expresso.ptDuarte Marques - 14 mai 08:24

Berardo: o idiota útil

Berardo: o idiota útil

Opinião de Duarte Marques

Na última sexta-feira o país foi surpreendido pela atitude de José Berardo na Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos. Para os mais atentos, nada daquele espetáculo terá sido de facto surpreendente. Confesso que a minha surpresa não está, de todo, na atitude e ação do empresário madeirense que criou fortuna na África do Sul, mas sim no ponto a que chegou a suposta elite do nosso país no período de 2005 a 2010.

Recordo que em apenas 5 anos o país não deu apenas cabo das contas públicas. A suposta elite que liderava o país, política e economicamente, tomou decisões que mais cedo ou mais tarde, faliram, ou quase faliram, os principais bancos portugueses como o BES, o BCP, a CGD, sem esquecer o BPP, BPN e Banif, mas que arruinaram também a principal empresa portuguesa, a Portugal Telecom, deram cabo das maiores construtoras do país e, por arrasto, do futuro de muitos portugueses.

Berardo não é o principal responsável pelas dificuldades da CGD ou do BCP. Alguém lhe pediu que interviesse no BCP, alguém lhe autorizou créditos “de favor” no banco público para tornar possível o “assalto” ao BCP e alguém se esqueceu convenientemente de tentar recuperar o dinheiro da CGD enquanto era tempo. Alguém, em 2006, lhe ofereceu o CCB para colocar a sua coleção, lhe pagou uma “pipa de massa” e lhe renovou o contrato já em 2016. Alguém como a CGD que, tal como o Estado, paga milhões todos os anos a brilhantes e mediáticos escritórios de advogados foi enganado, ou se deixou enganar, com as manigâncias em torno das suas associações/fundações, sobre a sua notável coleção e a sua titularidade por parte de José Berardo.

É por isso que três dias após a memorável e lamentável audição tenho o distanciamento e revolta suficiente para, creio que em nome de muitos portugueses, dizer que o problema não é apenas Berardo, o problema é o conjunto de gestores e decisores públicos, mas também alguns privados, mas também reguladores, que colaboraram, por negligência ou gestão danosa, num conjunto de operações seriamente lesivas para o interesse público e para o livre funcionamento do mercado.

Recordo que, entre 2005 e 2010, fomos governados por uma espécie de bando que tudo fez para controlar e condicionar a democracia, o sistema judicial, a economia e a imprensa portuguesa. Não podemos esquecer a tentativa de controlo da TVI através da PT a partir do gabinete do então Primeiro-Ministro, José Sócrates, a tentativa constante de condicionamento da opinião pública através do controlo de alguns grupos de Media, a intervenção direta em grupos económicos, sem esquecer as campanhas difamatórias organizadas por alguns membros do atual Governo e feitas através da blogosfera. Quando a Europa acorda agora para as fakenews e as campanhas de ódio e de condicionamento da opinião pública, em Portugal já conhecemos essa experiência há vários anos.

A reaparição de José Berardo nesta comissão de inquérito é apenas um déjà vú de uma triste situação que liderou o país durante um dos períodos mais negros da nossa história recente. Berardo, tal como outros, conseguiu vários empréstimos milionários, sem garantias reais e sem avais pessoais de jeito, num período em que a crise internacional já se fazia notar (basta ler os alertas e pareceres da Direcção de Risco da CGD). À sua falta de vergonha, juntou-se a falta de responsabilidade de quem lhe concedeu os empréstimos, de quem não lhe exigiu garantias reais e de quem não procurou recuperar as perdas que a CGD, o Estado e outros bancos tiveram.

José Berardo não é nenhum inocente, mas é apenas uma parte da teia que quase destruiu a economia portuguesa, o sector financeiro e as nossas finanças públicas. Alguns dos elementos chave desse período sentam-se hoje no Conselho de Ministros ou fazem parte dos lugares cimeiros da lista do Partido Socialista às próximas eleições europeias e alguns continuam por aí à espera de julgamento. Outros, mais discretos, estão já reformados ou andam por aí de negócio em negócio, de comentário em comentário, tentando passar entre os pingos da chuva.

José Berardo teve na última sexta-feira a oportunidade de colocar a nu a mediocridade do regime revelando os mandantes do assalto ao BCP feito com o dinheiro dos contribuintes. Não aproveitou a oportunidade, foi conivente e agora confirmou-se apenas como cúmplice de um período negro da nossa história.

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