24.sapo.ptAlexandra Lucas Coelho - 14 jun 08:49

Onde estiver o jornalismo, estará a democracia (ou o que se passa no Brasil, na China, na Rússia)

Onde estiver o jornalismo, estará a democracia (ou o que se passa no Brasil, na China, na Rússia)

Um levante do jornalismo em Junho de 2019, diante do que tantas vezes parece o triunfo sórdido das redes sociais, dos canalhas e dos déspotas....

1. A pergunta que mais me fazem é sobre a diferença entre jornalismo e literatura. Ainda nas últimas semanas lhe respondi várias vezes na Argentina, no Uruguai e em diversos lugares do Brasil (onde estive a lançar um romance, não a fazer jornalismo). Falei mais disso do que previra, sobretudo no Brasil, porque tornou-se uma emergência lembrar o quanto o jornalismo é condição sem-a-qual da democracia. E isso, para mim, implica distinguir aquilo que no jornalismo não se confunde com a literatura, a bem das duas partes, e da democracia. Dito de outro modo, vejo a fronteira entre jornalismo e literatura como própria da democracia, tanto do ponto de vista de um como da outra (sublinho aqui a primeira pessoa do singular porque esta fronteira não é uma regra estabelecida, camaradas meus terão outras visões).

Como a arte, o jornalismo não traz a democracia por si, e frequentemente é exercido com perigos e obstáculos em ditadura, mas não existirá democracia sem ele. Arte e jornalismo, contudo, não só têm velocidades e alcances diferentes, como naturezas distintas. O que vimos esta semana foi de que forma a democracia em risco (Brasil) ou desejada (China, Rússia) resistem através do jornalismo. Como a democracia estará sempre onde estiver o jornalismo: aquilo que aconteceu, e continua a acontecer, só reforça a sua coluna vertebral, o que faz dele uma pedra democrática, intrinsecamente diferente da arte em geral, da literatura em particular.

2.  Então, um ponto sobre a fronteira entre jornalismo e literatura antes de ir ao Brasil, à China, à Rússia. O jornalismo tem regras colectivas, a literatura não, ao contrário: idealmente, inventa as regras de cada vez. O jornalista responde perante um código deontológico, as fontes; um escritor não responde perante ninguém. Para mim, esta é a fronteira: liberdade. Não entre “real” e “ficção”, como sugere o lugar-comum, mas entre ter total liberdade, e não a ter. O jornalista não é inteiramente livre porque tem e deve ter regras, reconhecidas pelos pares. Já o escritor, está e deve estar inteiramente livre. As regras que o jornalista aprende, reconhece e pratica, para as quais é treinado, distinguem-no de quem apenas usa, espalha ou inventa informação. Esse é o garante que o jornalismo traz à democracia. Como a liberdade radical da arte será outra espécie de garante. O jornalista tem um compromisso com um cânone estabelecido. O escritor só tem compromisso com o que escreve. Arte será sempre o anti-cânone. É o cânone que vai atrás da arte, não o contrário. Isso no jornalismo seria o anti-jornalismo. Por isso falo em naturezas diferentes.

Ressalva que talvez não seja demais fazer nestes tempos apressados: quando digo que o jornalista não é, por essência, inteiramente livre refiro-me apenas, claro, ao protocolo básico da profissão. Não a qualquer espécie de pressão, censura ou interferência exterior, por motivos políticos, ou outros. Toda a pressão não-jornalística é inaceitável no jornalismo. As regras do jornalismo são, em si, um instrumento de liberdade. Quanto mais rigoroso, mais imune, mais importante para a democracia.

(E uma nota ainda, que seria de rodapé, sobre a fusão/confusão entre jornalismo e literatura. Quem escreve, escreve com tudo o que é, que foi sendo, naturalmente. Mas, se também for jornalista, não está condenado a escrever jornalismo. O psiquiatra António Lobo Antunes está com certeza nas crónicas e nos romances de António Lobo Antunes, contudo essas crónicas e romances não são psiquiatria. Da mesma forma, um jornalista pode usar na construção do texto recursos da literatura, do cinema, do teatro, muitos o fizeram e bem, mas isso não será arte pela razão já exposta: usa esses recursos só até ao ponto em que não afectem as regras com que está comprometido. Tal como um escritor pode usar recursos do jornalismo num romance, o que não significa que aquilo seja jornalismo, pela razão já exposta: não tem compromisso com regras anteriores.)

3. Esta semana, o site de jornalismo investigativo “The Intercept”, fundado por Glenn Greenwald, ex-jornalista do “Guardian”, Pulitzer entre outros prémios, deu ao Brasil o seu “Watergate”. No caso, quanto aos textos já publicados (porque faltará muito mais), um Morogate. O vazamento de informações provindas de fonte anónima aponta para uma orquestração político-judicial, que terá influenciado a condenação de Lula e a eleição de Bolsonaro. Ou seja, os acontecimentos que partiram dramaticamente o Brasil nos últimos anos.

“The Intercept” não é uma rede social. Usou material de redes sociais, entre outros, e tratou-o jornalisticamente, como Glenn tem procurado explicar a gente que não faz menor ideia, ou faz que não faz, sobre o que é jornalismo. Isso, num país em que as redes sociais foram capturadas pelas fake news mais impensáveis, como se fossem veículos jornalísticos. E perante um sistema que as usou, e manipulou, para moldar a história política. Perante uma grande imprensa com telhados de vidro, em muitos aspectos cúmplice dos desvios à democracia, como foi cúmplice da ditadura.“O Globo”, por exemplo, começou por ignorar o terramoto Morogate/Vaza-Jato, com manchetes a assobiar para ao ar, quando os media mundiais já noticiavam o caso. Patético. E depois partiu para o ataque, concentrando-se no facto, aparentemente espantoso para o “Globo”, de serem vazamentos “ilegais” de uma fonte não revelada (como é evidente), e não no conteúdo tratado e contextualizado pelo “The Intercept”. Mais, atacou o próprio Greenwald. Os sindicatos de jornalistas no Rio de Janeiro como em São Paulo, e também a Federação Nacional dos Jornalistas, vieram em apoio, relembrando o artigo 1º do Código de Ética dos Jornalistas: “O acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse.” E acrescentou: “A série de matérias é resultado de vasta documentação encaminhada por fonte, cujo anonimato é preservado pelo site, mais uma vez respeitando o Código de Ética que, em seu Artigo 8º diz: ��Sempre que considerar correto e necessário, o jornalista resguardará a origem e a identidade de suas fontes de informação.’”

E claro que logo se multiplicaram, reforçadas, as ameaças de morte, para Glenn, como para o seu marido brasileiro, David Miranda, deputado federal que substituiu Jean Wyllys, quando este optou por exilar-se face às ameaças que recebia, como negro, gay, de esquerda.

Em suma, esta semana no Brasil foi um bravo levante do jornalismo diante do que tantas vezes parece o triunfo sórdido das redes sociais, com a sua capacidade infinita de multiplicar a estupidez humana. Como o jornalismo pegou em material trocado através das redes, e fez disso um trabalho transformador. Tal é a força das trevas, que é possível não dar em nada. Mas já vejo muitos ratos aflitos a correrem pela Moro-Bozo-Lândia.

4. As redes permitem coisas boas. Também são adubo para canalhas e déspotas, e o mal espalha-se muito mais rapidamente do que o bem, é da natureza das coisas. Dependem de como as usamos, de sermos menos usados por elas do que as usarmos — ou não. Não estamos condenados a ser reféns.

Na China, o regime atirou-se (ainda mais) às redes para travar a revolta que está a acontecer em Hong Kong, em plena passagem dos trinta anos sobre o massacre de Tiananmen. Além do gás lacrimogéneo, da repressão policial em geral sobre centenas de milhares de pessoas em protesto nas ruas contra a possibilidade de pessoas suspeitas serem extraditadas para a China continental. Mas que bom, entre os relatos sem medo que vi, haver repórteres portugueses, vários com ligação ou residência em Macau.

O oposto disso é o apagamento de Tiananmen, a negação do que se passa em Hong Kong. Ainda aí estamos, na relativização de regimes não-democráticos. Há negadores de genocídios por toda a parte.

Reportagem para cima deles. Como disse a minha camarada Sara Figueiredo Costa, que tem trabalhado na China: protejam só essas cabeças.

5. E na Rússia? Traduzo o que escreveu ontem no Facebook a veteraníssima Masha Gessen, da “New Yorker”: “Pelo menos 513 pessoas foram presas em Moscovo ontem [quarta], por protestarem contra a prisão, devido a acusações montadas, do jornalista Ivan Golunov, e muitos outros que têm sido igualmente perseguidos. O que se mantém entre eles e o poder absoluto do estado russo é a informação.” Masha remete para o seu trabalho na “New Yorker” sobre uma plataforma russa online que documenta perseguições políticas: OVDInfo.org.

Em Abril, a Rússia caiu para 149º lugar, entre 180 países, no índex anual de liberdade de expressão dos Repórteres Sem Fronteiras (Portugal está em 12º, Estados Unidos em 48º, Brasil em 105º, China em 177º).

6. Esta sexta-feira é dia de Greve Geral no Brasil. A ver como corre no actual clima Vaza-Jato. Parte do país continuará a torcer para que Glenn Grennwald seja tramado. Ainda por cima gay, marido de deputado gay, negro e esquerdalha. Esse é o Brasil em que se ancoram os canalhas que capturaram o aparelho judicial e executivo. Mas boa parte do país, e com ele uma parte do mundo, espera pelo próximo capítulo, e não é novela, não. É jornalismo.

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