expresso.ptPaulo Barradas - 14 mai 08:13

Lira Turca invade Espanha

Lira Turca invade Espanha

Opinião de Paulo Barradas

A segunda capital do Império Romano poderá novamente desempenhar um papel determinante na história da Europa. Constantinopla volta assim a influenciar os desígnios do antigo Império Otomano, desta vez enquanto Istambul na atual Turquia.

A seguir à Argentina, a Turquia ocupa o segundo lugar mundial no pódio da moeda com pior desempenho, após desvalorizar 30% em 2018 e 14% desde o início deste ano, não mostrando ainda sinais de estabilização.

Na base desta desvalorização tão acentuada da Lira Turca tem estado a perda de confiança dos investidores estrangeiros e nacionais na capacidade e vontade do governo turco para corrigir os fortes desequilíbrios económicos, acumulados durante anos de políticas fiscais e monetárias expansionistas.

Também não ajudou à recuperação da confiança dos investidores o facto de as autoridades terem permitido a subida da inflação para 20%, atingindo um valor quatro vezes superior ao objetivo oficial do banco central.

Mas existem muitas outras razões para a perda de confiança na moeda nacional, incluindo a substituição de responsáveis económicos competentes por pessoas facilmente influenciáveis politicamente, como a nomeação do genro do Presidente para Ministro das Finanças.

A ingerência nas recentes eleições regionais de Istanbul, forçando a sua repetição, e a deterioração das relações com os EUA devido à cada vez mais próxima cooperação com a Rússia em matéria de defesa, constituem igualmente motivos de desconfiança externa.

A incapacidade das autoridades turcas gerirem a atual crise cambial aumenta significativamente a probabilidade de a Turquia entrar em incumprimento no pagamento da sua dívida externa, pondo em risco as perspectivas económicas de todos os outros mercados emergentes, bem como dos bancos europeus. Especialmente de Espanha, devido à sua elevada exposição à dívida pública turca.

Devido ao muito elevado montante de dívida pública de curto prazo, estima-se que durante o próximo ano a Turquia tenha que pagar cerca de 180 mil milhões de dólares em serviço de dívida, numa altura em que as suas reservas cambiais de moeda estrangeira já só cobrem três meses de pagamento de importações nacionais.

Da mesma forma, também o seu sector privado se financiou excessivamente em dólares, estimando-se que tenha atingido uma dívida externa de 300 mil milhões de dólares, cujo serviço de dívida será cada vez mais oneroso com a desvalorização da Lira Turca e a contração da economia.

Convém relembrar que a desvalorização cambial pode provocar falências no sector privado altamente endividado em dólares, o que piorará a confiança dos investidores e aumentará as fraquezas da moeda, num ciclo vicioso bem conhecido dos mercados emergentes. A instabilidade política será inevitável para reforçar o vício do ciclo.

A não ser que algo mude rápida e radicalmente, os restantes mercados emergentes e o sistema bancário espanhol devem preparar-se para as ondas de choque provenientes do potencial incumprimento da dívida turca. E com tamanhas ondas Portugal poderá ficar à deriva por arrasto...

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