observador.ptLaurinda Alves - 11 jun 00:14

Esta noite pode ser tarde demais

Esta noite pode ser tarde demais

Morreu-nos e todos fomos obrigados a despedir-nos de quem não nos foi dado tempo absolutamente nenhum para despedidas. Parece que ficou tudo por fazer e quase tudo por dizer. Custa muito.

– Conto contigo para a minha velhice.

Declarou uma amiga a outra amiga, num serão de conversas profundas.

– E eu conto contigo para toda a vida e mais além!

Respondeu a outra, sem hesitar.

Muito novas as duas, guardaram esta frase para sempre. Cheias de cumplicidades e afinidades mantiveram-se fiéis na amizade e na proximidade. Moravam em cidades diferentes, mas visitavam-se, passavam férias e muitos fins de semana na companhia de outros bons amigos, em grupos mais ou menos alargados. Passaram sucessivos anos juntos, viajaram todos para outros países e cidades, viveram experiências únicas e acumularam memórias que guardavam para essa outra vida mais além, que ninguém sabe ao certo como será.

Tinham todo o tempo pela frente. Uma destas duas amigas já tinha um filho, mas a outra ainda não era casada. Apaixonou-se mais tarde e casou muito apaixonada. Nasceram-lhes três filhos quase de seguida. Uma rapariga, um rapaz, uma rapariga. Três filhos que combinam a beleza da mãe e do pai, mas acima de tudo revelam o melhor do amor, do grande amor entre os dois.

Passaram treze anos. Talvez nem tanto. Passou tudo muito rápido, porque a vida é realmente acelerada. Certo dia os filhos adormeceram com a certeza de que a mãe não voltaria nessa noite, nem na outra, nem nas que haveriam de se suceder. Três noites e quatro dias no hospital marcaram um tempo que ninguém esperava, um tempo brutal de sofrimento, atordoamento e incredulidade para todos, menos para os filhos, que começaram por ser poupados aos acontecimentos torrenciais e, desta forma, ainda conseguiram permanecer razoavelmente felizes na sua ignorância. Esperavam simplesmente que a mãe voltasse do hospital.

Não voltou. E, de repente, todos estávamos abraçados uns aos outros a chorar. A nossa querida amiga morreu nova, demasiado nova, bonita, bonitíssima, sem que nenhum de nós lhe pudesse valer. Uma doença galopante, fulminante. Dizem que pode acontecer a qualquer um, mas não sabíamos e não estávamos preparados. Nunca estamos, sobretudo para estas mortes súbitas.

Bem nos podem dizer e repetir que morre cedo quem os deuses amam, que a frase não encontra eco absolutamente nenhum no momento da partida. Tão-pouco faz sentido procurar explicações e, menos ainda, deixar que o pensamento volte incessantemente atrás, ao primeiro momento do primeiro sintoma, para concluirmos que foi poupada a muitos sofrimentos. Foi com certeza. Foi certamente poupada a um grande calvário, a um massacre sem fim, mas isso em nada ajuda os adorados filhos e marido. Nem nos consola a nós, os que a amávamos e a perdemos, os que ficamos para sempre sem ela e, daqui em diante, seremos obrigados a viver sem a sua calorosa presença, sem a sua luz, sem a sua voz, sem o seu conselho.

Tudo o que se diz nestas alturas sabe a amargo. E soa esquisito. A única pergunta que trazemos em nós, mesmo os que creem, é: como é possível a vida terminar assim, sem aviso, sem despedidas, de forma tão abrupta e irreal?

Vida breve. A vida é breve. Passa a correr. Só quando nos sentimos sem pé, a afogar num tsunami de magnitude inabarcável, é que nos damos conta de que o maior mistério é que hoje foi ela que partiu de repente, mas amanhã podemos ser nós. Mesmo estando, como ela estava, cheia de alegria, ânimo, projetos, sonhos e filhos pequenos.

Num instante tudo em nós são lágrimas e memórias. Ainda a temos ali ao nosso lado, mas já não está connosco, entre nós. Dói vê-la tão nova, tão bonita, ali deitada tão quieta. Era alegre e observadora. Via o todo, como os pássaros vêm do alto, mas pensava em profundidade. Ia ao detalhe. Elegante, sempre elegante, era muito original. Ninguém, como ela, combinava cores e pormenores. Podia ditar uma moda. Ou todas as modas. Tinha amigas e amigos de todas as idades que a apreciavam pela sua singularidade. Era muito culta, respondia a muitas questões e tirava-nos dúvidas a todos.

Inimitável, irrepetível, inigualável, tinha critérios afinados e não lhe faltava a coragem para estar em contracorrente. Não pensava como os outros, não agia segundo as expectativas dos outros, não esperava dos outros que a compreendessem sempre. Era genuinamente boa. Verdadeira e livre. Tinha as suas coisas e as suas manias, mas umas e outras davam-lhe graça e faziam dela uma referência, pois acima de tudo era uma pessoa sensível e autêntica, sem poses nem máscaras. Por vezes até sem filtros, com uma franqueza desconcertante.

Amava os seus filhos e o seu marido acima de todas as coisas. Vivia para eles, por eles. Tenho a certeza de que não seria capaz de viver sem eles, e porque esta certeza me atravessou o espírito mais do que uma vez nestes dias, dei comigo a pensar que a sua partida prematura a poupou ao sofrimento das grandes perdas. Não serve de consolo e também não faz muito sentido, mas dou comigo a pensar que não perdeu nenhum daqueles sem os quais não saberia viver. Também a este sofrimento foi poupada.

Se agora escrevo sobre esta querida amiga a quem, tantos como eu, ainda têm o impulso de ligar para conversar, para pedir conselho ou, simplesmente, a ouvir rir e perguntar pelas nossas coisas, é para fazer memória de alguém que me faz uma falta terrível (era uma das minhas melhores amigas), mas também para prestar tributo a todos os bons amigos cuja amizade nos esquecemos de alimentar. São tantas as vezes que trocamos uma visita por um sms ou um abraço por um whatsapp, e são tantas as vezes que adiamos uma conversa para depois, que sinto o irreprimível impulso de escrever para sublinhar que amanhã pode ser tarde demais. Hoje mesmo poderemos ter que nos despedir de alguém com quem contávamos para a nossa velhice.

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