expresso.ptexpresso.pt - 17 abr 10:29

Líbia. “O plano de Haftar é aproximar-se o mais possível da capital para provocar deserções”

Líbia. “O plano de Haftar é aproximar-se o mais possível da capital para provocar deserções”

Quem o diz é Oumar Aboubakar, que nasceu na cidade líbia de Bengazi e vive atualmente no Chade, citando “fontes líbias”. Mas “o ataque não teve o efeito desejado, unificando todas as milícias sob a égide” do primeiro-ministro, contrapõe ao Expresso. Quase duas semanas após o assalto a Trípoli, as tropas de Khalifa Haftar estão retidas na periferia sul da capital

Pelo menos quatro pessoas morreram e 20 ficaram feridas, esta terça-feira, na sequência de pesados bombardeamentos na capital líbia, Trípoli, noticia a Al Jazeera.

Quase duas semanas após o assalto à cidade, o autoproclamado Exército Nacional da Líbia (ENL), de Khalifa Haftar, encontra-se retido na periferia sul de Trípoli em confrontos com grupos armados leais ao Governo de Fayez al-Sarraj. Este facto não impediu que o distrito de Abu Salim fosse bombardeado na última noite, com explosões ouvidas no centro da capital.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos 174 pessoas morreram e 756 ficaram feridas desde o início da ofensiva. A 4 de abril, Haftar ordenou às suas forças militares de leste que avançassem sobre Trípoli. O chefe do Governo acusa Haftar de tentar liderar um golpe.

“O país está no meio de uma nova guerra civil”

A Líbia, em turbulência desde a deposição e morte do coronel Muammar Kaddafi há oito anos, tem pelo menos duas administrações rivais: um Governo internacionalmente reconhecido, estabelecido na capital e chefiado por Sarraj, e um outro na cidade oriental de Tobruque, alinhado com o general renegado Haftar.

As forças aliadas de Trípoli acusam o ENL de disparar mísseis contra zonas residenciais. Por seu turno, as tropas de Haftar negaram qualquer responsabilidade nos bombardeamentos, acusando um grupo estabelecido na capital.

“O país está no meio de uma nova guerra civil desde que o marechal Haftar decidiu atacar Trípoli”, conta Oumar Aboubakar, que nasceu na cidade líbia de Bengazi e vive atualmente no Chade, país vizinho do sul da Líbia. “O plano do marechal é aproximar-se o mais possível da capital para provocar deserções dos grupos armados fiéis a Sarraj e levá-los a juntarem-se ao seu campo”, acrescenta, citando “fontes líbias”. No entanto, “o ataque não teve o efeito desejado, unificando todas as milícias sob a égide de Sarraj”, contrapõe ao Expresso.

Resolução britânica exige cessar-fogo imediato

Entretanto, diplomatas mandatados pelo Conselho de Segurança da ONU iniciaram negociações sobre uma resolução britânica que exige um cessar-fogo imediato. O texto proposto, a que a agência de notícias AFP teve acesso, adverte que a ofensiva de Haftar “ameaça a estabilidade da Líbia, as perspetivas de um diálogo político facilitado pelas Nações Unidas e uma solução política abrangente para a crise”.

Oumar Aboubakar sublinha que “os dois campos rivais são muito poderosos”. “Haftar é o favorito do Golfo Pérsico, do Egito e de França. Sarraj tem a Itália, a Turquia e o Qatar do seu lado”, recorda, antevendo que “a guerra na capital se arrisca a eternizar-se e a causar muitos danos em ambos os lados”.

“A guerra vai espalhar o seu cancro por todo o Mediterrâneo”, avisa PM líbio

Na segunda-feira, Sarraj disse, em entrevista ao “Corriere della Sera” que “estamos a enfrentar uma guerra de agressão que vai espalhar o seu cancro por todo o Mediterrâneo, Itália e Europa”. “Precisamos de estar unidos e firmes no bloqueio à guerra de Haftar, um homem que traiu a Líbia e a comunidade internacional”, acrescentou ao jornal italiano.

Na entrevista, o primeiro-ministro líbio avisou ainda que “não há apenas os 800 mil migrantes potencialmente prontos [para sair], haverá líbios a fugir da guerra e, no sul da Líbia, os terroristas do Daesh que o Governo de Trípoli expulsou da cidade de Sirte há três anos”. As forças de Haftar, financiadas pelo exterior, “estão a atacar estruturas civis, estradas, escolas, casas, o aeroporto e instalações médicas (ambulâncias e hospitais)”, acusou Sarraj.

“Arábia Saudita prometeu dezenas de milhões de dólares para pagar operação”, escreve WSJ

Na sexta-feira, o diário “The Wall Street Journal” escrevia que “dias antes” do início da ofensiva, “a Arábia Saudita prometeu dezenas de milhões de dólares para ajudar a pagar pela operação”. Segundo o WSJ, a oferta foi feita durante uma visita a Riade, “um de vários encontros que Haftar teve com dignitários estrangeiros nas semanas e dias antes de começar a campanha militar”.

“O general Haftar diz que está a atacar terroristas mas aqui só há civis”, prosseguia Sarraj, em declarações ao “Corriere”. A sua “ação traiçoeira trará destruição à Líbia e aos países vizinhos”, acrescentou, sublinhando que “não há negociação possível se o ataque à população não cessar”.

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