www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 11 jul 10:56

A escorregadia “verdade” de Morrissey

A escorregadia “verdade” de Morrissey

Morrissey e Fátima Bonifácio trazem à opinião publicada uma fatia relevante da opinião pública. Gostemos ou não, temos de estar gratos por isso, obrigando-nos a pensar sobre o perigoso ressurgimento do preconceito. - Opinião , Sábado.

«A maior vergonha que passei contigo foi num parque infantil. Estava outra criança a querer brincar no mesmo sítio que tu e fizeste uma birra porque era preta e não querias brincar com ela». Ironia desta descrição da minha mãe (com a pele branca que atrai escaldões): referia-se a mim, filho de cabo-verdiano, numa combinação que me dá este ar miscigenado. Eu convivi na infância quase exclusivamente com o lado materno (era o meu contexto, a minha proximidade, a minha "não estranheza"), sendo certo que a minha família paterna varia entre vários tons de bronze, incluindo aquele com o qual eu não queria brincar.

Por isso, pode ser tentador aderir à aparente verdade fácil que o ex-vocalista dos Smith nos atirou recentemente: «No fundo, todos preferem a sua raça. Será que isso faz com que todos sejam racistas?». Parece óbvio que quem retira consequências económicas, sociais, políticas ou jurídicas dessa preferência está a ser racista. Mas o ponto não é esse. O ponto está no perigo de vir a retirar essas consequências. E esse perigo está lá enquanto o desconforto da diferença de raça (ou de contexto) persistir e até nos impedir de brincar com o outro menino apenas porque é de raça diferente: apenas porque é preto, pelo que que me vai maltratar, apenas porque é branco, pelo que me vai maltratar…

Todos sabemos (e já aflorei isso em mais do que uma crónica) que o medo, enquanto reação ao estranho, é um fenómeno de autopreservação, numa primeira linha, muito útil. Mas isso não significa que ele nos possa paralisar. Eu devo ter medo do leão? Claro! O instinto tem confirmação – o que não significa que eu deva matar o leão sem mais. É prudente eu entrar numa reunião de dez calmeirões loiros com suásticas tatuadas e bandeiras de uma qualquer supremacia branca? Diria que não, embora possam ser dez pretos com um sentido de humor especial e uma caracterização espetacular a gozar o Carnaval.

Mas nada disto dá consistência ao argumento de Morrissey. Insisto: é normal que se estranhe a diferença e temos de esperar reações primárias de repulsa perante o que é diferente, designadamente nalgumas crianças de tenra idade, mas cabe-nos contrariá-la, porque já se sabe que, primeiro, estranha-se, depois, entranha-se. E, para isso, é necessário que as pessoas se habituem a conviver desde cedo, para que tudo seja normal e nada seja estranho. Porque só a estranheza cria rótulos, puramente contextuais, como me chegou a acontecer por causa deste meu tom indefinido – o mesmo rapaz que era chamado de "farrusco" e "monhé" no ciclo preparatório em Leiria veio a saber numa viagem a Cabo Verde que um familiar percebeu que tinha passado na casa dele porque os miúdos da rua lhe tinham anunciado que, nessa manhã, tinha «andado um branco à procura» dele.

E o que preocupa é que a estranheza, ao contrário do que julgávamos no virar do milénio, tende a agravar-se, porque basicamente estamos perdidos. Queremos acolher os imigrantes que fogem da escassez e do conflito, queremos respeitar hábitos e culturas, mas sentimos que a nossa casa, as nossas comunidades são invadidas por estranhezas que não são apenas alegrias coloridas, mas que trazem violência, ou melhor, mais violência do que supomos num mundo monocolor. É irrelevante se as estatísticas o confirmam ou infirmam, ou ainda se são escondidas. O que, infelizmente, ganha peso para muitos é esta sensação de história repetida em que parece sobressair a agressão do estrangeiro, do de outra etnia, contribuindo para uma rejeição crescente, como quem não se aproxima de uma ravina que se espera perigosa, porque coisas más têm acontecido em ravinas, apesar de haver lindas e seguras ravinas, ou da noite escura, porque coisas más acontecem na noite escura, apesar de a noite nos trazer um outro encontro que nos completa.

Assim não nos podemos admirar com o lamentável discurso de Fátima Bonifácio. Ela escreveu o que muitos pensam, mas têm medo de admitir: que há contextos culturais para os quais sentem não haver remédio; que o que esperam estatisticamente é que a estranheza, a diferença, lhes faça mal e que é injusto tirar lugar ao socialmente integrado (uma certa ideia, ainda que contextual, de nossa gente) para alçar a estranheza a um lugar que não merece.

Morrissey e Fátima Bonifácio trazem à opinião publicada uma fatia relevante da opinião pública. Gostemos ou não, temos de estar gratos por isso, obrigando-nos a pensar sobre o perigoso ressurgimento do preconceito, sobretudo porque crónicas como a minha servem para muito pouco. Quem a vai ler muito provavelmente já concorda comigo. Os que não concordam não sentirão vergonha e chamar-me-ão privilegiado hipócrita que saiu da espelunca onde cresceu para dar lições aos outros, pelo que, na verdade, as nossas partilhas de Facebook pouco mudam no dia a dia.

O que verdadeiramente interessa é o que fazemos com aqueles que encontramos na nossa vida pessoal e social. Se formos sempre politicamente corretos, apenas encolhendo os ombros quando certas coisas são ditas e feitas à nossa volta, faremos parte do exército que encherá o Inferno de boas intenções. Se não estivermos disponíveis para nos desiludirmos com os que nos são próximos, para nos zangarmos, para lutarmos pelas nossas posições, para aceitar, de vez em quando, falar à mesa de religião e de política, ainda que passando a fronteira de uma certa regra de boas maneiras ou "paz circunstancial" (que é como quem diz, se não estivermos disponíveis para "estragar a festa"), o preconceito falará mais alto na rua, ainda que a indignação se iluda com a sua ampliação mediática.

(As voltas que a vida deu em 45 anos: o verão de 2019 arrancou com fuba na minha varanda; três irmãs paternas e uma sobrinha tomaram conta da casa do mano caçula com histórias de Angola, de Portugal, da família, do nosso pai, dos namorados ou maridos de vários continentes e cores, deixando esquecida essa memória distante da criança que não sabia brincar.)

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