www.jornaldenegocios.ptIsabel Stilwell - 11 jun 19:50

Os portugueses não acreditam na palavra Não

Os portugueses não acreditam na palavra Não

Os portugueses não acreditam na palavra Não. O que ouvem é sempre um “Sim adiado”. Contornável com paciência e dinheiro. Quanto, não sabem. Nem para quando.

Coitados dos investidores estrangeiros que para aí vêm fazer negócios, com desconhecimento total do que a casa gasta. Não é a falta do domínio da língua que lhes dificulta a compreensão, mas o entendimento do que as palavras realmente significam, e que está muito para lá da definição do dicionário.

Atraídos pela geografia, o clima, a mão de obra barata ou os atrativos fiscais, estes investidores chegam aqui e acreditam que o assunto se resolve com os préstimos de um indígena local, seja ele um advogado de renome ou um tradutor habilitado. Mas mesmo que a criatura seja séria e lhes apresente tudo direitinho em supostamente blindados contratos, carimbados em profusão, será mais difícil explicar aos recém-chegados que nada daquilo é mais do que uma vaga aproximação à realidade. Na prática, nada vai acontecer, nem daquela forma, nem naqueles prazos, nem com aquelas taxas, e a quantidade de imprevistos excederá a previsão mais negra que lhes tenha sido feita. É claro que a aleatoriedade do sistema também lhes permitirá, de quando em vez, uma surpresa agradável, mas na realidade isto é como no Casino, no final o dinheiro fica sempre lá.

Obviamente não possuo predicados para os ajudar a navegar neste labirinto, mas quero alertá-los para que a chave do enigma está, em larga medida, no uso que fazemos das palavras Sim e Não.

Em teoria são palavras simples, de três letrinhas apenas, como a palavra Mãe (lembram-se do livro da 1.ª classe?), e os estrangeiros até as apanham com facilidade, mas na realidade são das mais complexas.

O que deve ser dito a um nórdico é que para os portugueses a palavra Não não existe. Confiam cegamente que um Não é sempre um Sim adiado.

O empresário que pretende trespassar-lhes a empresa, o promotor que lhes quer impingir um quarteirão, ou o agricultor que se propõe exportar os seus produtos, dir-lhe--á que o Não de hoje será certamente um Sim amanhã. Basta que se saiba contornar as questões - e ele sabe sempre! - com inteligência, tempo, paciência e, é claro, dinheiro. O que não acrescentará, obviamente, é quanto de cada um destes ingredientes será necessário para concretizar a receita que se pretende cozinhar.

Vindos de países a preto e branco, num primeiro momento os estrangeiros deixam-se maravilhar por este país a cores, onde não há negócio que não se possa fazer, e as proibições expressas nas leis ou nos sinais de trânsito são, afinal, meramente indicativas. Quando dois anos depois o projeto não foi aprovado, uma qualquer entidade recém-criada bloqueou o processo, o contador não está instalado ou a lei mudou sem aviso, começam a vislumbrar as desvantagens de um país sem Nãos.  

É então altura de lhes explicar que, por aqui, o Sim também pode ser um Não adiado. Ou seja, o Sim que lhes chegou acompanhado de um sorriso largo, um aperto de mão enérgico e um pastel de nata com canela, provavelmente corresponde desde o primeiro minuto a um Não, que o desejo de evitar o confronto cara a cara levou a deixar para mais tarde. Afinal, é tão mais fácil enviar um e-mail com uma recusa por escrito.

O estrangeiro deve, também, precaver-se contra a variante do "Evidentemente que sim!", bramido perante o pedido de que alguém mexa uns cordelinhos, ou solicite a ajuda de um primo. Mesmo que não seja um traficante de influências, o bondoso português não quer desampará-lo, oferecendo-lhe um bem de primeira necessidade: esperança e ilusão. E, entretanto, quem sabe se o assunto não se resolve e a história acaba bem?

Jornalista

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