sol.sapo.ptMaria Eugénia Leitão - 12 jun 14:39

«Deixa-me ser e… deixo-te estar»

«Deixa-me ser e… deixo-te estar»

Esta frase, fotografada em Torres Novas pelo Paulo, diz: «Deixa-me ser e… deixo-te estar». Parece-me, à primeira vista, a regra fundamental para qualquer tipo de relação interpessoal. Há que saber respeitar o espaço do outro, aquilo que quer ser, o que gosta de fazer, para que possamos, também nós, ser respeitados na nossa essência. Só deixando os outros ser é que podemos nós mesmos ser também.

Escreve o autor da frase que se o/a deixarem ser aquilo que pretende, deixará as outras pessoas estarem em paz, não as incomodará porque, assim, depreende-se, sentir-se-á feliz e não precisará de defender os seus direitos, as suas ideologias, as suas crenças. Não precisará de lutar pelas suas ideias, porque estas serão respeitadas.

Podemos interpretar esta frase num sentido mais imediato, o das pessoas que defendem questões de todos conhecidas – como a luta pela igualdade de género, de igualdade racial, de opção religiosa, de opção sexual, de liberdade de expressão, entre outras.

As questões mencionadas (e muitas outras) levam diariamente os seus defensores mais empenhados a travarem lutas com quem não entende que o «reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo».

A expressão consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos de «família humana» é muito interessante porque une aquilo que alguns procuram separar – os humanos. E se nos considerássemos como sendo todos uma mesma família, talvez não tentássemos ostracizar os outros apenas porque têm uma ou outra característica diferente de nós. Sim, eu sou branca. Mas uma mulher negra não tem, tal como eu, dois olhos, duas pernas, dois braços? Sim, eu poderei ser islâmica. Mas não será uma pessoa católica igual a mim, não terá, tal como eu, pai e mãe? Sim, eu poderei ser um homem homossexual. Mas não será ele um ser humano que, tal como eu, trabalha para viver, gosta de estar com os amigos e a família, e se sente bem ao ser reconhecido pelo trabalho que faz? No fundo, tal como dizia o anúncio da Benetton, somos «todos diferentes, todos iguais».

E, apesar de todos sermos diferentes uns dos outros, partilhamos traços comuns, traços de humanidade, e temos, portanto, a mesma dignidade ontológica. Deveria, pois, ser essa mesma humanidade a levar-nos a pensar antes de acusar, a levar-nos a pensar antes de discriminar, a levar-nos a pensar antes sequer de tentarmos dizer ou fazer algo que atente contra a afirmação óbvia, constante do Artigo 1º da referida Declaração, de que «Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade».

Mas, para além das grandes questões mencionadas, que, por vezes, por um exacerbado etnocentrismo, ainda separam as pessoas, há também pequenas (grandes) questões de desrespeito pelos outros. E esta frase pode, igualmente, ser interpretada a um nível muito concreto. Posso não gostar de uma pessoa só porque ela não fala corretamente a mesma língua que eu, ou porque só come doces e fritos, ou porque bebe demasiado (na minha opinião), ou porque tem demasiados namorados (novamente, em minha opinião), ou porque pinta o cabelo de azul, ou porque tem tatuagens. Pergunta Américo Pereira, professor da Universidade Católica, em artigo recente: «Até que ponto a estupidez humana está disposta a ir para se cumprir em autolatria de impotentes desejosos de ser deuses?».

Criticamos demasiado porque nos importamos demais com o exterior, e porque nos arrogamos a superioridade moral para o fazer. Não fazemos um esforço para conhecer os outros e gostar ou não deles por aquilo que aparentam. É óbvio que não gostaremos sempre de todas as pessoas, nem essa tem de ser uma regra. Não temos sequer de gostar dos outros, basta que os respeitemos na sua individualidade e os deixemos ser. Só assim podemos centrar-nos em nós, avaliar aquilo de que gostamos ou não gostamos em nós e procurar fazer o que nos traz felicidade. Deveríamos viver mais a nossa própria vida, em vez de tentarmos roubar a vida dos outros, porque, no fundo, como diz Murakami: «Todos vivemos numa espécie de jaula. Pode ser de ouro e muito bela, mas é a jaula que implica sermos nós mesmos». Vivamos, então, a vida, para não nos acontecer o que descreve o poeta José Miguel Silva: «Os melhores anos da minha vida / passaram comigo ausente». Importa, pois, não só existir, mas, sobretudo, viver.

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