expresso.ptexpresso.pt - 14 mai 01:23

Os improvisos de Jerónimo são recados: "Eu não gosto de meter água"

Os improvisos de Jerónimo são recados: "Eu não gosto de meter água"

O líder do PCP marcou presença no apoio à candidatura de João Ferreira. E, entre apartes e deixas, fez do improviso a sua maior arma. Solto do guião do discurso escrito, Jerónimo de Sousa é uma máquina a conquistar o público, ao mesmo tempo que dispara recados políticos. Ele foi o protagonista da noite. E a maior vaia coube, não ao PS, mas a Joe Berardo

A noite era de jantar de mulheres apoiantes da CDU e os salões da Casa do Alentejo estavam cheios de calor. Humano, sem dúvida. E do outro, também. Tudo em abundância, como se deseja numa campanha eleitoral. Jerónimo foi o último a falar. E arrancou logo fora do guião.

No discurso, previamente distribuído aos jornalistas, não constavam as primeiras palavras. "Caros camaradas e amigos. A minha primeira saudação não vai para vós". A sala fica suspensa e em silêncio. O líder aproveitava a embalagem: "A minha primeira saudação vai para todos os que estão na outra sala. Podem não aparecer na televisão, mas estão aqui de corpo inteiro naquela que é uma das maiores iniciativas das mulheres da CDU nesta última década".

Arrancou bem. No salão do lado, sem direito a vista para o líder, mas apenas a amplificação do som, vieram os primeiros aplausos. E os dois salões uniram-se nas primeiras e sonoras palmas a Jeronimo de Sousa. Se há só uma oportunidade para criar uma boa primeira impressão, o líder comunista agarrou-a bem para preparar a sala para o que ali vinha.

E vinha muito. Vinham seis páginas de discurso, repleto de recados dirigidos sobretudo ao PS, ora acusado de lançar uma "operação de chantagem" a propósito das carreiras dos professores, ora de "repor o velho discurso do Governo anterior do PSD e do CDS de que não há alternativa". Os socialistas têm "limites na governação", fazem "manobrismos" e até demonstram "paralisantes contradições". Têm muitos defeitos e até fazem com que o líder se engasgue e perca a voz. Mas Jerónimo é rápido no gatilho. Pega no copo e molha a garganta. "Desculpem, camaradas, eu não gosto de meter água quando estou a intervir". Mas lá teve de ser. E o aparte deu azo a nova sessão de aplausos.

A 'geringonça' é nossa

Os defeitos dos socialistas podem ser muitos, mas já foram piores. Pelo menos a avaliar pela reação da sala que, antes da 'geringonça', rebentava em vaias a qualquer referência ao PS que surgisse nos discursos. Hoje não. O mundo político mudou e a assistência ouve impávida e serena as sucessivas menções às ações socialistas. Quanto muito, há um pequeno assobio que ecoa na sala, quando Jerónimo fala no PS. Em boa verdade, nada que se compare com a enorme vaia dedicada a "esse escândalo do Berardo e a sua desfaçatez". Essa sim, bateu o recorde da noite.

Quando agora o líder fala do PS, é para lembrar como é do PCP o pontapé de saída para colocar os socialistas no lugar que hoje ocupam: o do poder. "Podíamos ter ficado a um canto a lamentar a situação", diz Jerónimo, novamente fora do guião, desviando o discurso por minutos, para fazer a arqueologia da criação da 'geringonça'. De repente, volta à noite eleitoral de outubro de 2015, com a vitória do PSD e do CDS, sem maioria absoluta. "Havia até quem quisesse que ficássemos calados, com a ideia de quanto pior melhor", diz o líder do PCP. "Foi o PCP que avançou nessa noite" e essa "intervenção decisiva" foi "acertada e justa".

Não há arrependimento. Mas algum ressentimento marca o discurso do secretário-geral. Jerónimo tenta mostrar que não foi ao engano. "Sabíamos que o PS não estava virado para algumas coisas", mas a recente crise política com a ameaça de demissão de António Costa deixou uma marca diferente. "Nós continuamos, não é por causa do Governo do PS, mas para avançar na reposição de rendimentos e direitos. Se querem contar com o PCP, não recuem. Continuem a avançar", deixa como aviso.

Avançar é um verbo cheio. De propostas e de reivindicações, como o do salário mínimo de 850 euros, reclamado recentemente pela CGTP no 1º de Maio e já adoptado pelo PCP. A sala, porém, não reage. Jerónimo interrompe de novo o guião. "Outro parentesis: estava à espera que vocês reagissem nesta parte. Estão contra?", pergunta.

"Nãaaaao", responde um coro, que se levanta com palmas e gritos de "a luta continua". Era isso que o líder queria ouvir. "Se calhar pensam que será muito, como pensavam quando falávamos em 580 ou em 600 euros. Então não foi possível? Se houver luta, tenacidade e força, havemos de conseguir".

O mote estava dado. A 'geringonça' não é fácil, mas com paciência e força, está para ficar.

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