rr.sapo.ptOpinião de Eunice Lourenço - 11 jun 06:16

​Sr. Presidente ouça o João Miguel

​Sr. Presidente ouça o João Miguel

Discurso do presidente das comemorações do 10 de Junho apontou erros e preocupações, mas também apelou a sinais de esperança.

O Presidente da República escreve os seus discursos, sobretudo os que vai fazer em ocasiões solenes e especiais, com muita antecedência. Talvez demasiada antecedência. E talvez por isso o discurso deste 10 de Junho me tenha sabido tão a pouco, tão deslocado de realidade que vivemos, sobretudo porque se seguiu a um discurso de João Miguel Tavares, o presidente das comemorações do Dia de Portugal, que conseguiu muito bem traçar o retrato de uma geração, que é também a minha, do seu percurso social, das suas preocupações e angústias.

João Miguel Tavares, o jornalista e cronista que o Presidente escolheu para presidir às comemorações em Portalegre, fez um discurso em que apelou aos políticos para que “ofereçam um objetivo claro aos portugueses”. Apontou a corrupção como causa da falência do elevador social que parecia estar a funcionar nos anos 80 e 90 e agora não. E tentou apontar um caminho de esperança para o desinteresse dos cidadãos pela política, apelando a “menos exaltação patriótica e mais paixão por cada ser humano”.

Marcelo Rebelo de Sousa, que desde o início do seu mandato tem mostrado uma preocupação muito grande por elevar a auto-estima dos portugueses, tentou mais uma vez fazer isso mesmo, mas soou-me como se estivesse a varrer para debaixo do tapete os problemas e preocupações expressas minutos antes, nomeadamente a corrupção que mina o elevador social e a falta de objetivos claros para o país.

O Presidente, que certamente leu com alguma antecedência o discurso de João Miguel Tavares, optou por se referir a ela como um sinal de diferença, de inconformismo, um sinal de desejo profundo de mudança, justificando assim a sua escolha que foi polémica. Mas foi como que um pai que diz para as visitas lá de casa “não liguem ao miúdo que é novo e ainda acha que é preciso mudar o mundo”.

Claro que o Presidente, no seu discurso, também disse que “não podemos, nem devemos omitir ou pagar os nossos fracassos coletivos” e deu nomes a alguns deles: a emigração, a corrupção, a falência da justiça a exigência de maior seriedade e ética na vida pública. Mas foi uma breve passagem para logo a seguir dizer que somos mais do que os nossos fracassos e erros e embarcar em mais uns parágrafos de exaltação patriótica, em que não faltou uma das frases que mais gosta de dizer: “Quando somos bons, somos os melhores dos melhores.”

Tendo escolhido o interior para este Dia de Portugal, estando a meio de um ano eleitoral, tendo presente o que foi a abstenção nas eleições europeias, esperava mais e melhor do Presidente neste 10 de Junho em que, de facto, o discurso marcante a e a convidar à reflexão foi o do Presidente das comemorações, com João Miguel Tavares a mostrar que é possível apontar erros e problemas, sem deixar de ter esperança.

Não foi a primeira vez e, certamente, não será a última que o discurso do Dia de Portugal não foi o do chefe de Estado, mas o do presidente das comemorações. O problema pode ter sido só de Marcelo ter escrito o discurso com demasia antecedência. Antes isso, do que qualquer incapacidade perceptiva presidencial.

Marcelo Rebelo de Sousa tem condições ótimas – pela popularidade que tem e pela liberdade em relação aos partidos – para fazer mais, fazer diferente, promover mudança de comportamentos, fomentar o gosto pela política, explorar novas formas de promover a participação cívica e democrática. Como o próprio João Miguel Tavares dizia à Renascença, há muito poucas coisas que este Presidente não possa dizer ou fazer.

Será que temos de esperar pelo segundo mandato ou a sua própria realidade social ou o entendimento de si próprio como um homem providencial não lhe permitem as preocupações que João Miguel Tavares expressou e que são as de grande parte dos nascidos depois de 1974, que tantas vezes discordam do que escreve, que não se reveem nas suas posições políticas, mas que se reviram num discurso que, rapidamente, correu as redes sociais e se tornou tema de conversa entre amigos?

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