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Eis a detective dos plásticos que descobriu que uma lavagem pode libertar 700 mil microfibras

Eis a detective dos plásticos que descobriu que uma lavagem pode libertar 700 mil microfibras

A cientista britânica Imogen Napper procura origens invulgares dos plásticos nos oceanos. O seu trabalho já contribuiu para a proibição de microesferas no Reino Unido.

Imogen Napper tem apenas 27 anos mas as suas investigações sobre microplásticos já fizeram a diferença. Ao mostrar que uma embalagem de um produto cosmético pode ter quase três milhões de microesferas, influenciou a proibição destas pequenas partículas de plástico no Reino Unido. Noutro estudo, mostrou que durante uma lavagem de roupa na máquina podem ser libertadas mais de 700 mil microfibras, que irão parar ao ambiente. Por detectar plástico em sítios onde não são logo visíveis, é considerada uma detective dos plásticos.

A investigadora britânica cresceu em Bristol e desde a infância que frequenta uma praia local do Sudoeste de Inglaterra. “Passava horas e horas na praia, mas não me lembro de ver plásticos na praia quando era mais nova”, contou ao PÚBLICO depois da sua apresentação há uns tempos no Simpósio dos Exploradores da National Geographic, em Londres. “Mas enquanto fui crescendo, o plástico foi-se acumulando de forma muito rápida. O mais preocupante é mesmo como tudo está a acontecer de forma tão rápida.”

Na sua apresentação, salientou que esta é uma realidade para todos os que estavam no simpósio. “Vimos autênticos tapetes de plástico [nas praias].” Por isso, actualmente é uma “detective dos plásticos”, como se autodenomina: “Sou uma detective à procura de saber como os plásticos entram no oceano.”

Agora, Imogen Napper é exploradora da National Geographic e bolseira de investigação na Universidade de Plymouth (no Sudoeste de Inglaterra), onde trabalha com Richard Thompson, cientista que já estuda o efeito do lixo no oceano há 20 anos e que, em 2004, definiu o que são os microplásticos – partículas abaixo de cinco milímetros de diâmetro.

Mas foi ainda em 2015 que a investigação da jovem cientista começou a ficar conhecida. Num artigo científico publicado na revista Marine Pollution Bulletin, revelou que no Reino Unido havia 80 esfoliantes faciais com pequenas partículas de plástico e que cada embalagem de 150 milímetros podia ter entre 137 mil e 2,8 milhões de microesferas. Além disso, em cada aplicação do esfoliante podiam ser libertadas quase 100 mil partículas. “Conseguem imaginar lavar a vossa cara com 100 mil partículas?”, questionou no simpósio. As microesferas foram usadas para substituir os materiais naturais e depois de serem drenadas podem chegar aos oceanos.

Mas, no meio destes resultados, Imogen Napper conta que foi entusiasmante mostrar às pessoas que podem mudar as suas escolhas e que têm uma voz. “Se as pessoas começarem a não comprar esses produtos e a comprar os naturais, a indústria começará a ouvir.” E foi isso que aconteceu: “Houve pessoas que disseram que deixaram de comprar produtos porque tinham microesferas. Depois, espalharam a mensagem para outras pessoas”, diz orgulhosa. “Mas a cereja no topo do bolo foi que a investigação influenciou o Governo a proibir as microesferas no Reino Unido.”

Incluir toda a gente

Já em 2016 publicou um outro artigo também na Marine Pollution Bulletin sobre a sua outra missão como detective dos plásticos: a lavagem da roupa na máquina, a que chama “parceira no crime”. Durante um estudo de 12 meses em máquinas de lavar domésticas – que estavam no seu laboratório –, verificou que numa lavagem de seis quilos de roupa podem ser libertados cerca de 138 mil microfibras da mistura de algodão com poliéster, 496 mil microfibras de poliéster e 729 mil microfibras de acrílico. Como não são detectadas nos tratamentos de águas, estas minúsculas partículas podem chegar aos rios e oceanos.

“Imagine quantas vezes lava a sua roupa por semana, por mês e por ano e multiplique isso pela sua rua e localidade. Quando [as microfibras] entram nos oceanos já vão em grandes proporções, o que aumenta a sopa de plástico [que já existe nos oceanos]”, alertou na conferência.

Imogen Napper já está a procurar soluções para este problema. Actualmente tem uma bolsa da National Geographic e da iniciativa Sky Ocean Rescue para desenvolver tecnologias para “apanhar fibras no ciclo da máquina de lavar”. “Pode ser uma esfera ou um saco”, disse, revelando que começará as experiências em breve e que esperava ter resultados nos próximos meses. Neste momento, há já empresas a comercializar e a desenvolver filtros, esferas e bolsas para capturar microfibras durante a lavagem.

Contudo, Imogen Napper salientou que temos de voltar ao início do processo: “Como são feitas as roupas?” E referiu que temos de mudar os nossos hábitos e comprar menos roupa, ir a lojas de segunda mão ou arranjá-la quando está rota em vez de estarmos sempre a comprar.

Para a cientista é fundamental incluir toda a gente neste problema. Por isso, em 2018 embarcou numa expedição (a eXXpedition) de Vancouver a Seattle, em que se juntou a outras 23 mulheres que eram actrizes, produtoras de televisão ou contadoras de histórias. Imogen Napper era a cientista líder da expedição e tinha de recolher plástico e poluentes do oceano para serem depois estudados. “Foi assustador ver a quantidade de plástico que encontrámos só entre o Canadá e os Estados Unidos.” Mas, para si, o mais importante foi perceber que todas as mulheres tinham o seu papel na expedição: “Posso investigar, mas depois é determinante o que as pessoas farão com essa investigação e como isso as pode influenciar para uma mudança maior.”

Sobre os conselhos para resolver este problema, sugeriu: “Experimentem fazer mudanças proporcionais ao vosso estilo de vida, mas não metam tudo em cima dos vossos ombros. Se numa semana beberem da mesma garrafa e na próxima semana reduzirem os sacos no supermercado, isso influenciará o vosso estilo de vida.” Para Imogen Napper, não podemos mudar tudo sozinhos. “Cabe-nos a nós ter a iniciativa, mas a indústria tem de nos dar escolhas e o Governo tem de pressionar a indústria para que as mudanças aconteçam. Só assim teremos mudanças mais positivas.”

Há alguns anos, a cientista esteve em Portugal para surfar e agora tem uma mensagem para os portugueses: “É tão entusiasmante termos tudo o que temos desde um parque local até às nossas praias. Por exemplo, Portugal tem ondas fantásticas para se surfar. Temos de nos voltar a ligar à natureza e saber como podemos fazê-lo para tentarmos resolver este problema.”

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