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▶ Vídeo: Marisa Matias e Francisco Guerreiro: bom ambiente matinal

▶ Vídeo: Marisa Matias e Francisco Guerreiro: bom ambiente matinal

O JN juntou Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, e Francisco Guerreiro, do PAN - Pessoas-Animais- Natureza. A conversa foi dominada pelas questões ambientais. Pegada foi a palavra-chave.

Marisa Isabel dos Santos Matias
Nasceu em Sé Nova, Coimbra, a 20 de fevereiro de 1976
Doutorada em Sociologia (Universidade de Coimbra) com trabalho na área do ambiente e da saúde pública
Eurodeputada pelo Bloco de Esquerda desde 2009

Francisco Guerreiro
Nasceu em Santiago do Cacém, a 12 de setembro de 1984
Licenciado em Comunicação Social pelo Instituto Politécnico de Coimbra Escola Superior de Educação
Candidato pelo PAN- Pessoas-Animais-Natureza

O encontro foi marcado para as 10 da manhã, na baixa lisboeta. Francisco Guerreiro, que vive em Cascais, chegou ligeiramente atrasado ao pequeno-almoço tardio. Marisa Matias, antes da hora. Não se conheciam pessoalmente. Partilham sobretudo preocupações ambientais e a mesma cidade. Marisa é coimbrã, Francisco cresceu e estudou em Coimbra. Começaram por aí.

Marisa Matias (MM) - Quanto tempo viveste em Coimbra?

Francisco Guerreiro (FG) - Vários anos. Nasci em Santiago do Cacém, fui viver para Linda-a-Velha até a separação dos meus pais. A partir daí, com 10/12 anos, fui com a minha mãe para Coimbra. Ela nasceu lá e ainda lá vive. Gostei muito. Cresci naquela época em que ainda se brincava na rua.

MM: Coimbra é uma terra espetacular para isso. Ninguém tinha telefone e isso não era uma preocupação.

FG: A minha mãe só ficou preocupada uma vez. Passei o dia todo a jogar a bola e cheguei a casa muito tarde.

MM: Eu vivia na aldeia, e aí era diferente. Quando passava da hora a minha mãe começava a berrar pelo meu nome.

FG:Olha que não é só nas aldeias. Quando morava em Linda-a-Velha chamava-se para o lanche pela janela. Foram épocas muito felizes. De muito contacto com a natureza.

MM: Apesar de ter estudado em Coimbra, vivi na aldeia até aos 22 anos. Depois, arrendei casa na cidade. Gostei de viver lá. Ainda hoje acho que Coimbra tem a dimensão ideal para uma cidade. Não é pequena nem grande demais. Falta muita coisa, mas esse é outro debate e outra conversa.

FG: Coimbra acolhe muitos jovens e muitos programas de Erasmus. E isso é muito importante para a cidade e para a ideia de uma Europa mais unida e coesa. Estes programas ajudam a refundar o ideal europeu de solidariedade e conhecimento de outras culturas. Devem ser aprofundados.

MM: Nos últimos tempos, esses programas foram usados para reproduzir algumas das dimensões que a União Europeia tem de pior. O alargamento do programa Erasmus para o primeiro emprego como se fez recentemente, não ajuda à promoção de um emprego com direitos. Nada contra os estágios desde que sejam remunerados, tenham direitos associados e não se eternizem. É um programa bom, põe os jovens em contacto uns com os outros e promove o conhecimento de diferentes culturais - o desconhecimento e o medo levam a formas de pensamento que estão na antítese do respeito pelos direitos humanos e da própria democracia -, mas temo que os desdobramentos desse programa possam cristalizar formas de contratualização erradas. Não tenho nada contra a mobilidade laboral se for justa e voluntária. Se obrigar as pessoas a sair, como aconteceu aqui em Portugal nos anos da troika, não.

FG: Exato. O programa devia reforçar, sobretudo, o auxílio real a quem realmente não tem capacidade para fazer este tipo de programas. Algo que não tem sido feito.

MM: Quando eu ainda poderia usufruir do programa de Erasmus, há muito tempo, as bolsas eram tão baixas que não consegui. A minha família não tinha condições económicas. Hoje em dia as bolsas são mais justas.

FG: Estivemos agora em Beja, e custa ver o olival intensivo. A cultura de regadio é algo irracional na fase de fertilização dos solos.

MM: O Alqueva foi construído também para permitir uma agricultura mais diversificada e em melhores condições.

FG: A Costa Vicentina está cheia de monoculturas de estufas.

MM: Quilómetros e quilómetros de estufas. No Alqueva, quase setenta por cento é monocultura intensiva do olival. Não cria emprego, destrói recursos naturais. E a introdução da colheita noturna está a acabar com comunidades de aves, as árvores onde as aves devem dormir não estão quietas.

FG: Erros de política com muitas implicações na biodiversidade. Por exemplo, a utilização do agrotóxicos é uma das nossas grandes preocupações, até porque Portugal teve oportunidade de votar contra a extensão do glifosato.

MM: Numa comissão de inquérito no parlamento europeu soubemos que os estudos científicos que serviram de base para dizer que o glifosato não representa um perigo foram financiados pela Monsanto, que já não é Monsanto.

FG: É Bayer. Há muita pressão dos lóbis na comissão europeia. As propostas já vêm contaminadas por essa pressão.
MM: Fortíssima. Há nesse campo, um trabalho que é muito importante fazer.

FG: Daí a desconfiança de muitos cidadãos. No PAN lutamos por maior transparência no parlamento e na comissão europeia e nos processos legislativos. Desde logo um registo de lóbis.

MM: No parlamento europeu esse registo existe. Mas não é suficiente. É preciso que seja transparente. É preciso perceber se a legislação que sai é ou não condicionada por lóbis. No próximo mandato, finalmente, passará a ser posta em prática a divulgação dos conteúdos principais das reuniões. Uma proposta que andávamos a apresentar há anos, conjuntamente com deputados de outros países, e que visa mais transparência quanto à pegada do lóbi.

FG: Aí está algo que aproxima os cidadãos. Seja em Bruxelas, seja em Portugal. Sou assessor parlamentar e considero que apesar de ter muita informação, falta ao site do parlamento dados sobre essa pegada legislativa. Porque existe e faz-se sentir.

MM: O facto de não estarmos a avançar quanto seria desejável no combate às alterações climáticas deve-se ao peso dos lóbis, obviamente. Não tenho grandes dúvidas acerca disso. O lóbi das multinacionais, o lóbi industrial, o dos produtores da agricultura intensiva, o dos produtores e transportadores que vivem à custa dos combustíveis fósseis.

FG: Mas lá esta, não é um combate fácil. Quando grande parte das políticas decorre da vontade das grandes famílias políticas europeias é muito difícil a grupos com menos expressão imporem os pontos de vista.

MM: E difícil, mas não impossível.

FG: Se não fosse não estaríamos aqui.

MM: Na questão das alterações climáticas acho que concordamos: é a questão urgente. Para resolver tudo.

FG: É o motor.

MM: Para a reconversão da economia, para a criação de pleno emprego, para os problemas sociais. E até para combater os populismos porque uma economia reorientada para o combate das alterações climáticas ajuda a que haja menos desigualdades entre os países, e dentro dos países.

FG: E assim podemos enfraquecer os movimentos nacionalistas, sempre com visões muito redutoras na resolução dos problemas. O combate às alterações climáticas pode ser esse motor. Traz esperança às pessoas. Aproxima os cidadãos das decisões da UE. Por isso, apostamos muito na descentralização da produção da energia renovável, fundamental para trazer mais e mais pessoas para este combate. É um incentivo à participação cívica.

MM: A meta europeia é 35 por cento da energia renovável. Não chega. Tem de ser de 100 por cento. A orientação tem de ter em vista um plano de investimentos em que no final se obtenha 100 por cento de energia renovável.

FG: Temos de compensar os danos que outros blocos estão a fazer, nomeadamente a China, mas não só. A subida ao poder de Trump e Bolsonaro provocam um retrocesso total nas políticas ambientais.

FG: O setor agropecuário pode ser também catalisador de uma grande mudança. Sabemos que há corporações que tem um grande impacto nas nossas escolhas, mas podemos ganhar-lhes terreno. Prova disso é a adesão que sentimos quando alertamos para o impacto da agropecuária e dos nossos estilos nutricionais no ambiente. As pessoas sentem cada vez mais a importância da ação individual. E que todas somadas condicionam e muito as opções do mercado. É preciso esclarecer. A maior parte das pessoas desconhece que a soja plantada, nomeadamente na Amazónia, é direcionada para gado, e que o gado tem uma pegada hídrica e carbónica extensíssima.

MM: A redução do consumo de carne é fundamental para o combate as alterações climáticas.

FG: Temos de ter o cuidado de alinhar as políticas públicas para este setor. Infelizmente, tanto à esquerda quanto à direita, quando toca a financiamento destas indústrias o apoio tem sido total.

MM: Não vamos pôr aí a esquerda toda.

FG: Vamos, vamos. Na crise da suinocultura e na dos lacticínios foram passados um cheque em branco aos respetivos setores. Dá esquerda á direita.

MM: Temos apresentado propostas no sentido contrário.

FG: Tem apresentado algumas propostas apenas em relação a algumas partes da produção pecuária, a mais intensiva. Não chega.

MM: Vamos ver. Não defendemos, nem nunca defenderemos, a mudança radical para outro modelo, a destruição total do que existe e deixar muitas pessoas na miséria.

FG: Nem vocês nem nós. Precisamos é claro de um processo de transição.

MM: Gostava de fazer-te uma pergunta: porque é que apresentaram a proposta dos vistos verdes (de residência)?

FG: Porque não temos nenhum preconceito contra o capital.

MM: Ah, é essa então a nossa diferença.

FG: Nem contra o setor privado. É importante que se invista em projetos ecológicos de longa duração. Nesta fase de transição, não podemos afastar esse investimento. Desde que haja, naturalmente, uma fiscalização muito eficaz. Não estamos a falar de comprar cidadania, como nos vistos Gold.

MM: Então estamos a falar de quê?

FG: De investimento no país.

MM: E o que é que os investidores recebem em troca?

FG: Um visto pontual de residência.

MM: Olha, os refugiados climáticos não têm essa opção. Esses ficam a morrer no Mediterrâneo.

FG: Marisa, uma situação não condiciona a outra.

MM: Há uma hipocrisia enorme, que eu sinceramente... estes instrumentos são porta aberta para financiamento do pior que existe. Do terrorismo, do armamento.

FG: São processos a repensar.

MM: A única maneira de os repensar é acabar com eles. É preciso atrair capital estrangeiro e investimento? Com certeza. Mas este esquema dos vistos, não. Fiquei surpreendida com a vossa proposta. O esquema não passa a ser bom só porque se trata de clima ou de questões ambientais. Associar investimento a residência provoca-me urticária.

MM: O esquema pode ser melhorado e a fiscalização reforçada. Temos tido esse cuidado. Em processo de especialidade estamos a tentar alinhar e reforçar a transparência.

MM: Não comes nenhum lacticínio de origem animal?

FG: Zero. Desde que vi, há uns dez anos, um documentário sobre produção industrial e abate de animais entendi que tinha a obrigação de fazer o meu caminho. Se tiveres oportunidade vê um desses documentários. A realidade é muito violenta.

MM: Já vi vários. São uma coisa assustadora.

FG: Fiquei muito impressionado. Decidi que tinha de fazer diferença e ter um impacto positivo.

MM: Não bebo leite, mas como queijo. Não sou vegetariana.

FG: Na comunidade vegan há pessoas que apontam o dedo, reconheço e não gosto. Sou contra a ostracização e a favor da inclusão. Devemos informar com honestidade intelectual e cada um que decida.

MM: A proteção do ambiente exige de facto a redução do consumo de carne. Não temos outro planeta, só temos este.

FG: As idas para Marte são muito bonitas, mas...

MM: Sim, parece não estarem a funcionar. E ainda que viessem não seriam para todos.

FG: O costume. A maioria ficaria excluída do processo.

MM: Se houvesse essa possibilidade seria para 1% da população.

MM: Nasci num contexto em que comia os animais que se reproduziam, mas em condições. E os vegetais e as frutas. Havia a época das favas, do feijão, dos vários tipos de batata. Sou defensora dessa sazonalidade. Queremos abóboras e não há? Paciência.

FG: A nível tecnológico há alguns processos que podem ser condicionados, mas a massificação continua a ser muita e não é bom. É como o conceito de fruta feia. Esteticamente menos bonita, mas a sua utilização é muito importante até para combater o desperdício na Europa. Que é um absurdo.

MM: Comida desperdiçada quando 125 milhões de pessoas vivem na pobreza, ou no limiar da pobreza.

FG: O investimento nas políticas públicas, nomeadamente agrícolas, tem fundamentado a massificação e a pegada quilométrica, constituindo obstáculos aos processos normais de sazonalidade. Há também um trabalho a fazer junto dos mais novos, de maneira a perceberem o impacto de certo tipo de consumo tem na pegada hídrica e carbónica. Estou absolutamente convencido de que se a pessoas souberem e foram informadas de determinados impactos farão tendencialmente melhores escolhas. Não esquecendo que há condicionantes económica e sociais.

MM: Foste pai recentemente.

FG: Há dois meses. A mais velha tem onze anos.

MM: Deve estar supercontente.

FG: Está, até porque temos dividido muito as atenções. Queremos que sinta que nesse aspeto nada mudou.

MM: Na idade dela já entende bem.

FG: É uma miúda perspicaz, mas era filha única. Com uma irmã vai desde logo aprender a partilhar.

MM: E na escola, é ativista das questões ambientais?FG- É vegan, por decisão própria. Sempre lhe dissemos que só seria se quisesse e quando quisesse. De resto, fora de casa consumia o que queria. Mas preferiu sempre a comida da mãe. Eu bem tento cozinhar, nunca consigo.

MM: Adoro cozinhar. Um copo de bom vinho, boa música. Limpa a cabeça e alivia a pressão.

FG: Um escape, sobretudo em campanha. Isto é muito desgastante. E tem impacto familiar.

MM: Eu sei. Estou sozinha em Bruxelas. São 28 países, 500 milhões de pessoas, centenas de dossiers. É uma violência. Para quem está a dar a cara e para toda a equipa.

FG: Vejo isso como assessor no parlamento. As pessoas não têm noção do trabalho que dá o trabalho parlamentar. Em recolha de informação, em reuniões. Custa-me quando dizem que os políticos são todos iguais.

MM: Essa das coisas que desvaloriza a democracia. E a enfraquece.

FG: Há uma tendência para tomar os maus exemplos como norma.

MM: Não há partidos perfeitos. Nenhum partido é perfeito nem o meu nem o teu. Mas, caramba, há partidos com projetos muitos diferentes.

FG: Há uns menos perfeitos que outros. E isso vê-se na própria prática. Em algumas obras ou portas giratórias que utilizam. As pessoas devem votar também a pensar nisso. Não se agarrem só à bandeira. Não digam "sou deste partido porque sim". Isto não é uma coisa clubística. Pensem se não há opção mais próxima daquilo que idealizam e defendem.

MM: Custa-me ver essa resignação, por vezes em pessoas da minha família. Tive muitas conversas destas com o meu avô. Sendo do PSD reconhecia que era afetado por aquelas políticas. Mas na hora de votar votava no partido mesmo sabendo que não era bom para ele. Como se fosse pecado não o fazer. Temos de nos libertar dessas amarras.

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