sol.sapo.ptRui Pedro Braz - 11 mai 12:00

O jogo nas entrelinhas do homem que salvou o mundo

O jogo nas entrelinhas do homem que salvou o mundo

Quatro equipas inglesas disputam as finais europeias deste ano mas nenhuma é orientada por um técnico britânico.

Futebol. Muito mais do que um jogo. Incontido na sua imensidão, bebe de todas as fontes e alimenta-se insaciavelmente de sabedoria popular. Chega às bancadas e às pessoas que as ocupam, sai às ruas em torno dos estádios, segue pelas estradas que nos afastam do relvado e leva-nos até aos destinos mais remotos onde o jogo nunca sequer se disputou. O futebol chega ao passado e ao futuro, vive na memória e na ambição, perdura no coração daqueles que o vivem de forma desmedida e sem limites. Mas em parte nenhuma se vive ou alguma vez se viverá como em Inglaterra, pátria-mãe do desporto-rei. Porquê? O que tem de especial esse país onde tudo é tão diferente mas onde as regras do jogo são iguais às de qualquer outro local no mundo? Que atmosfera única é aquela que ali se respira? Que ambiente inebriante é aquele que ali se vive? Gerações inteiras que se renovam, estádios míticos que tombam para dar lugar a modernos anfiteatros, jogadores que chegam dos quatro cantos do mundo, mas o futebol inglês continua a ser único e especial. Não se explica. Sente-se.

Este ano, quatro equipas inglesas nas duas finais europeias da temporada. Simbólico. Histórico. Marcante pela ideia de poder absoluto que a Premier League projeta. Significativo na medida em que pode assinalar o momento de uma mudança de paradigma no futebol internacional caso a tendência se mantenha nas próximas épocas, algo que não vejo como muito provável que aconteça. Há uma relação causa e efeito entre os milhares de milhões que os clubes ingleses encaixam em direitos televisivos, e os resultados que estão a alcançar na Europa? Provavelmente sim. Há uma relação causa e efeito entre a dimensão física do futebol inglês nas dinâmicas de espetáculo que mantém jogo após jogo, e os resultados que estão a alcançar na Europa? Provavelmente sim. Há uma relação causa e efeito entre o facto de serem o único dos grandes campeonatos que não adotaram esta época a palermice do VAR, e os resultados que estão a alcançar na Europa? Muito provavelmente sim. Mas daí até entrarmos em profundas e apocalípticas reflexões acerca de um poderio impossível de travar nos anos vindouros vai uma distância muito grande.

O futebol inglês propriamente dito não é mais poderoso do que os restantes. A prová-lo aí estão os factos: um treinador alemão, um argentino, um espanhol e um italiano no comando dos quatro finalistas das duas competições da UEFA. Dos 16 golos marcados por Liverpool, Tottenham, Arsenal e Chelsea nas respetivas meias-finais, apenas um apontado por um inglês, o de Ruben Loftus-Cheek em Stamford Bridge. De resto, quatro golos gaboneses, três brasileiros e três franceses, dois holandeses e dois belgas, e ainda um espanhol para compor o ramalhete. O futebol sempre foi e continuará a ser um desporto global e globalizante, que concentra na Europa o melhor que o mundo tem para oferecer. Essa realidade não mudou nem vai mudar pelo facto de serem inglesas todas as finalistas internacionais de 2019, até porque apenas uma – o Arsenal frente ao Valência – foi esmagadoramente superior no acesso à sua final. As três restantes tiveram de arrancar as suas vitórias a ferros para chegarem aos jogos decisivos. Os ingleses são mais fortes? Não. Mas têm mais dinheiro. E o dinheiro, quando bem aplicado e sabiamente gerido, significa poder. Poder esse que se torna muito difícil de travar quando cai nas mãos dos melhores. E onde estão os melhores? Naturalmente, onde está o dinheiro... Entendem o dilema?

Mas mais do que no poder e no dinheiro, a verdadeira força do futebol inglês reside na sua mentalidade. Na sua cultura. Na sua forma de encarar o jogo como encaram a vida quando são afrontados. Uma forma de retaliar muito própria e que herdaram de um homem irascível mas genial, brilhante em toda a sua complexidade: Sir Winston Churchill. Impossível não partir em busca do antigo primeiro-ministro britânico ao recordarmos as épicas e históricas vitórias de Liverpool e Tottenham na semana passada. «Que tipo de gente é que eles pensam que somos? Será possível que não entendam que jamais desistiremos de perseverar contra eles até que aprendam uma lição que eles e o mundo jamais esquecerão?». Deixemos de lado o belicismo que marcava o período em que as suas palavras foram proferidas e estas poderiam ser, por si só, verdadeiras palestras de motivação em qualquer balneário de qualquer meia-final da Champions League. Lembram-se da t-shirt que Salah usou na bancada? Para Churchill só um ‘never’ não chegava: «Never, never, never give up!», afirmou num discurso em 1941, apenas um dos muitos que ficaram para sempre marcados no ADN dos ingleses. «A coragem é justamente reconhecida como a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante todas as outras!», palavras que se tornaram filosofias de vida e que forjaram toda uma nação futebolística na sua verdadeira essência. «Atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença... O sucesso não é final, o fracasso não é fatal: o que conta é a coragem para continuar!», eis a matéria de que é feito o futebol inglês, vivido à imagem e semelhança do homem que liderou a Grã-Bretanha – e a Europa, e o mundo – no mais negro período da história da humanidade. E só aqui entre nós, mesmo que Churchill ande às voltas no seu túmulo, nem o facto de o extraordinário Jürgen Klopp ser alemão faz qualquer diferença. Porque o futebol, sendo muito mais do que um jogo, será sempre, apenas e só, um jogo...

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