expresso.ptexpresso.pt - 11 jul 20:01

Podcast Humor À Primeira Vista #6 Joana Marques feat. Tina Fey

Podcast Humor À Primeira Vista #6 Joana Marques feat. Tina Fey

Seja na rádio, televisão ou simplesmente a escrever, Joana Marques - a primeira mulher convidada do Humor À Primeira Vista - está a ter um 2019 bastante preenchido. É “Extremamente Desagradável” nas manhãs da Rádio Renascença, e na TVI, a convite de Ricardo Araújo Pereira, comporta-se como “Gente Que Não Sabe Estar”. Pontualmente viaja até casa de Cristina Ferreira, na SIC, para o “Programa da Cristina”, lançou recentemente o primeiro livro de anti-ajuda, “Vai tudo correr mal”, e prova todos os dias prova que fazer comédia não é sinónimo de stand-up

Humor À Primeira Vista é um podcast sobre comédia feito em parceria com a rádio da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS FM). O estudante de jornalismo e grande fã de stand-up Gustavo Carvalho convida humoristas portugueses para falarem sobre os seus mestres e referências no mundo do Humor. Há paixões comuns. Há palavras em inglês. Há decisões difíceis. Há uma boa probabilidade de ambos serem demasiado viciados no tema e de que a conversa se estenda para além do suposto. Há perguntas sobre comédia. Há respostas. Sorriem... Podia ser amor, mas é Humor À Primeira Vista.

Este ano já foste contratada por Cristina Ferreira, Ricardo Araújo Pereira e pela Igreja Católica. Se tivesses de escolher só um destes chefes qual é que seria?Começamos logo com perguntas difíceis. Por um lado, se calhar era mais sensato da minha parte escolher a rádio, porque é a de mais longa duração, à partida - a não ser que eu faça muitas asneiras, deve ser uma coisa para durar mais. Por outro lado, o Ricardo Araújo Pereira é sempre um marco na vida de qualquer humorista. Tanto que era uma oportunidade que até hoje não existia – eram os Gato Fedorento, aquele núcleo duro. Ele ter alargado esse núcleo e me ter convidado é um privilégio impossível de recusar. No fundo, estou a deixar Cristina Ferreira para o fim, mas também porque a Cristina tem muitos colaboradores, não lhe faria diferença menos um.

O Daniel Leitão, que apresentava contigo os “Altos e Baixos” e é teu marido, chegou a fazer stand-up. Tu nunca seguiste esse caminho…
Não, nem nunca tive muita vontade. O Luís Franco-Bastos, por exemplo, estava sempre a embirrar comigo, a dizer “tens de fazer, vou obrigar-te”. Acho que não teria dificuldade em escrever texto para stand-up - e não estou a dizer que seria bom ou mau. A parte do palco é que não me diverte muito. Mesmo quando fazemos o “Altos e Baixos” ao vivo, o Daniel diverte-se muito mais do que eu. Nem é de nervos nem nada. O meu problema é que faço uma vez e está feito. Chateia-me muito a repetição. Quando vejo o Luís, ou o Salvador [Martinha] a fazer 20 ou 30 datas… que é ótimo para eles, porque quem gosta tem de ter a coisa do aperfeiçoamento contínuo, mesmo a história de testar as piadas… acho que isso tudo não me daria gozo nenhum. Ia matar-me um bocado por dentro. Mas continuo a ser guionista, mesmo que às vezes interprete os meus próprios textos. O que me diverte mesmo é o momento inicial de estar em casa a escrever e descobrir a piada, não é tanto o apresentá-lo em público. Acho que o stand-up me daria menos gozo do que dá à maioria das pessoas que o fazem.

Não concordas então com aquela ideia de que a parte da escrita é a mais penosa, a que dói mais?
Não, para mim é muito divertido, sempre gostei muito. Não é nada penoso. Sei de alguns comediantes que nem chegam a escrever, é tudo tópicos. Para mim isso é completamente impensável. Vão para palco, têm os tópicos, sabem do que vão falar… e falam. É um talento. Lembro-me de que aqui há uns anos o Luís Franco-Bastos tinha muito esse método. Na altura em que trabalhávamos juntos na Antena 3, uma vez alguém lhe pediu o texto, mas ele não tinha o texto, nunca o tinha escrito. Fazia um espetáculo inteiro, de uma hora e tal, só com os tópicos. Estava tudo na cabeça dele. Incrível, não é? Eu preciso sempre de escrever tudo. É um bocado como quando estava a estudar, tinha muito esse método na faculdade. Escrevia para conseguir interiorizar, e hoje também o faço. Portanto, escrever não me custa.

Mesmo assim, o teu momento mais aproximado ao stand-up terá sido a Gala dos Dragões de Ouro…
Sim, sem dúvida. Só o fiz porque é aquele lado meio aparvalhado que as pessoas têm com os seus clubes de futebol, não conseguem negar um pedido. É uma oportunidade para estar na mesma sala que o Iker Casillas. Fui por isso e também porque, lá está, é só uma vez. Fiz aquele texto propositadamente para aquele dia e interpreto-o uma vez. Repeti o evento em si, mas em contextos e com piadas diferentes. Também te digo que não sei se repetirei, porque já fiz, foi giro, só que o assunto é sempre o mesmo e não tenho muito mais a acrescentar. Aliás, agora quando se ganha é mais difícil. Quando se perde é mais fácil gozar. Em qualquer dos casos é um texto e uma vez.

Neste episódio escolheste falar sobre Tina Fey…
Pediste-me para trazer um comediante e tive alguma dificuldade. Até comentei isso com o Guilherme Fonseca e ele perguntou-me “Então, quem é o teu comediante preferido?” Cheguei à conclusão de que não tenho. Não sou fã de ninguém, tirando o Iker Casillas, lá está (risos). Na comédia não tenho assim uma referência, não consigo indicar o meu favorito. Tive de pensar um bocadinho, mas lembrei-me da Tina Fey. Nem é tanto pelo lado das atuações dela – tanto que não faz stand-up, tal como eu. Mas ela tem mais talento do que eu, tem vários papéis como atriz. Eu só consigo fazer de mim própria, ela não. Embora ache que, por exemplo, a personagem que ela fazia no 30 Rock parece ser um alter-ego, só muda o nome. Identifico-me um bocado com ela, mais na lógica de ser uma pessoa com quem eu gostava de ir tomar um café ou jantar. Parece-me uma pessoa interessante pelo percurso que tem.

No programa de Jerry Seinfeld, o “Comedians in Cars Getting Coffee”, o próprio Seinfeld diz que acha que a Tina Fey não faz stand-up porque lhe falta alguma brutalidade. Achas que faz sentido?
Não tinha pensado nisso, se calhar sim. Eu não teria esse problema, sou um bocado mais bruta do que ela (risos). Pode ser mesmo a explicação simples de não se divertir por aí além a fazê-lo e se é tão boa a fazer outras coisas para quê insistir naquilo? Às vezes na comédia temos um bocadinho essa ideia, pelo menos em Portugal, de que só é comediante quem faz stand-up. Acho que há muita coisa para fazer em humor. Podes escrever para outros, escrever um filme, um livro… há mil formas. Uma das coisas boas do humor é estar sempre a fazer tarefas diferentes - eu gosto disso. Escrever para rádio, televisão, crónicas, etc. É um bocado redutor se quando pensamos em humoristas focamo-nos só em quem faz stand-up. Um exemplo disto é o Nuno Markl. Não faz stand-up e acho que é um grande humorista, com um estilo muito próprio. Isso faz falta: termos humoristas muito diferentes uns dos outros. O estilo do Nuno Markl não é parecido com o de ninguém. Só ele é que consegue fazer aquilo. Acho admirável.

TOMÁS CARRANCA/ ESCS FM

Humor À Primeira Vista é um podcast sobre comédia feito em parceria com a rádio da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS FM) e pode segui-lo nas redes Facebook e Instagram.

1
1