observador.ptMaria João Marques - 12 jun 07:11

Deixar a gravata em casa

Deixar a gravata em casa

O mundo financeiro perdeu a aura de conservadorismo e confiança – de que os fatos e gravatas, se possível botões de punho e, sempre, sapatos de atacadores ou fivela eram a regra – com a crise de 2008.

É sintomático que estas pequenas (ou não) mudanças sejam notícia. Há poucas semanas fomos informados que os funcionários (homens) do BCP estavam desobrigados de usar gravata no verão. Mais para o início do ano, o Goldman Sachs mudou as regras de vestuário de trabalho (de verão e de inverno) para o tronar mais flexível e menos formal. Donde, esse reduto de conservadorismo que é o setor financeiro começa a dar sinais de que quer ser um tudo nada mais moderno. A ideia é mesmo essa, nos dois casos: apresentarem-se aos clientes como mais atuais, portadores de uma mudança face ao passado.

Fazem bem, por todas as razões. A imagem corporativa de qualquer organização, de que o modo como as pessoas que a representam se vestem faz parte, é uma potente forma de comunicação. Nos gigantes tecnológicos da costa leste americana não se apresentam ao trabalho de t-shirt repescada no chão roupeiro, calças ou calções largos e chinelos esteticamente inqualificáveis só por serem gente pouco dada à beleza formal das coisas. Também é um bradar alto de inconformismo, de espírito rebelde, de inovação, de disrupção face às tecnologias tradicionais. Tudo mais aparente que real (na verdade reproduzem e recriam nas novas fórmulas o mundo que alegadamente querem ultrapassar), mas a mensagem é essa.

O mundo financeiro, hélas, perdeu a aura de conservadorismo e confiança – de que os rígidos fatos e gravatas e, se possível, botões de punho e, sempre, sapatos de atacadores ou fivela eram a transposição sartorial – com a crise de 2008. A irresponsabilidade, a incompetência, a incapacidade de prever as consequências dos produtos financeiros mais alucinados, a tentativa de ganhar dinheiro como se não houvesse amanhã, a inocência negligente na hora de avaliar o risco, a economia mundial em descalabro – bom, quem, depois de tudo isto, acredita em financeiros só porque têm em cima impecáveis fatos risca de giz?

Se há setor a necessitar de uma mudança de visual é o financeiro. Porque, regresso atrás, a forma como quem representa uma organização se veste afeta a imagem da organização.

Ao longo das décadas e dos séculos a roupa de trabalho (e a de lazer, aleluia) tem-se descomplicado. A gravata é um resquício desses tempos complicados. Faz cada vez menos sentido para uma organização, financeira ou de outra índole, ter regras de vestuário rígidas e formais que não se atualizam. Em tempos que se caracterizam por mudança rápida e incessante, não é uma boa mensagem para o exterior a manutenção de códigos cada vez mais anacrónicos. E para o interior o mesmo: Mary Barra, CEO da General Motors (depois da falência), usou o aligeirar de políticas como as regras de vestuário para mudar a cultura da empresa.

Uma benesse acrescida é o conforto dos homens, sobretudo durante o verão, que deixam de derreter debaixo de camisas fechadas com gravatas. É certo que as mulheres têm durante o tempo quente uma vantagem grande sobre os homens, podendo usar vestidos frescos e vaporosos enquanto os seus interlocutores masculinos se desfazem em transpiração, com o cérebro em difícil funcionamento esgotando-se na espinhosa relação com a temperatura ambiente. Mas tal como defendo a eliminação de outras vantagens que não provêm das capacidades próprias e que beneficiam os homens, esta favorável às mulheres também não se deve manter.

Porém, regras de vestuário mais ligeiras para os homens também são benéficas para as mulheres. Por um lado, isentam-nas de vestirem o equivalente feminino dos fatos masculinos. Em vez de conjuntos de saias e casacos, ou calças e casacos, as mulheres podem ser mais inventivas, usar vestidos ou conjugações mais originais que mais lhes agradem.

Por outro lado, com homens espartilhados em fatos e gravatas, geralmente o ar condicionado, em existindo, está no modo mais potente (o mundo é sempre colocado para as necessidades dos homens, como o mais recente livro de Caroline Criado-Perez ilustra até à exaustão), e as mulheres, que têm metabolismo mais lento, têm mais frio. As guerras das temperaturas dos escritórios não são novas, mas a pesquisa sugere até que os escritórios demasiado frios para as necessidades dos metabolismos xx, além de desconfortáveis, são geradores de baixa produtividade nas mulheres, que calham ser mais produtivas em temperaturas mais quentes. Ora menos gravatas levam a menos frio nos escritórios que leva a maior conforto e produtividade das mulheres.

Falei em ar condicionado? Outro argumento favorável ao abandono de gravatas. A poupança de energia que traz um menor uso do ar condicionado é de peso, não só nos custos das empresas como na sustentabilidade ambiental.

Só pontos a favor do abandono quotidiano das gravatas. O business casual é um bom substituto. O que esperam por criar uma hashtag nas redes sociais rezando #freethemaleneck?

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