expresso.ptexpresso.pt - 16 abr 23:30

Mirjana Markovic, a mulher que um dia disse a Milosevic que faria de qualquer homem presidente da Sérvia

Mirjana Markovic, a mulher que um dia disse a Milosevic que faria de qualquer homem presidente da Sérvia

Durante os anos dourados da presidência de Milosevic, os jornais publicavam os diários de Mirjana Markovic nos quais ela muitas vezes previa a próxima movimentação política do seu marido. A sua influência tornou-se tão impossível de descurar que muitas vezes a comparam a Elena, a poderosa mulher do ditador romeno Nicolae Ceausescu. Tal como eles, Mirjana e Slobodan viviam uma vida de ostentação, uma espécie de história de czares mas passada em plena década de 1990. Mirjana Markovic morreu esta segunda-feira na Rússia, aos 76 anos

Haviam de se transformar em quase 40 anos de devoção, doentia devoção um ao outro e a um ideal assassino, mas o início de tudo durou apenas alguns segundos. Numa festa de passagem de ano em 1965, na cidade sérvia de Pozarevac, enquanto ambos decoravam um salão de baile com motivos comunistas, Slobodan olhou Mirjana e desde esse dia nunca mais se separaram. O Slobodan desta história é Slobodan Milosevic, criminoso de guerra, arquiteto - mas não o único - de um dos maiores genocídios do século XX, e a Mirjana é Mirjana Markovic, sua mulher e principal conselheira, a quem vários historiadores e biógrafos atribuem hoje em dia parte da “culpa ideológica” pela campanha de terror desenvolvida pelo seu marido contra a população albanesa do Kosovo e contra os muçulmanos da Bósnia, durante a Guerra dos Balcãs (1991-2001).

“Na região ela era vista como a Lady Macbeth, a mulher que mexia os cordelinhos da presidência de Milosevic, a real origem do poder que ele detinha”, diz ao Expresso Jasmin Mujanovic, historiador e analista político especializado nos Balcãs e autor do livro “Hunger & Fury: The Crisis of Democracy in the Balkans". Marjana Markovic, continua o académico, “era uma mulher incrivelmente inteligente, muito poderosa em direito próprio, e nunca esteve dependente do marido, até porque tinha o seu próprio partido, que se coligou depois com o de Milosevic”.

Ele tinha 17 anos e ela 16. As infâncias trágicas uniram ambos num nacionalismo efervescente que não esmoreceu nem quando Milosevic foi preso, em 2001, para ser julgado por crimes contra a humanidade em Haia, na Holanda. Foi lá que morreu, em 2006, ainda antes de saber a sentença. Ela fugiu para a Rússia quando Milosevic foi capturado e o país concedeu-lhe, a ela e ao seu filho, Marko, asilo político. A Interpol emitiu um mandado para ambos, procurados por tráfico de influências, cigarros e armas e envolvimento no planeamento de assassinatos políticos, mas a Rússia nunca aceitou entregá-los. “Era tal a habilidade dela em projetar poder e dureza que foi acolhida pelos russos, não sei de muitas outras famílias dos balcãs que tivessem conseguido essa proteção, isto apesar de nessa altura a Rússia não ter o poder que, entretanto, reconquistou na geopolítica mundial”, explica Mujanovic.

Unidos pela infância terrível

Slobodan era um rapaz solitário, pouco interessado em atividades coletivas que envolvessem esforço físico e também pouco dado aos estudos. Era feliz nas reuniões do partido e desde cedo se dedicou à luta comunista. Ela, ao contrário, era uma estudante brilhante, chorava por ter “quatros” em vez de “cincos” a algumas disciplinas, como conta a hagiográfica biografia do casal escrita por Lilijana Habjanovic-Djurovic - e bastante criticada pelo meio académico por isso mesmo.

“Não há dúvida de que era brilhante, um terrível ser humano mas brilhante, uma personagem do ‘House of Cards’ autêntica. Na Sérvia ela era vista também como uma personificação daquilo que de pior existia no regime. Enriqueceu à custa do país enquanto tudo ruia à volta”, diz o historiador. “O clã Milosevic é o modelo que algumas famílias de oligarcas ainda seguem. No Montenegro por exemplo, Milo Djukanovic governa há 30 anos, ele era um dos homens de Milosevic”.

Até conhecer Mirjana, Milosevic tinha da vida uma perspectiva local. Talvez chegasse a presidente da câmara da sua cidade. Foi ela que o insuflou de confiança até porque a história trágica da sua família haveria de o contaminar mais cedo ou mais tarde. Toda a sua família próxima era profundamente deprimida: o tio e o pai suicidaram-se com tiros na cabeça e a mãe enforcou-se no lustre da casa de família. Mirjana não era tão triste, mas também a sua mãe teve um fim trágico.

A quem lhe perguntava onde tinha nascido, Mirjana respondia “na floresta”, isto porque é filha de dois partisanos que lutaram contra o nazismo de Hitler, na altura voluntariamente desaparecidos na clandestinidade. A sua mãe, Vera Miletic, foi capturada e torturada e terá dado aos nazis informação sobre a resistência. A história oficial é a de que Miletic foi traída e morta por sérvios coniventes com o fascismo, mas hoje em dia a teoria mais credível é a de que a mãe de Mirjana tenha sido executada pelos seus colegas de guerrilha por ser informadora dos nazis - o que explicaria por que razão o pai de Mirjana, Milomir Markovic, não a reconheceu como filha até ela ter 15 anos. Nunca saberemos a verdade porque todos os documentos relacionados com a vida de Vera Miletic desapareceram assim que Milosevic chegou ao poder. Mirjana pôde então começar aquela que se haveria de tornar uma das mais importantes missões da sua vida: limpar o nome da mãe, exaltá-la como guerreira antifascista.

Mirjana, porém, não cresceu desamparada. A tia que tomou conta dela depois de a mãe ser morta tornou-se numa das amantes de Tito, presidente da Jugoslávia, e tal era a atenção dada à pequena Mirjana que passou a circular o rumor de que ela era filha do próprio marechal. À página “Balkan Insight”, Nebojsa Covic, presidente da câmara de Belgrado de 1994 a 1997, disse que Mirjana sempre imaginou “ser herdeira política de Tito que todos nós somos parte da sua herança, que ela podia usar como bem lhe apetecer”.

“Um dos meus colegas historiadores contou-me um episódio que se passou numa bomba de gasolina perto da cidade onde os dois se conheceram. Alegadamente, o casal parou no posto para abastecer o carro e Mirjana partilhou que, na juventude, tinha namorado com o responsável daquela bomba. Milosevic disse-lhe então: ‘já viste? Hoje podias ser mulher de um simples dono de um posto de gasolina’. Mirjana terá respondido uma coisa assim do género: ‘Não, se eu fosse mulher dele ele seria presidente da Sérvia’”, conta Mujanovic.

Legado que perdura

Em 1965, o casal muda-se para Belgrado e vivem dias de boémia - e de alguma pobreza também. Há fotografias de Mirjana toda vestida de preto, lendo Sartre e Dostoevsky. Nasce a primeira filha, Marija, que rapidamente se incompatibilizou com a família e há muitos anos vive no Montenegro. O filho mais novo, Marko, nasce e torna-se a estrela da família. Haveria de se tornar também um dos mais temidos patrões da máfia dos Balcãs mas nem por isso deixou de ser o “cavalo selvagem” da mãe.

Depois de Milosevic chegar ao poder - e deixar para trás os motivos comunistas com os quais tinha decorado o salão de festas da sua pequena vila adotando antes posições mais próximas do fascismo - ele e Mirjana começaram a arquitetar aquilo que sempre tinham sonhado em segredo: a construção de uma Sérvia sem croatas, ou raças “mestiças”, leiam-se os árabes da Bósnia e do Kosovo. Milosevic chega ao poder em 1989 praticamente como um messias, arauto da boa nova antifascista, empedernido de nacionalismo sérvio - e é ela que o modela até que ambos são expulsos do poder pelos bombardeamentos da NATO sobre Belgrado, em 1999, em resposta ao extermínio de albaneses que se passava no Kosovo.

Durante os anos dourados da presidência de Milosevic, os jornais publicavam os diários de Mirjana Markovic nos quais ela muitas vezes previa a próxima movimentação política do seu marido. A sua influência tornou-se tão impossível de descurar que muitas vezes a comparam a Elena, a poderosa mulher do ditador romeno Nicolae Ceausescu. Tal como eles, Mirjana e Slobodan viviam uma vida de ostentação, “uma espécie de história de czares mas passada em plena década de 90”, como ilustra Mujanovic.

E a sua influência ainda não se dissipou: “A máquina de Milosevic ainda está lá, instalada, a funcionar, apesar de toda a família ter sido afastada totalmente dos ringues do poder. A ‘milosevisicação’ da Sérvia é um fenómeno real. A Sérvia não está igual aos tempos de Milosevic, é um país mais democrático mas muitos dos métodos, da forma de chegar aos objetivos, da estrutura de poder é herança desses tempos: corrupção, crime organizado, ligações do poder a esse crime, a acumulação de património, tudo isso”, acrescenta.

Num perfil escrito pela BBC poucos dias antes do bombardeamento da NATO, o antigo presidente da televisão Belgrade TV, amigo próximo do casal por mais de 20 anos disse que “Mira transformou-se numa grande líder” e que “na década de 90 a influência dele [Milosevic] diminuiu e a dela só aumentou”. “Nas principais questões políticas, é ela que está no poder”.

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