observador.ptRita Fontoura - 17 abr 12:16

A Páscoa, o Papa e a Notre Dame

A Páscoa, o Papa e a Notre Dame

A Europa está a arder por dentro e infelizmente não há quem possa garantir que, quando o fogo acabar, será reconstruída desde que existam os fundos. Na Europa somos nós os incendiários e os bombeiros.

Estamos em plena Semana Santa, um dos dois momentos do ano mais importantes para a humanidade. Estranhamente, hoje em dia, não chega dizer que estamos na Semana Santa. É preciso explicar: na Semana Santa recordamos a morte de Jesus, e celebramos a sua Ressurreição no domingo de Páscoa. E é tão importante porque, sem a entrega de esta homem pela humanidade, não teríamos a Redenção. Isto quer dizer que nós cristãos temos todos, em qualquer circunstância da nossa vida, a certeza e o desejo de felicidade. É esse o desejo de Deus para cada um de nós e sabemos que a chave para a felicidade está em Amar – simples!

Apesar desta entrega de Jesus por cada um de nós, optamos tantas vezes por O esquecer e viver outro padrão de vida que não se pauta pelo amor. Isso é tão frequente que actos de amor são hoje em dia episódios que se desvalorizam ou que até se escondem. É que o amor não é compatível com a corrupção, com a ganância, com a mentira. Por isso quanto mais rápido perdermos o nosso instinto natural para amar, o nosso desejo de amar, mais facilmente aceitamos com indiferença o mal ou até já nem reparamos no mal que nos propõem, dia após dia, mascarado de bem.

No plano político amar devia ser o quotidiano porque o político é, em teoria, aquele que se interessa pelos os outros, pelo bem comum. Nos nossos tempos infelizmente cada vez menos é assim. O amor deu lugar a outros interesses e quem ama em assunto político, por muito importante que seja, não é notícia. Foi isso que aconteceu no Sudão. O Papa Francisco ajoelhou-se o beijou os pés dos líderes sul-sudaneses para implorar o perdão deles entre si. E não foi notícia.

Este exemplo de humildade devia ter inundado todas as televisões, jornais e redes sociais. Devia ser alvo de debate dos programas da manhã. Devia ser motivo de discussão política, nesta época pré-eleitoral, sobre o espírito com que estamos a abordar os temas sociais. Mas não, o amor não convém ao debate político porque o amor é humilde, generoso, não é invejoso, não procura o próprio interesse e não guarda ressentimento.

Esta minha reflexão, foi motivada pelo desastre na Notre Dame a que esta semana assistimos. Todos nós, penso eu, nos comovemos com a destruição daquele símbolo da nossa fé, da nossa cultura, da nossa história como europeus, e muitos de nós também das nossas memórias de turistas. O que nos pode dizer esta tragédia?

Muito! Como é possível que uma obra de arte, um bocado de todos nós, tenha assim ardido é algo que assusta e deprime. Mas não é assim que devemos olhar para o que aconteceu. Vejo como um sinal de alerta. Olho como um símbolo do que está a acontecer à Europa. Penso que a Europa está a arder por dentro e que infelizmente não há quem possa garantir que, quando o fogo acabar, a Europa será reconstruída desde que para isso existam os fundos necessários. No caso da Europa somos nós os incendiários e os bombeiros. Somos incendiários porque abandonámos e ridicularizámos as nossas raízes cristãs, porque cegámos perante promessas vãs de igualdade e com isso nos deixamos subjugar e anular, porque deixamos de valorizar a pessoa e favor de uma massa colectiva despersonalizada. Mas também somos bombeiros porque podemos mudar, e é mudando que apagamos o fogo. Parece impossível, mas na verdade o mundo muda quando muda cada um de nós é só está mesmo ao nosso alcance mudarmo-nos a nós próprios.

Tenho esperança na Europa e em especial nos portugueses. Aproveitemos a Semana Santa para mudar o nosso coração deixando entrar o amor, o melhor conselheiro das nossas decisões.

Olhemos para a Notre Dame com os olhos da fé que se traduzem nas palavras do Bispo de San Sebastián, José Ignacio Munilla: Querida Madre, te suplicamos que esta “desgracia” se convierta en “gracia”; de forma que la restauración de tu templo, llegue a ser una parábola de la reconstrucción de la fe de Europa desde sus cenizas.

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