www.publico.ptpublico@publico.pt - 18 mai 01:36

“Quo vadis” obesidade

“Quo vadis” obesidade

São precisos mais nutricionistas no SNS. Todos os estudos e indicadores sustentam essa necessidade. É imperativo que ela se materialize.

Rosa tem 45 anos e, como resultado de longos anos de uma alimentação inadequada e de um modo de vida sedentário, sofre de obesidade mórbida. Há dois anos começou a ter mais cuidados e a perder peso, mas os 15 quilos que perdeu são muito pouco quando comparados com os 150 que a balança ainda regista.

O caminho que lhe apontaram no centro de saúde foi o tratamento cirúrgico e, apesar das dificuldades que encontrou para a marcação da primeira consulta hospitalar e das consultas com as várias especialidades que compõem a equipa multidisciplinar – sem as quais não se desencadeia o processo de inscrição para a cirurgia –, lá conseguiu ser operada.

Mas agora a Rosa encontrou outra dificuldade: ter acesso a uma consulta de nutrição para conseguir a desejada e correta perda de peso e a sua manutenção. No hospital a consulta de nutrição não tem vaga tão cedo e disseram-lhe que no centro de saúde os nutricionistas também são insuficientes.

O tempo passou e, após uma importante perda de peso, a Rosa voltou a recuperar parte do que já tinha perdido. Disseram-lhe que este era um tratamento com elevada eficácia e que lhe proporcionaria mais anos de vida com qualidade, mas para que tal tivesse sucedido, esta mulher precisava do auxílio de um nutricionista.

A Rosa faz parte dos 1,4 milhões de adultos portugueses que estão em situação de obesidade e dos 250 mil que têm obesidade mórbida. Como ela, muitos vivem o “ciclo vicioso” desta doença crónica.

Sabemos que em matéria de obesidade mais vale prevenir do que remediar, o que significa que o caminho para reduzir a prevalência da obesidade será uma aposta forte em medidas de incentivo à adoção de estilos de vida mais saudáveis. Contudo, isto não pode significar a negação do acesso ao tratamento dos portugueses com obesidade.

Em paralelo com as políticas de promoção da alimentação saudável – que têm de avançar com mais ritmo e com mais intensidade –, importa assegurar o acesso aos cuidados de saúde necessários para o tratamento da obesidade, com o intuito de reduzir a prevalência das doenças que lhe estão associadas e garantir uma melhor qualidade de vida dos portugueses.

O tratamento da obesidade é muitas vezes marcado por um forte insucesso, o que tem levado à utilização de novas abordagens terapêuticas. Nesse sentido, é incontornável a necessidade da terapêutica nutricional à luz da mais recente evidência científica. Tal determina a necessidade de mais nutricionistas, quer ao nível hospitalar, quer ao nível dos centros de saúde, onde se faz a intervenção precoce e integrada. Mas é logo aqui que as coisas começam a falhar.

Como é explicitado num recente estudo da Entidade Reguladora de Saúde sobre Cuidados de Saúde Prestados no SNS na Área da Obesidade, “a capacidade de resposta dos cuidados de saúde primários nesta área encontra-se diminuída pela constante carência de nutricionistas nos ACES [Agrupamento de Centros de Saúde]”, mantendo-se a falha após o encaminhamento para cirurgia. O mesmo relatório refere, aliás, que o tratamento da obesidade é a área com a maior taxa de incumprimento dos tempos máximos de resposta garantidos, tanto para a primeira consulta de especialidade como para a cirurgia programada.

A Ordem dos Nutricionistas tem vindo recorrentemente a alertar para a necessidade de o Governo reforçar a presença destes profissionais no SNS, não por uma questão corporativa ou de classe, mas pela saúde dos portugueses. Todos os estudos e indicadores sustentam essa necessidade. É imperativo que ela se materialize.

Hoje, naquele que é o Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade, registemos estes dados: três em cada cinco portugueses tem excesso de peso; um em cada cinco é obeso; e um em cada três é pré-obeso.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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