expresso.ptexpresso.pt - 14 jun 16:38

Uma música “nobre, artística, profunda, romântica, literária.” “Unknown Pleasures”, o primeiro disco dos Joy Division, faz 40 anos

Uma música “nobre, artística, profunda, romântica, literária.” “Unknown Pleasures”, o primeiro disco dos Joy Division, faz 40 anos

É um dos álbuns mais marcantes da história do rock, mesmo que tenha passado despercebido aquando do seu lançamento, em 1979. Falámos com Miguel Esteves Cardoso, que acompanhou em Manchester a carreira da banda – encerrada com a morte de Ian Curtis, em 1980 –, e Manuel Fúria, que se apaixonou pelo disco já em pleno século XXI, ouvindo-o através das colunas de um computador

Os primeiros 30 segundos de “Unknown Pleasures” resumem o som dos Joy Division. A música chama-se “Disorder” e abre com um ritmo quase militar de Stephen Morris, junta-se-lhe o baixo preponderante de Peter Hook, segue-se a guitarra cortante de Bernard Sumner. Pouco antes do meio minuto entra em cena a voz de Ian Curtis, que narra o que parece ser uma história autobiográfica de alienação, com possíveis referências à epilepsia de que sofria. Está lá a reverberação, os sons espaciais introduzidos pelo produtor Martin Hannett. Está lá tudo, em 30 segundos.

“Aquela batida, o baixo e a guitarra a tocarem de uma maneira muito diferente do que se tinha ouvido até então. É incrível”, evoca Manuel Fúria, que atualmente toca com os Náufragos, já foi membro d’Os Golpes e co-fundou a editora (entretanto extinta) Amor Fúria. Antecipadamente convocado pelo Expresso para falar sobre o disco que faz 40 anos este sábado, o músico trouxe a lição estudada e tinha-o ouvido na mesma tarde – isto apesar de, hoje em dia, lhe custar fazê-lo, porque é um disco que “exige muito”.

Manuel Fúria

Manuel Fúria

DR

“Transportou-me imediatamente para outro sítio. Esse início é a abertura de uma cortina para um lugar em que coabitam uma espécie de conforto da vida doméstica, por ser um som familiar, e uma atração pelo precipício e pelo abismo. Sinto que há esse paradoxo, que é mais ou menos permanente nos Joy Division”, reflete.

Há outra contradição latente em “Unknown Pleasures”, que está longe de ser inédita na história da música popular. O lançamento esteve longe de fazer manchetes em Inglaterra e muito menos em Portugal, onde os ecos dos Joy Division apenas chegaram depois da morte do vocalista Ian Curtis, a 18 de maio de 1980. O disco terá vendido cerca de 20.000 cópias nos primeiros seis meses e não entrou sequer na tabela dos 75 discos mais vendidos no Reino Unido nas semanas seguintes à edição.

No entanto, é frequentemente citado por músicos de várias gerações e incluído em tudo o que são listas de álbuns mais importantes de todos os tempos. E o sonho daqueles quatro rapazes da classe operária dos arredores de Manchester era apenas o de lançar um disco – seria o único editado pela banda com Ian Curtis vivo.

“É incrível, tornou-se o mais influente da história”, afirma ao Expresso Miguel Esteves Cardoso (MEC), que em 1979 era estudante de Ciência Política na Universidade de Manchester. Amigo de Tony Wilson (co-fundador da editora Factory, que lançou o disco), viu vários concertos dos Joy Division, falou com Ian Curtis – “mas ele não era de grandes conversas” – e fez parte de uma claque que “detestava a outra música toda”. MEC estava lá, no início do turbilhão que depois se apelidaria de ‘Madchester’ e onde reinaram, durante os anos 1980, bandas como os New Order – composta pelos três membros restantes dos Joy Division, mais Gillian Gilbert – e os Happy Mondays.

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

Ana Baião

“Quando eles aparecem fazem uma rutura, em que se rejeita todo o ‘punk’, os Buzzocks, o Pete Shelley. Não, esta música é que era nobre, artística, profunda, romântica, literária. O Ian Curtis era muito diferente dos outros elementos da banda, tinha profundas preocupações literárias. Era um angustiado, mas uma pessoa com sensibilidade enorme. Era um artista.”

O produtor fez o disco ou o disco fez o produtor?

“Unknown Pleasures” surge numa época de conflitos, fusões e explosões na música moderna. A primeira metade dos anos 1970 foi marcada pelos excessos do rock progressivo, seguiu-se a resposta nua e crua do ‘punk’ e os Joy Division inscrevem-se numa terra de ninguém que também foi terra de tudo e que se chamou ‘pós-punk’. A energia pura e a filosofia “faça você mesmo” do ‘punk’ eram a base mas adicionava-se complexidade, quer musical quer narrativa.

Quem tinha estado em concertos dos Joy Division ou ouvido o EP “An Ideal for Living”, lançado um ano antes de “Unknown Pleasures”, inscrevera com toda a certeza a banda no universo do ‘punk’: o som era agressivo, pouco tratado. Martin Hannett – conhecido por bizarrias como querer gravar o silêncio e pela obsessão com a pureza do som da bateria, que quase levou o percussionista Stephen Morris à loucura – transformou a sonoridade do grupo: reduziu tudo ao essencial, trocou intensidade por espaço, esculpiu os pormenores de um álbum granítico, frio, imponente, e ameaçador, mas também imensamente belo. Há quem lhe chame o álbum de Hannett, mas Miguel Esteves Cardoso discorda.

“Ele apanhou uma banda muito inocente e fez aquilo que lhe apeteceu. Toda a gente diz que é o disco dele, mas não é. Ele fez imensos discos, quase todos eles bastante merdosos, e aquilo são os Joy Division, mas ouvidos por alguém com um bom ouvido. É um casamento feito no céu, um conjunto maravilhoso, antagónico, de uma banda de pequenos génios que encontraram outro génio. E isso deu origem a uma coisa gloriosa”, avalia o escritor e cronista. “O Tony Wilson é que viu que eles eram grandes artistas e disse-lho, não foi o Martin Hannett que o fez”, acrescenta.

O próprio Hannett parece corroborar esta tese. Alguns anos depois (morreu em 1991, com 42 anos, após um continuado abuso do álcool e de drogas), descrevia a banda como caída do céu, porque “não discutia nada”. Com idades entre os 21 e os 23 anos quando gravaram o álbum, ao longo de três fins de semana de abril de 1979, Ian Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris terão ficado surpreendidos e até desagradados com o resultado final. É difícil separar a mitologia da realidade em relação ao que aconteceu há pouco mais de 40 anos, mas uma das frases mais citadas é de Hook, o baixista: “Não consegui esconder a desilusão, soava a Pink Floyd”. Hoje admite que estava errado e que a produção é imaculada.

A bíblia dos urbano-depressivos

Hannett produziu, por exemplo, o primeiro single dos U2, "11 O'Clock Tick Tock", lançado no mês da morte de Curtis. Uma biografia oficial da banda irlandesa revela que o produtor deveria ter ficado encarregue do primeiro disco, “Boy”, mas Hannett estaria demasiado abalado pelo suicídio para se atirar ao trabalho. Os U2 são uma das inúmeras bandas de sucesso que assumem ter recebido uma influência decisiva dos Joy Division. Cure, Radiohead, Smashing Pumpkins e Interpol são outras referências óbvias, mas poderíamos preencher vários parágrafos com mais nomes.

As bandas que encaixam no estereótipo urbano-depressivo dificilmente se libertam da imagem dos Joy Division. “As pessoas gozavam connosco, andávamos sempre de gabardine, mesmo no verão, a olhar para o chão. Era toda uma atitude de melancolia, de não achar graça à vida, de andar sempre de escuro e gostar da chuva. Um dos meus companheiros de casa gostava de Status Quo, outro dos ‘punks’, e ambos diziam que éramos pretensiosos, com a mania que éramos literários”, recorda Miguel Esteves Cardoso.

Manuel Fúria – que nasceu em 1983 – começou a ouvir Joy Division por influência dos irmãos mais velhos, em compilações “gravadas em cassete do ‘Som da Frente’”, mítico programa de rádio da autoria de António Sérgio. Em Portugal, a divulgação do evangelho dos Joy Division deu-se primordialmente por esta via e também através de “Rock em Stock”, outro programa da Rádio Comercial, apresentado por Luís Filipe Barros. No entanto, tal só aconteceu depois da morte de Ian Curtis, num tempo em que comprar discos importados era um luxo acessível a poucos portugueses.

O impacto em Portugal de “Unknown Pleasures” foi por isso limitadíssimo e, tal como em Inglaterra – mas numa escala muito menor –, o fenómeno Joy Division só dispara quando sai “Closer”, o segundo álbum. “Até à morte do Ian Curtis as pessoas que gostavam deles eram uma pequena minoria”, assinala MEC. A verdade é que este é um daqueles discos que nunca morre e, enquanto lê este texto, seguramente alguém de 13, 14 ou 15 anos, em algum canto do mundo, está a apaixonar-se por ele. No caso de Manuel Fúria, depois do contacto através dos irmãos mais velhos, a assimilação foi feita pelas colunas de um computador.

“Quando era adolescente, pelo menos no meu grupo de amigos, ouvir aquele tipo de coisas era meio careta, ouvia-se Offspring ou Prodigy. Ouvia o disco um bocado às escondidas, não era algo de que dissesse que gostava. O verdadeiro confronto com o álbum foi aí por 2001 ou 2002, fiz o ‘download’ pelo Napster. Naquela altura saiu o “24 Hour Party People” [filme de Michael Winterbottom sobre a ascensão e queda da Factory] e de repente, no início do milénio, houve aquele revivalismo ‘punk’ e ‘pós-punk’ e ‘garage’, com Strokes, Interpol, Libertines, Radio 4… Isso foi uma espécie de legitimação para voltar a ouvir Joy Division.” Curiosamente, quer Miguel Esteves Cardoso quer Fúria assumem a preferência por “Closer” face a “Unknown Pleasures” – esta discussão sobre o melhor disco é um dos temas favoritos dos fãs da banda.

Julgar o disco pela capa

O misticismo de “Unknown Pleasures” reside na música, mas também na capa. O trabalho gráfico é da autoria de Peter Saville, que colaborou com vários artistas da Factory, mas a imagem utilizada foi escolhida por Bernard Sumner. Trata-se de um gráfico que regista as pulsações sucessivas do CP1919, a primeira estrela pulsar descoberta a partir de ondas de rádio, da autoria do astrónomo Harold Craft. Saville inverteu as cores – as linhas do gráfico eram originalmente pretas e o fundo branco – e criou uma imagem que ainda hoje é presença assegurada em festivais de música, estampada em t-shirts. O desenho sintetiza a abordagem minimalista do disco, pela sua simplicidade, e ao mesmo tempo antecipa o conflito latente naquelas 10 canções.

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“O Peter Saville levava o tempo que queria, ficavam os discos às vezes à espera meses para serem lançados. Ele também era tratado como um artista, foi o primeiro diretor gráfico tratado como tal. A capa do primeiro disco dos Durutii Column [outra banda da Factory] era feito com lixa”, explica Miguel Esteves Cardoso. Um dos episódios que melhor retrata esta filosofia é o do ‘single’ “Blue Monday”, dos New Order, lançado em 1983: a capa tinha o formato de uma disquete e era tão dispendiosa que, alegadamente, a editora perdia cinco ‘pence’ por cada unidade vendida. Mito? “Eu estava lá, vi o Tony Wilson a chorar. Um disco que vendia tão bem e logo naquele o cabrão tinha feito uma capa incomportável”, lembra.

Na madrugada de 18 de abril de 1980, na véspera da partida para uma digressão nos Estados Unidos que poderia ter aberto muitas portas, Ian Curtis enforcou-se na cozinha de sua casa, onde tinha ficado sozinho devido a desentendimentos com a mulher. Para os outros membros da banda e para quem os rodeava, o grande choque foi olhar para as letras das músicas e perceber que estava ali um pedido de ajuda que ninguém foi capaz de compreender. “Nunca tinha ouvido letras assim. Nós não compreendíamos tudo, mas percebia-se que era importante e grave, era o contrário do ‘punk’. Era uma coisa expressionista, era arte e isso era muito importante na altura”, insiste o escritor nascido em Lisboa, em 1955.

Como forma de celebrar os 40 anos de “Unknown Pleasures” está à venda uma versão limitada em vinil vermelho, com uma capa alternativa com fundo branco, similar à primeira ideia desenvolvida por Saville. Para além disso, serão lançados videoclipes para cada uma das dez faixas do disco. O primeiro vídeo é relativo ao último tema, "I Remember Nothing", da autoria da dupla de realizadores Helgi e Hörður.

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