observador.ptJosé Miguel Pinto dos Santos - 13 jul 00:54

Esclarecimento público

Esclarecimento público

A morte de Vincent Lambert deveu-se a lhe ter sido tirada a alimentação e hidratação. Embora pudesse vir a morrer à fome, morreu à sede à medida que vários órgãos foram colapsando por falta de fluídos

Foi noticiado o falecimento Vincent Lambert, um “enfermeiro francês em estado vegetativo e com estado alterado de consciência” de 42 anos. Paz à sua alma.

Esclarece-se:

  1. Vincent Lambert era de facto enfermeiro. Também era francês. [nota 1]
  2. Vincent Lambert não estava em estado vegetativo ou, pelo menos, não estava em estado vegetativo persistente (os diagnósticos de vários srs. drs. são dispares)[nota 2]; após um acidente de viação em 2008 ficou tetraplégico devido a uma lesão cerebral grave. Era, portanto, uma pessoa com uma deficiência profunda, mas de resto saudável.
  3. A sua deficiência profunda exigia lhe fossem prestados cuidados pessoais, na alimentação e higiene. Embora Vincent Lambert ocasionalmente continuasse a ingerir alimentos moles através da boca, a sua alimentação e hidratação era feita essencialmente por uma sonda gástrica (isto é, um tubo inserido através de uma incisão feita na garganta).
  4. Vincent Lambert não estava a receber tratamento médico nem era regularmente medicado. [nota 3] Não necessitava de nenhum equipamento que apoiasse o regular funcionamento pulmonar, cardíaco, de rins, fígado, ou outro. A sua morte não foi pois devida a que algum equipamento médico fosse “desligado”.
  5. As autoridades médicas não permitiram, durante vários anos até à sua morte, que os seus pais ou outras pessoas empenhadas no seu bem-estar, o levassem para casa ou para outra instituição assistencial ou de saúde. O Hospital Universitário de Reims funcionou de facto como estabelecimento prisional para Vincent Lambert durante os seus últimos seis anos de vida.[nota 4]
  6. A morte de Vincent Lambert não foi devida à remoção de nenhum cuidado médico intrusivo ou não intrusivo, desnecessário, desproporcional ou suscetível de causar sofrimento adicional.
  7. A morte de Vincent Lambert deveu-se a lhe ter sido retirada a alimentação e hidratação. Embora pudesse vir a morrer à fome, não foi isso que lhe aconteceu: Vincent Lambert morreu à sede à medida que vários órgãos foram colapsando por falta de fluídos, mais concretamente por uma insuficiência cardíaca causada por um mau funcionamento renal.
  8. A agonia da morte à sede é especialmente excruciante. Por isso compreende-se que alguma comunicação social tenha divulgado que o sr. dr. responsável pelo “protocolo de fim-de-vida” que o levou à morte iniciou, pouco antes de alimentos e fluidos lhe serem retirados, sedação “profunda”, a uma pessoa supostamente já em estado vegetativo e sem consciência.
  9. É duvidoso que a sedação a uma pessoa supostamente em estado vegetativo tenha funcionado como anunciado, a apreciar pelos comentários dos familiares de Vincent Lambert que eram a favor do “procedimento” & assistiram à sua morte: François Lambert, sobrinho do falecido e vocal defensor ex ante do ”procedimento” declarou publicamente ex post que o tio tinha sido sujeito a um “procedimento sádico”. Nada como ver para crer.
  10. Vincent Lambert morreu à sede ao fim de nove dias de sofrimento administrado num hospital público. [nota 5]
  11. Nunca se saberá quanto sofreu Vincent Lambert durante os seus últimos nove dias de vida.
  12. Bem-vindos ao admirável mundo novo em que o Estado e os seus agentes de saúde impõem de modo coercivo “tratamentos” de morte e de vida. O próximo pode ser qualquer um de nós.
  13. Depois da morte de Vincent Lambert alguns srs. bispos disseram coisas apropriadas ao momento e outros disseram bacoradas incríveis. Destaca-se, de entre os primeiros, a do sr. bispo Jacques Benoit-Gonnin de Beauvais: “Ficámos entristecidos com o epílogo do drama que terminou com a morte de uma pessoa que não estava no fim da sua vida.”
  14. Mas a declaração dos advogados que defenderam a causa de Vincent Lambert é que vale a pena ser lida e meditada por todos aqueles que lutam pela defesa da vida e dignidade das pessoas deficientes: “Vincent est mort, tué par raison d’État et par un médecin qui a renoncé à son serment d’Hippocrate. [nota 6] Cette cathédrale d’humanité qui brûlait depuis une semaine sous nos yeux impuissants s’est effondrée. Il n’aura été tenu aucun compte de la dignité de cet homme handicapé, condamné parce que handicapé. Car la première dignité, c’est le respect de la vie d’une personne. C’est un peu de notre humanité à tous qui s’en est allée aujourd’hui, tant cette faute ignoble qui ébranle les fondements de notre droit et de notre civilisation rejaillit sur nous tous. L’heure est au deuil et au recueillement. Il est aussi à la méditation de ce crime d’État.”

Também merece ser lida por todos aqueles que lutam pela vida e pela liberdade das pessoas, contra todas as tiranias.

(O avtor não segve a graphya do nouo Acordo Ørtvgráphyco. Nem a do antygo. Escreue como qver & lhe apetece.)

[nota 1] Azar dele. Mas,… será que em Portugal … estamos melhor?
[nota 2] O que parece demonstrar que a medicina continua a ser uma arte e que o olho, o ouvido e o tato (e da falta dele) dos artistas varia, o que por si só não será um problema. A pluralidade de opiniões no diagnóstico médico, um facto, deve ser encorajada e bem-vinda tal como na economia e no futebol, e quem não gosta do tratamento proposto deve ter a liberdade para procurar outro. Embora Vincent Lambert estivesse num “estado de consciência mínima”, foi confirmado por vários srs. drs., durante os passados 10 anos, que ele mantinha alguma consciência, como seguir visitantes com os olhos, reação a vozes e capacidade de deglutição de alimentos moles.
[nota 3] A não ser que a ingestão de comida e fluidos já sejam considerados atos médicos. A ser este o caso será que vai ser necessário uma receita para ir beber cerveja, ou o acompanhamento do médico de família para se ir comer um bitoque? E será que pastelaria passarão a perguntar: “e o pastel de nata, é genérico ou de marca?”
[nota 4] A evolução dos hospitais de instituições de saúde para centros de detenção parece ser uma evolução europeia recente, sendo provável que o caso de Alfie Evans (2016—2018), em que os srs. drs. do Alder Hey Children Hospital rejeitaram e impediram judicialmente, e com recurso a um aparato policial próprio para um jogo Liverpool-Arsenal, a sua transferência para Hospital Bambino Gesù, desejada pelos pais, o primeiro caso mediático do género. Em ambos os casos, em Reims e em Liverpool, o aparato policial parece indiciar que alguns srs. drs. encaram os seus pacientes, ou pelo menos aqueles que procuram uma segunda opinião, como criminosos violentos o que exigir protocolos de segurança nos hospitais semelhantes aos praticados na Sing Sing ou no Estabelecimento Prisional de Monsanto.
[nota 5] Experimente fazer isso ao seu cão ou ao seu gato no seu quintal e verá com que PAN leva na cabeça.
[nota 6] Quantos ainda o fazem? Quanto ainda o cumprem? Para sua proteção, que tal pedir ao seu médico que o faça no início da consulta?

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