www.publico.ptpublico@publico.pt - 11 jul 16:52

A estrada é longa

A estrada é longa

Não podemos iludir-nos com a impossibilidade de uma Europa governada ao arrepio dos Direitos Humanos, e é por isso que nos indignámos com o discurso de Maria de Fátima Bonifácio, profundamente racista.

Há imagens que nos magoam e tocam tão intensamente que sabemos, a partir desse momento, que ficarão gravadas na nossa memória e acompanhar-nos-ão, inquietando-nos. Foi no jornal Público (8.7.2019) que olhei demoradamente a imagem legendada “Navio humanitário Alankurdi, Malta”, fixando-me, em dois homens de culturas diferentes, de mãos dadas, um ajoelhado e outro deitado. O rosto de ambos não era visível, mas o gesto fraterno expressava o seu olhar: o de quem salvara, movido pela compaixão, e o de quem fora salvo, na fuga desesperada por uma vida digna, jazendo extenuado e doente.

Perante a tragédia de quem sofre, é instintivo, é espontâneo o gesto humano de proteger, de salvar. Não se colocam dúvidas, o tempo conta, não há lugar para o medo, e a própria consciência (quando existe) força a desobediência se essa situação se impuser. Não há muito tempo (28.05.2018), vimos um jovem do Mali, emigrante ilegal, em França, Mamadou Gassama, salvar corajosamente uma criança de 4 anos que se encontrava pendurada numa varanda. O próprio Gassama confessou que, nesse momento de aflição, fora impelido a avançar pensando exclusivamente em impedir a tragédia que se avizinhava. Num prémio forçado, porque a hipocrisia é mesmo assim, foi-lhe concedida a nacionalidade francesa. Caso o dramático episódio não tivesse ocorrido, Mamadou Gassama continuaria na sua procura desesperada em legalizar-se e poder trabalhar. Subitamente, passou de proscrito a herói, de ilegal a cidadão francês.

Impossível não associar a imagem descrita do migrante, aparentemente salvo, numa situação recorrente, que dura há vários anos, à inércia política e também à bestialidade humana que reinam na Europa, apelidada orgulhosamente de “civilização superior” pelos que receiam o contágio do Outro. Na sua argumentação pretensamente civilizada, e que consideram indiscutível e dogmática, porque seguros do tristemente apelidado “choque de civilizações “, salientam de forma hipócrita a sua pertença a uma “cultura superior”, a uma “cultura milenária que dá pelo nome de Cristandade”, bem como a sua ligação natural aos “Direitos Universais do Homem, decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”. Fascinados pela sua própria ignorância ou conscientes do seu discurso que, discriminando, sem pudor, o Outro, fomenta o populismo, adulteram a mensagem do Cristianismo, bem explícita nos Evangelhos, e o texto enunciador dos “Direitos Universais”. Na sua aversão e no seu desprezo ao e pelo Outro, tecem propositadamente um imbróglio que confunde o incauto e alimenta o racismo, porque é de racismo que se trata. Ouvimo-los, guinchando os seus “Basta”, a sua “Vox”, a sua “Frente Nacionalista” e afins, nas suas diferentes geografias europeias. Em comum, a anti-imigração, e a consequente perseguição a quem desobedecer ao desumanamente decretado, bem como o uso de um vocabulário assaz violento e agressivo que acentua a imperiosa necessidade de “limpeza”, política e étnica, bem à maneira fascista-nazi.

Felizmente, haverá sempre “justos”. Ontem, como Aristides de Sousa Mendes em relação aos que, apavorados, fugiam do Nazismo, na sua grande maioria Judeus (mas também ciganos e outras etnias consideradas inferiores) condenados à morte não só por alemães, mas pelos próprios países europeus que se tornaram cúmplices do Holocausto, ao não autorizarem a entrada de refugiados judeus e ao fingirem igualmente ignorar o que se passava, nos horrendos e indescritíveis campos de concentração, apesar de provas e de testemunhos indiscutíveis, nomeadamente, e entre muitos, os do resistente polaco Jan Karski. Hoje, como o voluntário da imagem, ou como Miguel Duarte, o estudante do Instituto Superior Técnico, que trabalhou a bordo do Iuventa, em missões se salvamento de refugiados no mar Mediterrâneo e agora é por isso mesmo acusado pela Justiça (?) italiana, arriscando uma pena que poderá ir até 20 anos de prisão. Espera-se que o silêncio sobre esta situação possa significar uma estratégia política para melhor defender Miguel Duarte.

É porque não podemos iludir-nos com a impossibilidade de uma Europa governada ao arrepio dos Direitos Humanos, que nos indignámos com o discurso de Maria de Fátima Bonifácio (Podemos? Não, não podemos – Público, 6.7.2019), profundamente racista. A liberdade crítica é um valor, mas que se anula quando transformada em agressão ostensiva contra o Outro, descrito como “incapaz” ou “preguiçoso”, “colorido” ou “inassimilável”. Não é relevante identificar o Outro, é relevante, sim, não tolerar este tipo de discurso num jornal que nos é referência.

Um grande amigo lembrou-me uma bela música, de um grupo “do meu tempo” e do qual muito gostava, Hollies (1969). Deixo-lha, Maria de Fátima Bonifácio: He ain’t heavy he’s my brother.

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