os ferros da banca onde vendeu cerveja e chouriço nas festas do Santo António e cuja entrada de casa tem turistas a conversar, rir e fumar colados às suas janelas até às 2h da manhã todos os dias? Ou das Meryl Streep, o tipo de turistas de que as economias gostam, pois dormem nas cidades e comem nos restaurantes?

Apesar de ainda ser um híbrido, Alfama está a caminho de ser tornar um “tourist trap”. As turistas têm peixinhos da horta no menu, mas à volta só há estrangeiros. A “local” dá um ar “very typical”, mas por favor não ao ponto de incomodar os turistas. Os mesmos que às 22h tocam à porta dos residentes do andar de cima para protestar contra o barulho das crianças a correr. Ou que montam tripés no meio da rua para fotografar o eléctrico 28, em Lisboa, e os azulejos da Capela das Almas de Santa Catarina, no Porto, indiferentes ao facto de, com isso, fazerem parar o trânsito.

Não estamos em estado de emergência turística e o problema não são os turistas que se comportam como se estivessem na Disneylândia. Mas o “novo turismo” — já lhe chamam “turismo predador” — precisa de regras.

Em 2017, a Europa recebeu 670 milhões de turistas, um aumento de 8% comparado com 2016. A tendência é aumentar, pois as novas classes médias asiáticas não param de crescer. Portugal já está no top-10 dos países europeus que mais turistas atraem (21,2 milhões em 2018).

A simples observação do que se passa obriga a perguntar: quantos lugares vão ter de rebentar pelas costuras até que apareça bom senso?

Na Ilha das Berlengas houve bom senso. A última vez que lá fui, andei de barco por entre cascas de meloa e abóboras. O Governo acaba de decretar que só podem estar 550 pessoas na ilha ao mesmo tempo. É a capacidade de carga das Berlengas. Caso contrário, o ecossistema da ilha morre. Durante anos, eram 1200 pessoas. O governo grego fez a mesma coisa na ilha de Santorini, a dos telhados azuis: os cruzeiros só podem largar oito mil pessoas por dia.

Qual é a capacidade de carga do Museu do Louvre, que tem cada vez mais visitantes, mas não aumenta os recepcionistas e os vigilantes? Qual é a carga máxima do Great Barrier Reef, que reduziu o número de mergulhos mas vai abrir um hotel subaquático? E do Monument Valley, que proibiu os voos de helicóptero? Ou do Matchu Pitchu, que restringiu a entrada em três áreas?

Da Ilha de Boracay à Baía de Maya, passando pela Koh Jum, nas Phi Phi, ou pelas Koh Tachai, nas Similan, há praias e ilhas a serem fechadas aos turistas por todo o lado. Em Bali, um batalhão de pessoas recolhe 100 toneladas de plástico das praias de Jimbaran, Kuta e Seminyak por dia. Já não se faz surf. Esse negócio está morto. Bali, como outros paraísos, têm ainda o problema do “turismo dos zero dólares”: milhares de chineses visitam a ilha através de agências de turismo que parecem ser locais mas são chinesas, e por isso as receitas do turismo não vão para Bali.

Com os edifícios, monumentos e cidades é igual. As pirâmides no Egipto poderão ter problemas irreparáveis em 2070 se não se começar a reduzir os turistas hoje. Veneza é uma tragédia e já tem torniquetes. O governo do Paulau, que depende do turismo dos corais, proibiu o uso de cremes protectores solares — que destroem os corais. No Havai, uma proibição parecida entra em vigor em 2021.

Há um ano, o PCP propôs, e foi aprovado, que a câmara municipal de Lisboa fizesse um estudo para saber qual é a capacidade de carga de Lisboa. Há um mês uma vereadora perguntou se estava a ser feito. Não há resultados, nem houve resposta.

Deixar andar é a pior opção. Como os corais e as pirâmides, as cidades também morrem. Chegámos à fase em que, para andar no centro histórico de Lisboa, temos de dizer: “Excuse me, posso passar?” Se não fizermos nada, acabamos atropelados.

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