www.publico.ptpublico.pt - 14 jun 15:05

EUA culpou Irão por ataque a petroleiros – e agora?

EUA culpou Irão por ataque a petroleiros – e agora?

Há boas razões para duvidar que Teerão tenha sido responsável pelo ataque, diz o jornal israelita Ha’aretz. Mas a rápida afirmação de Washington provoca a pergunta: o que vai fazer a seguir?

O Presidente dos EUA, Donald Turmp, e o seu secretário de Estado, Mike Pompeo, foram rápidos em atribuir culpas: não têm dúvidas de que o ataque contra dois petroleiros no Golfo de Omã, na quinta-feira, foi levado a cabo pelo Irão.

A afirmação levou a uma rápida e veemente reposta do Irão, que diz nada ter tido a ver com o ataque. “Estamos encarregados da segurança do Estreito e socorremos a tripulação o mais rápido possível”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Abbas Mousavi. As acusações americanas “são alarmantes”, concluiu.

Vários analistas questionaram a afirmação de Pompeo. Ali Vaez, do Projecto Irão do International Crisis Group, deu vários argumentos, por exemplo: Pompeo disse ter provas mas não as apresentou; considerou que só um actor como Irão teria capacidade para lançar um ataque do género, ignorando vários não estatais; argumentou que o Irão está a concretizar uma ameaça de fechar o estreito, mas a promessa foi de impedir outros países de exportar se o próprio Irão não conseguisse exportar o seu petróleo, o que não é o caso.

Também de Israel vieram dúvidas sobre a responsabilização do Irão: no diário Ha’aretz, Zvi Barel comenta que levar a cabo uma acção destas numa altura em que o Irão está a tentar que Europa. China e Rússia possam de algum modo contrariar a retirada dos EUA do pacto sobre o nuclear (e a imposição de sanções), e dar aos EUA um pretexto para atacar não seria a sua primeira prioridade. E a política do Irão é de neutralizar pretextos para um conflito militar no Golfo, não causa-lo, sublinha o analista de Israel (que é um dos países mais preocupados com um aumento de assertividade do Irão na região).

Possibilidades mais credíveis, para o analista israelita, são movimentos apoiados pelo Irão, agindo de modo independente, por exemplo os houthis no Iémen, que já atingiram alvos na Arábia Saudita. Ou grupos terroristas como a Al-Qaeda ou o Daesh, que também têm presença no Iémen.

Barel acrescenta que “na ausência de informação confirmada e fiável sobre a fonte do incêndio, podemos por agora pôr de lado a possibilidade de uma provocação saudita ou americana que foi aflorada pelo Irão, embora este tipo de coisas já tenha acontecido antes”. Mas nota que “também nos podemos questionar sobre a razão pela qual uma das mais sofisticadas agências de espionagem do mundo estão a ter tanta dificuldade em descobrir quem é que levou mesmo a cabo estes ataques”.

Mas se para os EUA a questão é clara, CNN e New York Times dizem que a óbvia questão seguinte é: se o Irão foi responsável, qual é a resposta? Com o aumento de tensão entre Washington e Teerão, a resposta norte-americana tem variado e não é nada claro o que pensa o Presidente, Donald Trump, embora este tenha assumido uma linha assertiva em relação a Teerão.

Na conservadora estação de televisão Fox, Jim Hanson, que dirige um centro de estudos (acusado de ser anti-muçulmano depois de dizer que um relógio de um aluno muçulmano era “meia bomba"), concluía que “parece que o regime iraniano ou pensa que os EUA não vão agir militarmente, ou quer ver até onde pode ir antes de provocar uma resposta militar”. Qualquer que seja o caso, “estão a meter-se em sarilhos”. Trump deveria considerar uma acção punitiva ou arriscar-se a não ser levado a sério, defendeu.

Numa análise na CNN, o correspondente da Casa Branca Stephen Collinson diz que a decisão de Pompeo “não deixar passar alguns dias antes de uma investigação completa não deixa dúvidas sobre as intenções americanas”.

Em todo o caso, o jornalista sublinha que “não há sinais de que Washington esteja a preparar uma resposta militar aos ataques – é mais provável que os use para fortalecer a sua tese sobre o mau comportamento do Irão”.

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