blitz.ptLuís Guerra - 17 mai 12:41

Os lesados do GoT: quando o sofá é o trono

Os lesados do GoT: quando o sofá é o trono

Quase 1 milhão de fãs de “A Guerra dos Tronos” deseja que a última temporada da série que seguiu fielmente durante oito anos seja reescrita e tenha um final que “faça sentido”. Pediríamos aos Radiohead que emendassem os seus álbuns mais difíceis?

A última temporada de "A Guerra dos Tronos", uma das séries mais amadas e mais discutidas desta década, está prestes a acabar. Contudo, em vez de vénias por tanta carnificina bruta ao longo de oito anos, os fãs estão confusos com as opções dos argumentistas.

Numa era em que se classifica com estrelas a polidez de quem nos leva comida a casa à beira da meia noite, os 'rates' do Rotten Tomatoes valem mais do que o livre-arbítrio ou a dica de um amigo. 58%? Não presta, não quero saber, estou revoltado, estou verdadeiramente indignado, vou dar-me ao enormíssimo trabalho de lançar uma petição. A contestação é roçar o dedo para cima e para baixo num ecrã partido de smartphone, de preferência num trono chaise longue do Ikea.

Pediríamos aos Radiohead que reescrevessem os seus álbuns mais difíceis? Que "The King of the Limbs" acabasse com uma nova versão de 'Karma Police'? Que Tom Waits voltasse a fazer baladas ao piano e tomasse uma pastilha para a garganta?

Perante estes casos doentios de possessividade 2.0 ocorrem-me dois episódios da pré-história, quando tudo era au ralenti e entre uma reclamação e o despacho havia uma burocracia morosa que - remédio santo - nos dava tempo para pensar. Um deles é uma letra de música, a de 'Don't Look Back In Anger' dos muito 'baixa-cultura' Oasis: "Please don't put your life in the hands / Of a rock and roll band / Who'll throw it all away". Não se deixem enganar, é psicologia invertida! Nada nos dará mais prazer, nada será tão natural como deixarmo-nos nas mãos do artista, de quem nos enfeitiça, de quem nos arrebata pela arte (seja ela rock and roll ou escrita para televisão).

O outro, vindo da pré-história, deixou descendência. É o eterno patego que, alternando o olhar entre o quadro de Pollock e o bilhete de 10 euros, vai exclamar do alto da cátedra da 'universidade da vida': "até eu fazia melhor".

Então faz, caramba.

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