expresso.ptexpresso.pt - 17 mai 18:53

“Se o Irão fecha o estreito de Ormuz e os EUA respondem com força, o caos no Médio Oriente não se resolverá nem em cem anos”

“Se o Irão fecha o estreito de Ormuz e os EUA respondem com força, o caos no Médio Oriente não se resolverá nem em cem anos”

Donald Trump parece não querer uma guerra com o Irão. As últimas notícias da Casa Branca mostram que são os conselheiros para a Defesa a pressionar por uma abordagem mais dura, e não o Presidente. Certo é que já há ataques reivindicados por aliados do Irão a pelo dois aliados dos EUA. Se o Irão manda fechar Ormuz e Trump responde com guerra, a região pode entrar num conflito nunca visto

A Casa Branca considera que está a lidar com “ameaças específicas e credíveis”, com origem no Irão, dirigidas a cidadãos ou pessoal militar norte-americano residente no Médio Oriente. Jornais por todo o mundo fazem, nas suas manchetes, perguntas do género: "Estamos a caminhar para uma guerra com o Irão?". O secretário de Estado da Defesa dos Estados Unidos, Patrick Shanahan, está tão convencido da veracidade das ameaças que mandou lançar às águas, com as coordenadas do Golfo Pérsico, o porta-aviões USS Abraham Lincoln.

Civis foram aconselhados pelo Departamento de Estado contra qualquer viagem à República Islâmica, excepção feita às que sejam inadiáveis. O pessoal da embaixada no Iraque foi retirado, apenas ficaram os funcionários necessários aos serviços mínimos, por medo de ataques terroristas encomendados pelo Irão a mercenários locais. “Há razões para estarmos mais preocupados desta vez, sem dúvida. O meu verdadeiro medo é que as tensões no relacionamento entre os dois países se agudizem ao ponto de não haver controlo sobre elas. Nesse cenário, é inteiramente possível acreditar que um acidente no Estreito de Ormuz, ou em qualquer outro local, se torne um catalisador de um conflito real”, analisa ao Expresso Richard Nephew, Professor no Centro de Política Energética Global da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade de Columbia.

“Há um alerta máximo, uma tensão elevadíssima no Golfo Pérsico. Estamos para lá da retórica. O mínimo deslize pode criar um conflito e o mínimo deslize neste momento é mais provável porque há um conjunto de milícias que atuam por procuração e que podem levar a situação a resvalar”, acrescenta, por seu lado, o especialista em terrorismo e relações internacionais Felipe Pathé Duarte.

Este é o primeiro perigo acrescido nesta recente escalada. “O Irão não controla todos os agentes que atuam em seu nome ou sob as suas ordens porque não estão a operar no Irão, não estão sob ordens diretas do Estado iraniano”, acrescenta o também professor no Instituto Superior de Ciências e Segurança Interna.

Tudo se precipitou quando os rebeldes Houthi, do Iémen, reivindicaram, esta terça-feira, um ataque com um drone a um oleoduto da Arábia Saudita. Antes disso, no domingo, dia 12 de maio, mais quatro ataques a navios-tanque (dois sauditas, um com bandeira dos Emirados Árabes Unidos e outro norueguês) tinham colocado o Irão nas miras militares dos Estados Unidos e dos seus aliados.

O Iraque, ali ao lado, também está em alerta máximo. Nem durante as piores fases da invasão os Estados Unidos mandaram retirar o pessoal. “Estive lá dezenas de vezes debaixo do fogo dos morteiros. Até no pico da guerra lá tínhamos gente. Se estão a mandar retirar pessoal então deve haver mesmo uma ameaça séria”, disse aos jornalistas o senador republicano Lindsey Graham, uma das vozes irritadas porque o presidente, Donald Trump, não partilha com o Senado nem informações sobre os reais níveis de perigo, nem os planos, se os há, de intervir no Irão.

Mas nesta escalada de acrimónia, que até era previsível caso se tenha em conta a estratégia de pressão total que os Estados Unidos estão a seguir em relação ao Irão, há uma pessoa que parece relutante em envolver-se numa nova guerra: o próprio Trump. Para o bem e para o mal, um dos seus mais fortes ‘slogans’ de campanha foi “America First!” e como o mais importante é continuar a manter a sua base eleitoral satisfeita, enviar jovens norte-americanos para mais uma interminável guerra com inimigos evasivos no meio do deserto não parece a Trump o melhor tópico para se colocar num panfleto com vista à reeleição.

Ao “Washington Post”, fontes da Casa Branca dizem mesmo que Trump está “frustrado” com os conselhos que lhe têm chegado, quase todos no sentido de precipitar os Estados Unidos para um novo conflito. Como sempre, Trump prefere falar com os seus homónimos pessoalmente, sejam eles aliados centenários ou quase-párias aos olhos dos norte-americanos. O Irão cai na última categoria, tal como a Coreia do Norte ou até a Rússia, e não foi por isso que Trump não se sentou com os dois últimos.

No discurso do Estado da Nação, em 2018, Trump parecia um pacifista. Um pacifista egocêntrico mas, ainda assim, um pacifista. “Se eu não tivesse sido eleito Presidente dos Estados Unidos, estaríamos agora, acredito, envolvidos numa guerra com a Coreia do Norte, com potencialmente milhões de pessoas mortas”, disse Trump. Mais recentemente, disse que “eles deviam telefonar-me”, referindo-se ao Irão e abrindo as linhas ao contacto inimigo, mais uma vez. Será que Trump ainda pode ficar na história como o homem que trouxe os maiores inimigos dos Estados Unidos para a mesa das negociações?

“Certamente poderia, mas não acho que vá fazê-lo. Trump pode estar preparado para negociar, mas a sua administração não”, diz Nephew. Além disso, continua o investigador, “os próprios iranianos têm um conjunto completamente diferente de interesses em jogo: para o presidente Rouhani, existe um grande perigo político em negociar com Trump, que impôs uma proibição de viagens aos iranianos e demonstrou que não cumpre os seus compromissos - ficaria mal visto.”

O homem duro de serviço é mesmo John Bolton, principal conselheiro para a Segurança Nacional de Trump, que não esconde os seus ideais conservadores, nem a sua crença na força da força. Num perfil publicado na “New Yorker”, um seu colega da faculdade é citado a dizer que Bolton “é muito favorável ao diálogo e à multilateralidade mas nos seus termos”. Depois de o Irão ter ameaçado voltar a desenvolver armas nucleares, Bolton deu início à operação de susto, aconselhando Trump a enviar navios de guerra para o Golfo. O “New York Times” diz mesmo que os estrategas de Trump já têm 120 mil militares disponíveis para seguirem para o Golfo Pérsico.

Recomeça a corrida ao nuclear?

A 8 de maio, o Irão disse que ia rever os artigos 26 e 36 do acordo de não-proliferação nuclear, assinado pela China, Rússia e UE ainda com Barack Obama na Casa Branca. Esses artigos dizem respeito à proibição de armazenamento de urânio e água pesada, dois componentes essenciais para a construção de capacidade nuclear e que colocariam de novo o Irão na perseguição da energia nuclear para fins militares e não apenas civis, como é agora o caso.

E é aqui que se traça a primeira linha vermelha dos Estados Unidos e dos seus aliados. Ainda toda a gente se lembra de Benjamin Netanyahu, nas Nações Unidas, com um cartaz enorme com o desenho de uma bomba e munido de um marcador vermelho a traçar literalmente a linha que o Irão não poderia ultrapassar, certo? Foi em 2012 mas a linha lá se mantém - tanto para Israel como para a Arábia Saudita, dois aliados dos norte-americanos. “Os Estados Unidos jamais vão permitir que o Irão avance no programa nuclear, por pressão saudita e israelita. Podem fazer um conjunto de acções encobertas, a nível informático, por exemplo, para garantir que isso não acontece mas alguma coisa vão fazer porque a proliferação de armamento nuclear na zona não será permitido por parte dos Estados Unidos”, diz Pathé Duarte.

E o Irão, o que quer ? “O Irão quer uma margem para negociar e quer que a China, a Rússia e a União Europeia continuem a apoiar o acordo e o levantamento das sanções porque este conjunto de países são as únicas tábuas de salvação, económica e política, que o Irão tem para impedir o estrangulamento das sanções económicas”. E que armas tem? “O Irão, se quiser, pode fechar o estreito de Ormuz por onde passa 40% da exportação de petróleo mundial”. Pode. Mas quanto tempo conseguiria aguentar antes de ser bombardeado? “Não muito, mas podia provocar uma desestabilização do Médio Oriente que possivelmente só se resolveria nos próximos cem anos”.

Com a campanha para as europeias em modo turbo, as questões de política internacional têm-se dissolvido em prol de assuntos mais internos, sendo a imigração o único tema que tem, de facto, envolvido toda a UE num debate contínuo.

Mas se uma surpresa colocar o bloco socialista na frente do Parlamento Europeu, será que isso pode representar um novo balão de oxigénio para o acordo com o Irão? “É um cenário a considerar, mas também temos de nos lembrar que há uma relação umbilical da Europa com os Estados Unidos e que o Irão é visto por uma maioria como uma ameaça na zona”, diz Pathé Duarte. Já Nephew considera que não é uma questão de direção ideológica mas, sim, “um teste à questão da solidariedade da Europa como um todo”.

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