visao.sapo.ptMafalda Anjos - 16 mai 09:57

Tá-se bem, babe!

Tá-se bem, babe!

Berardo fez apenas o que o deixaram fazer. Mais grave: fez o que o incentivaram a fazer

Antigamente, os bobos da corte, também chamados de bufos, serviam para entreter o rei e a rainha e fazê-los rir. Eram esses bobos da corte os únicos que podiam dizer tudo e criticar os monarcas sem correr riscos. Entre um “babe” e outro, a expressão com que se dirigia mesmo a quem tinha acabado de conhecer, Joe . Durante anos, Berardo foi um peão para jogadas de bastidores dos poderosos, algumas movidas por dirigentes socialistas. Ainda agora Berardo confirmou no Parlamento que foi a própria CGD, dirigida pela dupla socialista Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, que lhe propôs a operação de compra de ações do BCP, dispensando-o de um aval pessoal, de forma a que este se tornasse parte ativa num golpe para afastar Jardim Gonçalves. Tal como foi José Sócrates que deu ordens à Caixa Geral de Depósitos para votar contra na OPA da Sonae à Portugal Telecom, e financiou Berardo para este se opor à operação de aquisição por parte de Belmiro de Azevedo.

Berardo está nas bocas do povo só porque é visto como o bobo da corte. Já de Carlos Santos Ferreira, ex-presidente da CGD e, depois, do BCP e um dos principais responsáveis pelo descalabro financeiro do banco ao conceder centenas de milhões de créditos especulativos, de favor ou orientados politicamente, poucos se lembram. Quantos o reconhecem na rua? Mas é ele quem saiu mais chamuscado da detalhada auditoria da Ernst & Young às contas do banco público entre 2000 e 2015. Um relatório que Santos Ferreira critica, numa desfaçatez ao nível de Berardo, dizendo que é “factualmente infeliz, pouco cuidado e pouco profissional”. É bom de ver que ele é exemplo acabado de cuidado e profissionalismo, basta olhar para o desfecho dos créditos que o seu banco aprovou à margem de tudo o que deviam ser as boas práticas bancárias.

Mas é preciso perceber que grande parte da banca comeu do mesmo prato e tem, também, telhados de vidro e culpas no cartório. Basta ver que as administrações do Banco de Portugal, da Associação Portuguesa de Bancos e dos três maiores bancos a operarem em Portugal, como bem notava o Público há uns meses, são presididas ou integram executivos que estiveram na CGD e no BCP em equipas lideradas por Carlos Santos Ferreira.

Só mais um pequeno detalhe nesta dança de cadeiras sintomática. André Luiz Gomes, o advogado de Berardo que foi coprotagonista na comissão de inquérito, pertenceu também ao conselho de administração do Millennium BCP entre 2012 e 2017, e foi ainda vogal da Comissão de Governo Societário, Ética e Deontologia e da Comissão de Avaliação de Risco desse mesmo banco.

Isto está tudo ligado. Relax... tá-se bem, babe!

(Editorial publicado na VISÃO 1367 de 16 de maio)

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