visao.sapo.ptRicardo Araújo Pereira - 17 mai 08:10

Ora b*las

Ora b*las

Das duas, uma: ou nos estamos, de facto, borrifando para tudo, e falamos desbragadamente, ou mantemos alguma da nossa velha postura tensa, e pomo-nos com estrat*gemas ridícul*s p*ra evit*r choc*r pess*as s*nsíveis

Ilustração: João Fazenda

Quando, ao passar numa livraria, constatei que, no top de vendas, se encontravam as obras A Arte de Dizer Que Se F*da, Não Te F*das, e Desenmerda_te Mindset, pareceu-me que este súbito interesse do público português era merecedor de reflexão. Em princípio, sou favorável a que nós, enquanto povo, abandonemos a nossa conhecida obsessão pelo rigor e adoptemos um estilo mais descontraído e despreocupado. Julgo que nos fazia bem espairecer um bocadinho. Ter sempre tudo pronto a tempo e horas, cumprindo prazos e orçamentos, tem as suas vantagens, mas também cansa – e até deve fazer mal à saúde. O problema é que essa nova atitude, esse “estou-me cagandismo” à moda de Alfred Jarry, que eu saúdo, parece ainda reticente, circunstância que os títulos dos livros parecem testemunhar. . Abraçar as duas disposições ao mesmo tempo é que não faz sentido.

Mesmo o autor de Desenmerda_te Mindset parece entrar a medo na nova era de leveza e irreverência. Por um lado, é indiscutivelmente moderno, na medida em que inova com a hifenização rente à linha, em lugar da velha e aborrecida colocação do hífen a meio, e opta por não fazer cedências paternalistas à sensibilidade alheia, recusando escrever m*rda. Além disso, avança para o contemporâneo “Mindset”, muito melhor do que a nossa antiga e ultrapassada “atitude”. Por outro lado, opta pelo verbo “desenmerdar”, com n, que nenhum dicionário contempla. O da Porto Editora grafa, como seria de esperar, “desemerdar”, como útil e esperançoso antónimo de “emerdar”. Ora, se é verdade que o autor de Desenmerda_te Mindset ganha pontos pelo neologismo, não é menos verdadeiro que acaba por desiludir, na medida em que “desenmerdar” não é, nem pode ser, livrar-se de “merdas”, mas sim de “nmerdas”. Isso sugere, como é evidente, que devemos apenas reagir contra “nmerdas” – que são, em princípio, um número indeterminado mas necessariamente vasto de merdas (“Tens feito n merdas desde que chegaste aqui ao departamento, ó Ildefonso”) – e não simplesmente contra merdas. Ou seja, o autor incentiva à rebelião, mas apenas quando a situação se tornar mesmo insuportável. Assim não, f*da-se.

(Crónica publicada na VISÃO 1366 de 9 de maio de 2019)

ASSINE AQUI E GANHE UM SACO. Ao assinar está a apoiar o jornalismo independente e de qualidade – essencial para a defesa dos valores democráticos em Portugal
1
1