visao.sapo.ptRicardo Araújo Pereira - 12 jul 08:14

Chatícias

Chatícias

A experiência de assistir aos canais televisivos de notícias é, neste momento, muito semelhante à de aturar chatos numa festa

Ilustração: João Fazenda

. Nas festas há, simplificando (não quero aborrecer ninguém com uma taxinomia exaustiva), três grandes tipos de chato: o chato que fala apenas de um tema, o chato que fala desordenadamente de demasiados temas e o chato bêbado que repete várias vezes a mesma história. Os canais de notícias conseguem fazer o pleno das estratégias de chatice. Umas vezes, são o chato que fala só de um tema. Há várias alturas em que
todos os canais de notícias têm gente a discutir e a especular sobre futebol, e a lamentar o mal que as discussões e as especulações sobre futebol fazem ao futebol. Ao domingo há comentários ainda a quente, e por isso os ânimos exaltam-se. À segunda já é possível ter uma perspectiva mais distanciada e os ânimos exaltam-se por, apesar disso, toda a gente manter as posições exaltadas da véspera.

À terça analisa-se com mais pormenor a arbitragem, e os ânimos exaltam-se. À quarta examinam-se novas imagens que revelam que afinal não havia razão para que os ânimos se tivessem exaltado, e por isso os ânimos exaltam-se. À quinta já não há assunto. Por isso, os ânimos exaltam-se. À sexta começa a ser feita a antevisão da jornada seguinte. E os ânimos, em princípio, exaltam-se. E ao sábado há relatos em directo dos jogos, durante os quais, muitas vezes, os ânimos se exaltam.

Noutras ocasiões, os canais de notícias são o chato que quer agradar falando de vários temas: então o nosso Benfica? E isto do Bolsonaro, pá? E aquilo da EMEL e os carros em cima do passeio? São demasiadas conversas muito diferentes ao mesmo tempo. Este tipo de chato é o que se encarrega de escrever os rodapés que vão passando durante a emissão. Começa, por exemplo, com: “Especialistas alertam para perigo real de guerra entre EUA e Irão.” A seguir, escreve: “Kim Kardashian tira selfie polémica.” E depois: “Ovibeja: certame começa amanhã.”

Por fim, são o bêbado que se repete. De hora a hora transmitem o mesmo noticiário. E quase todos os programas são emitidos mais do que uma vez. A única diferença em relação à experiência de aturar chatos em festas é que, quando estou a ver canais de notícias, não estou a beber nada. Mas vontade não me falta.

(Crónica publicada na VISÃO 1374 de 4 de julho)

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