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Número dois do Governo austríaco filmado a oferecer contratos a troco de financiamento partidário russo

Número dois do Governo austríaco filmado a oferecer contratos a troco de financiamento partidário russo

Heinz-Christian Strache, líder do partido da extrema-direita FPÖ, foi gravado a prometer adjudicar contratos públicos inflacionados a uma suposta milionária russa, a troco de apoio financeiro e mediático ao partido. Vice-chanceler austríaco confirmo

Heinz-Christian Strache, vice-chanceler austríaco e líder do Partido da Liberdade (FPÖ, extrema-direita), foi filmado a prometer a adjudicação de contratos públicos inflacionados a uma suposta milionária russa, a troco de apoio financeiro e mediático à sua formação política.

Os vídeos revelados pela revista alemã Der Spiegel e pelo diário germânico Süddeutsche Zeitung remontam a Julho de 2017 — três meses antes das eleições legislativas austríacas — e mostram um encontro numa moradia de luxo em Ibiza, Espanha. Estiveram neste encontro Strache, número dois do Governo austríaco; o colega de partido Johann Gudenus — à altura vereador da Câmara de Viena — e Tajana, mulher de Gudenus.

O trio encontrou-se com uma mulher que lhes tinha sido apresentada como Alyona Makarova, supostamente sobrinha do oligarca russo Igor Makarov, um empresário próximo do presidente Vladimir Putin. A mulher estava acompanhada por um interprete.

Makarova revelava-se interessada em investir centenas de milhões de euros na Áustria e procurava oportunidades de investimento em colaboração com o FPÖ. A suposta investidora tinha um plano: adquirir 50% do tablóide austríaco Kronen Zeitung, o jornal mais vendido na Áustria, e usá-lo como órgão de apoio ao partido de extrema-direita. Por várias vezes, o interprete que acompanhava Alyona deixou claro que a origem da fortuna da russa “não era inteiramente legal”, e que os acordos seriam “desafiantes” do ponto de vista jurídico.

Apesar destes avisos, os políticos austríacos não recuaram. Em troca deste apoio mediático, o vice-chanceler da Áustria prometeu adjudicar contratos públicos — com valores inflacionados — a qualquer empresa criada pela investidora russa​. Sugeriram ainda a atribuição de donativos a uma associação ligada ao partido, afirmando que seria uma prática habitual entre milionários austríacos — apesar de poder constituir um acto de financiamento partidário ilegal. E Strache mostrou-se particularmente entusiasmado com a possibilidade de o maior jornal austríaco poder ser controlado por um aliado, afirmando mesmo querer construir no país “um panorama de imprensa como o de [Viktor] Orbán” na Hungria. O encontro em Ibiza durou mais de seis horas, registadas na íntegra.

Contactados pela Der Spiegel e pelo Süddeutsche Zeitung, os homens admitiram, via Whatsapp, que o encontro registado em vídeo tinha mesmo acontecido — garantindo, porém, que o partido “não recebeu quaisquer benefícios destas pessoas”. O Süddeutsche Zeitung escreve ainda que os homens disseram que “muito álcool tinha sido consumido à medida que a noite avançou”, que existia “uma grande barreira linguística” e que não havia “nenhum intérprete profissional”.

Ao que foi apurado por ambos os órgãos de comunicação social, a mulher apresentada como Alyona Makarova não tem na verdade qualquer relacionamento familiar com o oligarca russo Igor Makarov. A publicações germânicas concluem que a reunião terá sido encenada por alguém que quis testar a receptividade do partido em aceitar propostas menos lícitas — e que tiveram, neste encontro, resposta positiva de Strache.

O Partido Popular Austríaco (ÖVP, conservador) de Sebastian Kurz, que foi o mais votado nas últimas eleições legislativas, assinou um acordo de Governo com o FPÖ que permitiu construir uma coligação de direita entre os dois partidos, que obtiveram 31,5% e 20% dos votos, respectivamente. A relação entre Kurz e Strache era já tensa e, esta noite de sexta-feira, a imprensa austríaca dava como provável o fim da coligação.

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