expresso.ptPaulo Pisano - 10 jun 09:30

Fazer da lusofonia um exemplo para o Mundo

Fazer da lusofonia um exemplo para o Mundo

Chico Buarque cantou um dia: “Sei que há léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar”. O poema que evocava a liberdade conquistada em Portugal – por oposição à ditadura que então se vivia no Brasil –, sublinhava também que a distância física de um Oceano entre povos, não submerge a imensidão de elos que nos unem

Podemos divergir nas justificações e nas explicações, mas creio que a conclusão será comum a todas as facções: vivemos hoje numa sociedade mais focada naquilo que nos separa do que naquilo que nos une, e onde o antagonismo e a intolerância se propagam como vírus.

Numa era em que tudo se conjugava para que os muros e barreiras se tornassem memórias históricas, o paradoxo é evidente.

Por um lado, fatores como a galopante evolução tecnológica, a democratização do acesso a trans-portes ou a explosão de canais comunicacionais permitiram-nos o luxo de viver hoje na praça central daquela aldeia global de que McLuhan falava. Olhamos em redor e sentimos, de facto, que o mundo encolheu e que tudo está à distância de um clique ou de uma viagem low cost.

Mas embora estejamos mais próximos e conectados, há sinais evidentes de que essa ligação tem mais de aparente do que de real. Pelo menos no que aos valores humanistas diz respeito, a sensação que grassa é a de que estamos progressivamente a atomizar-nos, a desligar-nos do outro, das suas razões, dos seus pontos de vista.

Conceitos que o final do século XX nos acostumou a ver como minoritários – como a xenofobia, o populismo, o radicalismo, o fanatismo ou o separatismo – voltam hoje a ganhar terreno. Vivemos num mundo global, sim, mas onde a visão de conjunto passou a conceito difuso.

Pergunto-me por isso, muitas vezes: qual o fio condutor que pode voltar a conectar-nos?

Quando me coloco essa questão, a resposta que mais vezes me ecoa na mente cruza dois sentimen-tos: o de pertença e o de partilha. E acredito que o espaço da lusofonia pode ser um palco privilegiado para mostrar ao mundo que esse caminho é possível. Assim o queiramos. E assim consigamos colocar em prática um conjunto de ações de cooperação e de trabalho conjunto com resultados práticos. Em áreas sociais, culturais e económicas, que nos permitam evoluir e crescer como indivíduos, como nações e como espaço de partilha de uma das línguas mais faladas em todo o mundo.

Saí do Brasil profundamente convicto de que iria viver apenas uma pequena aventura de um, dois anos no máximo, e voltar. Isto aconteceu-me há já duas décadas. Depois, apaixonei-me pela experiência nómada.

Nestes 20 anos de vida fora do Brasil já experimentei países e culturas tão diversas como o Chile, Estados Unidos, Singapura, Rússia, França e Reino Unido, fora aqueles que fui conhecendo como turista. E deu-se este peculiar fenómeno de ter crescido em mim uma alma de cidadão do mundo, ao mesmo tempo que me fui sentindo cada vez mais brasileiro e identificado com as raízes históricas do meu povo.

Estar fora de nossa pátria e das nossas referências culturais convida-nos à introspecção e à busca da nossa identidade – a procurar, de alguma forma, aquilo que nos define e que nos distingue.

Temos genericamente os mesmos anseios, medos e paixões. Procuramos o mesmo conforto e bem-estar. Aplicamos o mesmo olhar crítico para os nossos governos e elites. Preocupamo-nos – mas talvez não o suficiente – com o futuro. E buscamos, acima de tudo, um sentido de pertença, de apego e de comunidade.

Depois de muitos anos a dar voltas pelo mundo, vir viver e trabalhar em Portugal significou ao mesmo tempo um ir e um regressar.

“Ir”, porque era, de novo, um país que não o meu, uma nova cultura, que me obrigou a aprender os seus códigos e a moldar-me para me entrosar na comunidade. Mas também “regressar” a uma série de referências, simbolismos, formas de pensar – para bem e para mal – que remetem para tudo aquilo que Portugal espalhou pelos quatro cantos do mundo, quando o sol nunca se punha. A começar por este instrumento tão bonito e precioso, a língua em que escrevo, o português em que o leitor me lê. E que é a casa que milhões de pessoas partilham em tantos países.

. Uma história comum de 500 anos, uma língua partilhada, uma mistura de culturas feita relação de proximidade, num espaço onde cabem países como Angola, Brasil, Mo-çambique, Cabo Verde, Timor, Portugal, Guiné Bissau, São Tomé e Timor Leste.

Ao vir trabalhar para a direção de pessoas da Galp, tive a felicidade de entrar numa empresa com um ADN irrefutavelmente português e com operações em todos estes países (entre os mais de 50 onde tem negócios). E pude comprovar que é possível desenvolver uma estratégia de negócio assente em valores comuns, com projetos desafiantes e pelos quais faça sentido lutar em conjunto, numa lógica de parceria, de solidariedade e de crescimento que a todos beneficia.

Eu não idealizo o mundo corporativo. Como qualquer tribo, organização ou cultura, tem sua luz e as suas sombras. Mas as organizações com um fim claro, uma visão bem articulada, permitem que as pessoas pratiquem a discórdia num contexto que pode ser construtivo, que pode ser mediado e enriquecido e que permite caminhar no sentido da convergência em prol de um bem maior, comum e com o qual todos se identifiquem.

Quando nos associamos a uma empresa brasileira, quando apostamos na formação de jovens quadros em São Tomé, quando desenvolvemos parcerias em Cabo Verde, quando investimos na economia moçambicana, fazemo-lo por projetos que a todos beneficiam, e onde há vontade de fazer juntos, orgulho de pertencer e desejo de crescer. Empresarialmente, profissionalmente e enquanto pessoas, enquadradas em princípios que vão desde os valores culturais lusófonos que partilhamos até ao respeito por pilares tão fundamentais como a paz, a democracia, os direitos humanos, a justiça social e a prosperidade económica.

Neste mundo tão fragmentado, com tanto ruído, ódio e foco negativo nos media ou nas redes sociais, é urgente retomar o primado do sentido de pertença, global e não de facção, e fomentar a capacidade de olhar para a sociedade, e para o outro, de forma holística. A minha experiência de vida mostrou-me que temos na lusofonia, com o tanto que nos une apesar das nossas diferenças, a possibilidade única de lançar essa semente. Vamos fazê-lo?

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