www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 mai 08:32

Perder o medo do álcool

Perder o medo do álcool

É preciso reforçar a ideia do perigo do álcool. É preciso não permitir que se perca o medo total ao álcool só por ser legal.

Começo o texto expondo que a frase que dá título à crónica não é de minha autoria. Esta surgiu como que uma epifania atingida enquanto, numa mesa decorada com vodka, um grupo de amigos de longa data nota que, consoante avançou no tempo, tendeu a beber maiores quantidades de álcool. E a razão para esse aumento deve-se, principalmente, ao desgaste que o medo — instinto protector do ser humano — leva durante todo este processo desde adolescente até jovem adulto. Não é o corpo que se habitua, não é o corpo que aguenta mais (geralmente até funciona ao contrário). A razão disto se suceder está no facto de, durante o tal processo supradito, deixar-se de respeitar o álcool como um agente potencialmente perigoso. Entra-se de tal forma em contacto trivial e constante com ele que o próprio se torna banal e, por isso, deixa de sugerir o medo que sugeria à mesma pessoa em miúdo quando tinha 16 anos.

Penso que um miúdo de 16 anos, quando lhe é colocado ilegalmente um shot de tequila à frente num qualquer bar na zona de Santos, respeita aquele líquido. Sabe que aquilo o vai afectar, eventualmente fazer sentir mal e irá, sobretudo, saber muito mal ao paladar. Quando, já mais crescido, lhe é colocado legalmente um shot de tequila à frente, trata-se apenas de mais uma sexta-feira. Já está familiarizado com o sabor e acredita que aquilo não irá fazer grande diferença. É só mais um. O que se sucedeu? Durante estes anos esbateu o medo que tinha em miúdo. Sabe quão longe já foi e que até aí ainda é seguro.

Facilmente poderemos fazer uma comparação com a experiência de condução de um carro. No início temos medo de tudo. Evita-se conduzir em cidades apoteóticas, está-se ultra-concentrado. Depois de conduzirmos cinco anos e de o termos feito por Marraquexe, já se perde o medo da condução. Já o fizemos, já não o tememos. Então, se perder o medo e ter certas experiências é, por um lado, positivo e sinónimo de avanço como humano, por outro ser demasiado destemido e pouco prevenido poderá ser profundamente negativo. Não interessa perder o medo de tudo, sobretudo de algo como o álcool.

É que o álcool — quando consumido em excesso — é péssimo para o corpo e, em alguns casos, para o pensamento. Tocando na ferida e sendo disruptivo, em pouco difere de qualquer outra droga: altera o estado de espírito, desencadeia (normalmente) felicidade e tem efeitos viciantes. Atenção: não julgueis, caros leitores, que quem vos comunica este pensamento é o mais jovem puritano português. Pelo contrário, é alguém que bebe álcool com frequência. Simplesmente faz parte da sua natureza intelectualizar tudo e o seu ávido consumo de álcool não é excepção. Entramos então noutra questão importante.

“É que o álcool — quando consumido em excesso — é péssimo para o corpo e, em alguns casos, para o pensamento. Tocando na ferida e sendo disruptivo, em pouco difere de qualquer outra droga: altera o estado de espírito, desencadeia (normalmente) felicidade e tem efeitos viciantes. ”

Se, por um lado, esta minha mania de intelectualizar tudo é positiva no sentido em que germina o tal medo de um dia poder vir a ter problemas com o dito álcool, sinto que esta reflexão não é transversal aos jovens que, como eu, perderam o medo ao álcool e bebem com certa frequência. A diferença está no facto de eles não saberem que já não têm medo. Este consumo é perigoso e devia ser assunto. Sim, também é verdade que a boémia exagerada do ser humano sempre fez parte da sua existência e foi até potenciadora de enormes contribuições para a literatura portuguesa, como Bocage ou Pessoa. Não obstante, deve ser mencionado o perigo destes comportamentos. As pessoas reagirão como entenderem pois são indivíduos com liberdade para tal — mas a informação está exposta e o problema diagnosticado.

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É preciso que os jovens, lendo o presente texto, se identifiquem e se contagiem por esta reflexão.

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