observador.ptMariana Ferreira - 12 jul 00:07

Ensino Superior: por que não concorremos todos em pé de igualdade

Ensino Superior: por que não concorremos todos em pé de igualdade

Queremos poder candidatar-nos ao nosso curso superior favorito, sabendo que estamos a competir com alunos cuja média de ingresso reflita unicamente o seu trabalho, dedicação e capacidades intelectuais

Tendo terminado ainda há poucas semanas o meu percurso no ensino secundário – e com considerável sucesso – pensei fazer um balanço sobre os (vários) aspetos em que o nosso país devia melhorar ao nível da escolaridade obrigatória. E concluí, assim, que um dos principais problemas existentes está na elevadíssima desigualdade de oportunidades, que se reflete aquando das candidaturas ao ensino superior.

Ora, começando pela desigualdade em maior escala, é de notar a discrepância entre as condições de ensino em diferentes partes de um mesmo país. Do litoral para o interior, vamos verificando que, em geral, as escolas são cada vez piores e obtêm piores resultados nos exames nacionais. Notemos que, no Ranking Escolas 2018, regiões interiores como Idanha-a-Nova, Vila Real de Santo António, Nisa e Moura, obtiveram algumas das piores médias nacionais, situando-se abaixo dos 9 valores, enquanto que as regiões litorais estão, de um modo geral, no topo da lista. Para além disso, a regra – que se vem tornando mais apertada de ano para ano – de que um aluno só pode ficar colocado numa escola pública pertencente ao local onde habita, condiciona os jovens residentes em zonas problemáticas a manterem-se durante pelo menos 12 anos em escolas do mesmo tipo (a menos que os pais tomem a opção de os colocar numa escola privada, o que nem sempre lhes é possível).

Em relação a isto, sublinha-se outro nível de desigualdade: a verificada entre as escolas públicas e os colégios. No Ranking de 2018, os primeiros 28 lugares são ocupados por colégios, e as escolas públicas só começam a aparecer com maior frequência a partir da posição nº 50. Por que é que isto acontece? Tendo estudado nos dois tipos de instituição, é, para mim, muito claro: o colégio tem melhores instalações, melhores professores, um melhor ambiente… enfim, melhores condições para se aprender. Será justo, então, que uma família de menos posses económicas seja automaticamente privada de dar aos seus filhos uma educação de tão boa qualidade que lhes permita, um dia, ter mais chances de entrar no curso que desejam do que os restantes?

Para além disso, dentro de uma mesma escola/colégio, há uma enorme diversidade de professores, extremamente diferentes uns dos outros. Os seus testes, maneira de ensinar e até critérios de avaliação parecem ser diferentes. Um aluno com um determinado professor de Português poderá obter uma média interna consideravelmente pior do que um colega de outra turma com as mesmas capacidades e estudo, apenas porque teve o “azar” de calhar com um docente que só dá dezoitos a quem escrever de forma tão eloquente quanto o Camões.

E parece-me que, ultimamente, o Ministério faz para aumentar a desigualdade já verificada na Educação.

A partir do ano letivo que acaba de chegar ao fim, os alunos a entrar para o ensino secundário passaram a incluir obrigatoriamente na sua média de ingresso à faculdade a nota de Educação Física. Como é que isto pode ser considerado justo se as escolas nem sequer dispõem todas dos mesmos espaços e equipamentos desportivos? Se existem algumas escolas onde os alunos são avaliados nos desportos de voleibol, futebol, ginástica de trampolins e até natação, enquanto noutras ficam limitados à avaliação de apenas uma ou duas modalidades porque só têm os meios necessários para essas? Todas as escolas conseguem dar Os Lusíadas, mas nem todas têm uma piscina…

E ainda, com a mais recente proposta de se permitir que os alunos dos cursos técnico-profissionais entrem na faculdade sem serem sujeitos aos exames nacionais… não é lógico que estamos a agravar a desigualdade? Os exames nacionais, enquanto prova externa, eram o único elemento de avaliação que colocava minimamente as notas de candidatura em “pé de igualdade”, e agora propõe-se que alguns – apesar da sua especificidade, que no entanto, foi escolhida pelos próprios no 9º ano – passem a estar isentos de tal.

É urgente uma renovação do sistema de ensino a vários níveis, é urgente olhar e analisar as desigualdades com que nos deparamos, é urgente melhorar a forma de funcionamento da educação, que é a base de uma sociedade. Queremos poder candidatar-nos ao nosso curso superior favorito, sabendo que estamos a competir com alunos cuja média de ingresso reflita apenas e unicamente o seu trabalho, dedicação e capacidades intelectuais.

Estudante

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