sol.sapo.ptMaria Eugénia Leitão - 15 mai 10:23

«Hoje é um bom dia!»

«Hoje é um bom dia!»

Todos os dias deveríamos dizer esta frase, porque todos os dias são dias bons, dias em que podemos ser mais ou melhores, dias em que podemos começar de novo, em que podemos comprometer-nos connosco mesmos, com os outros e com a própria vida.

Esta frase surgiu no caminho da Vanda, na Vila do Gerês, e diz «Hoje é um bom dia!». Graficamente é muito semelhante a outra frase já publicada, fotografada em Lisboa, que dizia «Hoje dá mais». Depreende-se, portanto, que o seu autor – individual ou coletivo – é o mesmo.

Mesmo quando a vida não corre como planeámos ou como gostaríamos, cada dia é um bom dia, porque é um dia mais que nos é dado viver, um dia mais em que podemos estar com aqueles que amamos, em que podemos fazer aquilo de que gostamos. E, se os nossos planos não resultarem como gostaríamos, então estaremos a descobrir a beleza da vida, que sempre nos surpreende, tanto de forma positiva como negativa. Há, pois, que viver tudo o que nos acontece, mesmo que não o desejássemos, porque a vida não é um plano traçado rumo à felicidade, a vida é exatamente a soma de todos os momentos em que estamos vivos, e há-que saber reconhecê-lo, aceitá-lo e, no fundo, vivê-lo.

Diz Tolentino Mendonça, numa reflexão muito lúcida: «Tornamo-nos mais infelizes a partir do momento em que erguemos a felicidade como idealização que absorve o nosso imaginário e ainda não percebemos até que ponto esse conceito abstrato se tornou uma armadilha que nos aprisiona no seu inverso». Por muito que nos custe reconhecer, é exatamente isto que nos acontece. Elevamos a felicidade, em abstrato e como ideal imaginado, a estandarte da vida e procuramos medir o que fazemos, e o que nos acontece, com esse sonho, pelo que nunca nada é comparável a essa felicidade imaginada. Daí resulta que a vida acaba por ser pequena demais para a nossa idealização. É quase como uma camisola que, ao vesti-la, percebemos que é um tamanho abaixo do nosso – serve-nos, mas fica apertada, fica curta nas mangas, causa-nos uma certa sensação de desconforto. E é assim que nos sentimos, muitas vezes, na vida. Sentimos que há sempre algo em falta, que não estamos suficientemente satisfeitos, preenchidos ou realizados. Há sempre algo a menos – aquele pedacinho de manga que cobre parte das mãos e nos deixa com uma sensação de conforto.

E o problema é exatamente aquele que Tolentino Mendonça identifica – uma idealização sem raízes na realidade. E acrescenta: «Em vez de felicidade deveríamos falar mais de alegria. A alegria tem raízes no quotidiano; mesmo quando nos surpreende, emerge de um itinerário existencial que podemos reconstruir; sabemos o que seja e como se alcança. Deveríamos falar mais de leveza, essa qualidade dos que permitem à vida manter um élan, uma espécie de transparência e gratidão, ligados não ao que a vida foi ou ao que poderia ter sido, mas ao indizível milagre que ela, a cada instante, é. (…) O que nos faz felizes tem de ser uma experiência infinitamente mais humilde do que o standard fantasioso requerido pela ideologia da felicidade».

Há, pois, que encarar a vida numa outra perspetiva. Como diz Jorge de Sena: «Deixai que a vida sobre vós repouse / qual como só de vós é consentida». Em vez de, constantemente, a compararmos a um ideal, seria bom que a aceitássemos tal como é e usufruíssemos de todas as coisas boas que nos reserva e, do mesmo modo, vivêssemos as dificuldades que nos cria, sentindo-nos felizes sempre que conseguimos contornar essas dificuldades. Ser feliz é, exatamente, viver a vida; é sorvê-la, gota a gota; é apreciar todos os momentos, aqueles em que, sós, nos confrontamos connosco, com as nossas forças e os nossos defeitos, e aqueles em que interagimos com os outros e, assim, entramos na esfera das suas vidas, contribuindo para as tornar, desejavelmente, melhores. E é isto que devemos fazer ao longo da vida, desde a infância à velhice.    

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